O prefeito que virou escritor

José Marques de Melo | 02/09/2013 17:00
Crédito:Leo Garbin
Graciliano Ramos perfilou trajetória inusitada. O anônimo prefeito de Palmeira dos Índios (Alagoas) tornou-se escritor famoso. Esse percurso inesperado, do burgo ao planeta, foi acionado por uma narrativa transgressora. Praticando um gênero enviesado, titubeante entre a literatura e o jornalismo, o autor desdenhou os cânones da burocracia. Cumpriu o dever de prestar contas ao governo, ironizando a política (e atenazando a polícia), sem consciência de fazer História. Dolorosamente.

Desta maneira o caturro escriba sertanejo implicitamente denunciou o escrivão talentoso, sendo estimulado a fazer Literatura. Assim, desfrutou em vida o reconhecimento dos pares e a consagração do público. Mas o atrevido gestor administrativo comeu o pão que o diabo amassou. Banido do serviço público, foi encarcerado, humilhado, maltratado.

Só tardiamente mereceu justiça. Exatamente em função daqueles relatórios foi proclamado patrono da Lei da Responsabilidade Civil, na conjuntura que marcou a vigência da Constituição Cidadã.

Todavia, permaneceram ignorados pela academia os escritos que revelaram o autor de Caetés. Peças muito citadas, mas nunca pesquisadas. Textos que o Prefeito Municipal enviou ao Governador do Estado, prestando contas da sua gestão pública. Durante anos, figuraram como referências adjetivas, sem análise substantiva.

Mesmo tendo sido alvo de divulgação pela imprensa da época, reproduzido em parte pelo Jornal de Alagoas e pelo Jornal do Brasil, persistia a versão de que não causara qualquer impacto sobre a opinião pública.

Ensaiei várias vezes o desvendamento de tal enigma midiático, mas nunca logrei realizar essa tarefa. Até que fui procurado pela doutoranda Sonia Jaconi, na Universidade Metodista de São Paulo. A circunstância era tipicamente pirandeliana: uma pesquisadora à procura de um objeto.

Ela tinha formação literária, trabalhava numa escola de administração e estava matriculada num programa de doutorado em comunicação. Os três requisitos me animaram a lhe propor esse objeto. Sua reação foi positiva, imediata, eficaz. E o resultado, surpreendente.

Fiquei impressionado com a empatia com que Sonia vislumbrou seu objeto empírico e a simpatia com que foi recebida pelas autoridades locais. Coube-me sugerir, especificar e iluminar o tratamento analítico a ser dado às evidências coletadas.

A autora deu ênfase, em sua pesquisa, à singularidade do relatório como gênero excepcional. Cambaleante entre o relato midiático, a narrativa literária, o discurso político e o comunicado administrativo, “Transgressão sertaneja” (São Paulo, LCTE, 2013) é livro oportuno, utilitário e instigante (ou intrigante?).

Jornalista, professor universitário, pesquisador científico, consultor acadêmico, autor de diversos livros, foi docente da ECA-USP e é atualmente o titular da Cátedra Unesco de Comunicação na Universidade Metodista de São Paulo (www.marquesdemelo.pro.br).