Depois de perder bilhões com big techs, imprensa tenta defender direitos autorais diante de avanço da IA

Leandro Haberli | 30/04/2024 10:49
Seguindo outras marcas de renome da indústria mundial de notícias - como o francês Le Monde, a agência Associated Press e os grupos Axel Springer, da Alemanha, e Prisa Media, da Espanha - o Financial Times (FT) anunciou ontem um acordo com a OpenAI para treinar modelos de inteligência artificial a partir de seu conteúdo.

Com a parceria, o jornal britânico especializado em economia e negócios licenciará suas matérias para o fabricante do ChatGPT, a fim de que elas sejam usadas pela inteligência artificial (IA) generativa como base para a criação de textos e imagens.

Dessa forma, o acordo permite que o ChatGPT, que conta com 100 milhões de usuários no mundo, responda a perguntas dos usuários com resumos de artigos do FT acompanhados de links das reportagens nas quais os textos gerados pela IA foram baseados. 
Crédito: Reprodução
Disputa bilionária

Aparentemente amigáveis, acordos entre a OpenAI e veículos de imprensa na verdade são uma espécie de resposta a uma disputa judicial bilionária envolvendo regras de propriedade intelectual. Ocorre que, depois de assistir passivamente ao Google e outras big techs lucrarem alto com seus conteúdos, sem pagar praticamente nada por isso, grandes grupos de mídia internacionais estão tentando evitar a repetição do fenômeno, desta vez a reboque do avanço da IA generativa. 

O New York Times, por exemplo, etá processando a criadora do ChatGPT e sua parceira Microsoft por violação de direitos autorais. Na ação judicial, o veículo afirma que, devido a tal violação, perdeu bilhões de dólares com o avanço da IA generativa.

Para evitar uma potencial onda de condenações judiciais em ações movidas por veículos de imprensa, a OpenAI vem buscando compensar veículos jornalísticos pelo uso de seus conteúdos. Nos EUA, a empresa ofereceu até US$ 5 milhões (R$ 24,6 milhões) por ano a grupos de mídia.

Muitos deles, porém, estão reclamando que o dinheiro não é suficiente e que os termos de uso e distribuição de conteúdo propostos pela OpenAI são inadequados.

Outras empresas de notícias, porém, teriam aceitado os valores propostos pela OpenAI. É o caso da editora alemã Axel Springer Ink, à frente de títulos como Politico, Business Insider, Bild e Die Welt. 

Por sua vez, a Apple teria feito ofertas acima de US$ 50 milhões para licenciar as informações de empresas de mídia. A ideia da empresa, que também desenvolve IAs generativas, é evitar problemas como os enfrentados pela OpenAI e Microsoft.

Como bem resumiu, não sem grande dose de pessimismo, o jornalista Donie O’Sullivan, da CNN dos EUA, em participação no painel “AI and Journalism: The Massive Consequences When Truth is AI”, que aconteceu recentemente durante o festival SXSW, os veículos de imprensa demoraram para defender os direitos autorais de seu conteúdo e agora correm atrás do prejuízo.

“Deixamos as redes sociais comer nosso lanche e agora vemos a OpenAI fazendo algo mutio parecido. Eu não tenho esperança de que a nossa indústria vai saber dominar essa tecnologia."