Opinião: A mídia impossível, por Gabriel Priolli

Gabriel Priolli | 23/08/2016 11:00
Este que você lê no momento é um perfeito idiota. Dedicou mais da metade de sua vida profissional a uma quimera chamada “Comunicação Pública”, que, em boa hora, gente consciente trata de lhe mostrar o quanto é ilusória, ingênua e utópica.

Entre a TV Cultura e a televisão universitária (TV PUC, CNU-SP, ABTU), foram 23 anos empregados em defender um modelo de comunicação independente, voltado à educação, à cidadania, à diversidade cultural, à inclusão social pelo conhecimento. O prêmio pelo esforço é um verdadeiro 7x1 nos melhores sonhos do idiota, que, infelizmente, não está no lado alemão do placar.

A sofreguidão de Michel Temer em controlar a Empresa Brasil de Comunicação, tão logo assumiu, e a posterior intenção de reduzir a EBC a nada e extinguir a TV Brasil, anunciada quando o STF impediu a primeira meta, são muito significativas. Elas dão a exata medida do que esse governo (e todos os outros, a rigor) entende por “mídia pública”: aquela que se pode usar a bel prazer para a propaganda da gestão, a acomodação de apaniguados ou ambas as coisas.

Não é bem isso que preconiza o artigo 223 da Constituição Federal, ao falar da “complementaridade dos sistemas privado, público e estatal” de radiodifusão. Consagrando no texto legal um conceito forjado já no início dos anos 1980, os constituintes admitiram a diferença entre uma comunicação diretamente públicos, mas controlada pela sociedade, protegida de pressões e contingências de governos.

Ocorre que, qual a Viúva Porcina, a comunicação pública “é sem nunca ter sido”. Jamais passou de uma ideia generosa, que a realidade mesquinha cuida de inviabilizar. Com o empenho incansável dos mais variados governos, o apoio interessado da mídia privada e a indiferença da patuleia desavisada, a comunicação pública é tida por inviável no Brasil, um delírio de esquerdistas. Muito embora ela qualifique os ambientes comunicativos das principais democracias do mundo: Estados Unidos, França, Reino Unido, Alemanha, Itália.

Decreta-se por aqui que a única mídia pública cabível é a estatal e que esta deve ser reduzida à insignificância. Algo plenamente coerente, em um país onde a mídia privada manda e desmanda, elege e derruba governos, faz o que quer. Não se diz que, no Brasil, o estado é concessão da TV e não o contrário? Pois assim é, assim foi e assim seguirá sendo, até onde se pode enxergar.

Por que é idiota o redator destas linhas? Por acreditar que, um dia, o Brasil poderia ter uma BBC, uma RAI, uma PBS. Mais de trinta anos de debates não foram suficientes para enraizar sequer o conceito de mídia pública no país. Outros 300 não darão conta de materializá-la.

Era melhor ter acreditado em coisas mais palpáveis, como duendes, Papai Noel ou o ET de Varginha.