Documentário inédito de Gabriel Priolli, produzido pelo jornalismo da TV Cultura, destaca a luta estudantil na década de 70

Alexandra Itacarambi | 17/05/2024 08:48

A TV Cultura exibe no domingo (19/5), às 23h, o documentário inédito “Os Caminhos da Democracia – 1932 - 1977: a história do Movimento Estudantil no Brasil”, produzido pelo departamento de Jornalismo da emissora, com pesquisa, roteiro e redação do jornalista e professor Gabriel Priolli. 

 

O projeto audiovisual, que traz uma perspectiva do Movimento Estudantil, destaca os primórdios da luta em 1932, com a morte dos estudantes paulistas Martins, Miragaia, Dráusio e Camargo (MMDC) em manifestação que precedeu a Revolução Constitucionalista de 32. 

 

O documentário resgata imagens brutas inéditas, extraídas do CEDOC - acervo da TV Cultura. São cenas que mostram os avanços e recuos do movimento estudantil, às vezes conseguindo driblar a repressão; e em outros momentos, sofrendo os efeitos brutais do enfrentamento contra o regime, além de conversar com personagens que viveram a realidade do movimento estudantil na época.


Em cinco blocos, a produção de 90 minutos será apresentada pelos repórteres Jerônimo Moraes, Vanessa Lorenzini e Luiz Turati, cada um cobrindo o espaço geográfico de algum acontecimento importante nos idos de 1977. Apesar da retomada da atividade política por entidades estudantis, ainda timidamente, ocorrerem a partir de 1975, foi em 1977 que aconteceram as grandes passeatas, momento historicamente lembrado como "ressurgimento" do movimento estudantil.

 

Priolli, que foi diretor de redação de IMPRENSA nos anos 90 e tem passagens pelos principais veículos, era repórter da TV Cultura e testemunhou e gravou o levante dos estudantes contra a ditadura militar. Num depoimento pessoal, ele, que também foi aluno e trabalhou ao lado de Vladimir Herzog – assassinado pelo regime militar, relembra o papel dos estudantes no processo de redemocratização e a participação dele na cobertura jornalística dos anos 70.

Crédito:Divulgação/ TV Cultura


A seguir, IMPRENSA conversa com Priolli sobre o processo para a produção do documentário.

 

IMPRENSA - Como surgiu o projeto junto com a TV Cultura? 


Gabriel Priolli - Em meados de 2021, eu e Leão Serva, então diretor de jornalismo da TV Cultura, comentávamos sobre “Libelu - Abaixo a Ditadura”, o excelente documentário de Diógenes Muniz que a emissora havia exibido. 


Eu observei que aquele filme sobre o movimento estudantil dos anos 70 é ótimo, mas dá uma visão parcial do movimento, ao focar numa de suas correntes estudantis, a mais estridente delas, Liberdade e Luta. Disse que havia muito mais a contar e propus de fazermos isso juntos.


Seria fácil porque o acervo da Cultura tem todo o registro do que ocorreu naquele ano e naquela década em São Paulo, epicentro do ME 70. Eu era repórter à época e cobri a maioria dos eventos estudantis. A produção seria simples.


Leão topou e eu fui contratado para desenvolver o projeto - definir o formato, orientar a pesquisa de imagens, fazer o roteiro, indicar nomes para entrevistas e apoiar a produção. E assim fomos adiante.


IMPRENSA - O que determinou a escolha do período de 1932 a 1977?


O documentário teria foco em 1977, mas eu pensei em fazer uma contextualização do que os estudantes representam na história de São Paulo. 


Foi aqui que se implantou um dos primeiros cursos universitários do país, a Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, em 1827. A cidade ficou repleta de repúblicas estudantis, a atividade universitária impulsionou a vida cultural e política. 


Daí por diante, os estudantes se envolveram em todos os grandes movimentos políticos. Abolicionismo, republicanismo, tenentismo. Em 1932, foi na Faculdade de Direito que se criou o MMDC, o organismo político que articulou e levou à deflagração da Revolução Constitucionalista. 


Mais tarde, os estudantes paulistas se posicionaram contra o fascismo e pela entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial. Defenderam a nacionalização do petróleo e as reformas estruturais no pais, inclusivas e democratizantes. E lutaram contra a ditadura militar de 1964 desde o primeiro dia.


Eu fiz uma síntese disso tudo no roteiro, mas o filme trata essencialmente de 1977 e década de 70. A opção pelo título 1932-1977 foi da TV Cultura.


IMPRENSA - Quais foram as dificuldades de trabalhar com acervo audiovisual de um período tão extenso?


Não é tão difícil fazer jornalismo histórico quando você trabalha com um dos melhores acervos audiovisuais do país. E quando parte desse acervo, a que interessava ao documentário, foi você quem produziu. 


O CEDOC (Centro de Documentação) da TV Cultura é muito organizado. Tem um ótimo fichamento de filmes rodados pela emissora há 50, 60 anos. E também tem cópias de filmes de períodos anteriores. Todos em bom estado de conservação.


Eu fiz a pauta de pesquisa, os temas que importavam ao roteiro, e o CEDOC levantou. Organizou o material no drive, me enviou os links e eu fiz o visionamento, selecionando aqueles que poderiam ser utilizados. 


Quando algum trecho do roteiro não tinha cobertura em filme, a pesquisa buscou fotos, gravuras e pinturas para dar conta dele.


Veja aqui pelo Youtube da TV Cultura:


https://www.youtube.com/watch?v=1Jng0yV774A



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