A persistência no impresso, mesmo quando o jornal não é… impresso!

Pesquisa de doutorado investiga estratégia de três veículos do campo da comunicação popular, comunitária e alternativa

Atualizado em 21/08/2026 às 17:08, por Colunista.

Capas de edições recentes dos três jornais estudados na tese (Reprodução)


Por Wagner de Alcântara Aragão*


Em cenário de minguamento do jornalismo impresso, há veículos que persistem nesse modelo. É mais ou menos assim que começa a tese: “Qual o papel do papel? O jornal impresso como estratégia de comunicação em espaços, territórios e territorialidades populares”, de minha autoria, defendida em 2025 no Programa de Pós-Graduação em Comunicação (PPGCom) da Universidade Federal do Paraná (UFPR).

É dessa pesquisa de doutorado, aliás, que deriva esta coluna, “Qual o papel do papel?”, nome com elipse, proposta aqui para o Portal IMPRENSA e que estreia com este texto. Neste, o foco está em recortes da tese propriamente dita, mas os demais, daqui para frente, devem ampliar o olhar para a exploração empírica de outros empreendimentos em comunicação que, podemos dizer, “teimam” em se manter no jornalismo impresso.

Pois bem. A pesquisa consiste em um estudo de três casos, todos no campo da comunicação popular, comunitária e alternativa. Os casos estudados são os jornais Hora do Povo, Brasil de Fato Paraná e Caderno do Bairro.

O Hora do Povo, entendido como representante do que se convencionou chamar de “imprensa alternativa”, de oposição à ditadura militar, é, daquela geração, o único veículo ainda na ativa. Brasil de Fato Paraná trata-se de uma versão regional do Brasil de Fato, projeto de movimentos sociais, notadamente o MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra). O Caderno do Bairro, por sua vez, é entendido como um jornal de bairros da porção sul de Curitiba, operária, popular.

Os três, no início da pesquisa (2021), embora evidentemente com presença online, tinham a edição impressa como, digamos, carro-chefe. No decorrer da investigação, constatou-se que sim, o jornalismo impresso se constituía como estruturante, como base, como razão de ser e existir dos três veículos. Ainda que, de lá para cá, os desafios – financeiros, principalmente – para se rodar cada edição só aumentassem. A ponto de o jornal impresso continuar existindo, mesmo sem tê-lo em papel.

Explica-se.

Dos três casos, só o Caderno do Bairro mantinha (e ainda mantém) impressão periódica, regular, de seu tabloide, que é mensal. O Brasil de Fato Paraná limitou o impresso a edições especiais, temáticas. Por exemplo, aquelas sobre a Jornada de Agroecologia promovida no estado pelo MST, anualmente. Ou uma contra a privatização da Copel, a companhia de energia paranaense, processo ocorrido em 2023. Já o Hora do Povo tem o que chama de “PDF imprimível”: cada edição é subida no site, livre para ser impressa por organizações, pelos leitores.

Mas, se o jornal em papel, em dois dos três veículos, não é rotina, como considerar esses dois títulos como “impressos” também? “Impresso” mesmo que não se imprima?

Wagner de Alcântara Aragão

É possível, porque, conforme verificou a pesquisa, nos três veículos a ideologia e as práticas do jornalismo impresso ainda estavam enraizadas nas organizações, nos processos.

Os discursos dos representantes dos três veículos iam ao encontro da defesa do jornalismo impresso como sinônimo de jornalismo, em essência. Mais ou menos assim: na concepção dos três, o que continua a fazer o público distinguir um site ou perfil de rede social qualquer de um site ou perfil de rede social jornalístico é o fato de a organização ter nascido, estar fundamentada em um jornal – no sentido literal da palavra, o do jornal produzido, editado, publicado como se fosse para o papel.

A pesquisa envolveu entrevista semiaberta em profundidade, complementada por questionário; observação direta in loco de algumas práticas (reunião de pauta e distribuição dos jornais em papel); e análise de conteúdo tanto do teor das entrevistas como de matérias veiculadas no impresso e no site de cada título. Discute, a partir das reflexões dadas pela pesquisadora Cicília Peruzzo sobre comunicação popular, comunitária e alternativa, as derivações dessa terminologia.

Dialoga com conceitos da Geografia, como espaço, território e territorialidades, fundamentados em autores e autoras na área (Milton Santos e outros). Afinal, a tese parte da premissa de que a persistência no impresso se justifica pelo vínculo construído historicamente pelos jornais estudados com espaços, territórios e territorialidades em que circulam. A tese considera os veículos de comunicação como territorialidades midiáticas. ◼

 

A pesquisa foi orientada por Myrian Regina Del Vecchio de Lima; compuseram a banca de avaliação da defesa Hendryo Anderson André (UEPG), José Carlos Fernandes (UFPR), Rogério Christofoletti (UFSC) e Zeno Soares Crocetti (Unila). Está disponível em https://acervodigital.ufpr.br/xmlui/handle/1884/97884

* Wagner de Alcântara Aragão, jornalista e professor. Tem doutorado em Comunicação (UFPR, 2025), mestrado em Estudos de Linguagens (UTFPR, 2018) e especialização em Ensino da Língua Portuguesa e Literatura (UTFPR, 2008). É graduado em Comunicação Social/ Jornalismo (UniSantos, 2000) e em Geografia (Unibem, 2004).