Dono de loja de antiguidades coleciona histórias da teledramaturgia brasileira

Gabriela Ferigato | 20/01/2015 13:15
Entrar na loja Antiguidades Bonsucesso é fazer um breve passeio por “A Casa das Sete Mulheres”, “Carandiru”, “Éramos Seis”, “O Tempo e o Vento”, “Pantanal”, “Terra Nostra”, “Tieta”... Mesmo passando em épocas e locais diferentes, todos eles têm algo em comum: o senhor Osni Oliveira, 68 anos, dono do antiquário.

Fundado em 1964, o comércio fornece peças para teatro, agências de publicidade e televisão. Seus móveis, utensílios domésticos e adereços foram os artistas em uma infinidade de novelas, minisséries e filmes. E tudo começou, lá em 1962, de maneira bastante aleatória.

Crédito:Gabriela Ferigato
Osni Oliveira mantém a Loja Antiguidades Bonsucesso há mais de meio século
“Certo dia estava com vontade de viajar, então passei o dedo pelo mapa e caiu em Cambuí (MG). Quando cheguei lá, me encantei pela cidade e encontrei muitas peças antigas. Na hora pensei: ‘vou fazer uma loja só com parte de cenografia’”, conta. Passou então a viajar cada vez mais, inclusive para fora do Brasil, para aumentar a sua coleção.

Hoje o seu acervo reúne mais de 60 mil itens. Há peças retrô dos anos 1950, art decó, art nouveau e até de estilo neoclássico da época do Império. Em suas andanças, angariou objetos de igreja, artigos sacros, vitrais, pia de batismo, cadeira de barbeiro, instrumentos cirúrgicos e tudo que vier à mente. Alguns itens não estão à venda, como, por exemplo, uma mesa de três metros e com 14 cadeiras do Império e peças da Revolução Constitucionalista de 1932.

Natural de São Carlos (SP), o gosto por móveis vem de família. Seus avós e seu tio tinham loja no ramo. Qual a sua técnica? “O sangue judeu”, brinca. “E o bom gosto e o olhar clínico, é claro”, ressalta. “Quem começou tudo fui eu. Ensinei muita gente a trabalhar, que hoje são meus concorrentes. Mas quem começou mesmo fui eu”, enfatiza. Para complementar o dom natural, ele fez um curso de arquitetura e decoração de interior.

Um de seus primeiros clientes foi a extinta TV Tupi. Atualmente, Osni trabalha com diversas emissoras, mas tem contrato de fornecedor com a TV Globo. “Tenho muito contato com o pessoal da cenografia. Comecei na área com grandes profissionais, como Arlindo Rodrigues e Irênio Maia, que já foram embora. No Rio de Janeiro, tem o Mário Monteiro, Kaká Monteiro, Raul Travassos. Vamos ficando amigos. Eu tenho acesso a todo o Projac, da Rede Globo”.

Memória
Entre as tarefas mais difíceis ao longo de mais de cinquenta anos de carreira, foi a produção da minissérie “Memórias de um Gigolô” (Rede Globo), de 1986, estrelado por Lauro Corona, Bruna Lombardi e Ney Latorraca. A história se passava no auge do ciclo do café em São Paulo dos anos 1920. “Montamos um lavatório antigo, que tinha aquelas banheiras com pezinho e com ducha alta. O vaso sanitário era de ferro. Eram peças mais diferenciadas”, diz.

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Dono do antiquário fez a locação de diversas peças para a filmagem de grandes sucessos, como "Grande Sertão: Veredas (Rede Globo)
Osni também se lembra de “Grande Sertão: Veredas” (Rede Globo), de 1985, gravado em Minas Gerais. Na ocasião, o comerciante mandou vários caminhões com mercadoria que seriam usadas para a cenografia da minissérie. Porém, um desentendimento de uma atriz com o dono da fazenda tumultuou as coisas. “O fazendeiro trancou tudo no paiol de milho e nossa mercadoria ficou toda presa até tudo se resolver. Ficou lá por três meses”, conta.

Mas não foram apenas suas mercadorias que foram alugadas. Osni fez figurações na novela “Éramos Seis (1994)”, no curta “Subcutâneo” (2003) e no longa “O Cheiro do Ralo (2007)”. Esse último, inclusive, teve como um dos cenários a Antiguidades Bonsucesso. “As vinhetas foram gravadas aqui na sobreloja. No filme, apareço na lanchonete, mas não falo nada. Depois me assisto e dou risada, mas sou crítico também”. Por ora, não há outras aparições em vista. “Algumas figurações eu dispenso. É muito corrido aqui”.

Hoje a maior parte de sua clientela vem da locação, mas o antiquário chama atenção de todo o tipo de público. Com pilhas de cadeiras, mesas, gramofones, vitrolas, bonecas, relógios decorando sua fachada, não faltam curiosos entrando e saindo diariamente da loja. “Tem gente que entra e fala ‘nossa a minha avó tinha isso’. É divertido”.

Segundo ele, muita coisa mudou da época que começou, lá em 1964, até hoje. “Mudou o custo de vida, a forma de comprar, de adquirir os contratos. Ficou mais difícil trabalhar”. No começo, o comerciante tinha um total de seis lojas em São Paulo, hoje tudo está centralizado na Rua Rego Freitas, no Centro da cidade.

Nas horas vagas, Osni não perde um telejornal sequer e confessa que é noveleiro de carteirinha. Mas não tem jeito, o ofício não o deixa nem em sua folga. “Quando assisto, fico reparando na cenografia. Se uma novela é da data de 1920, e vejo peças que não são dessa época, eu fico bravo. Isso queima a cenografia”.