Guerra ideológica e tentativa de interferência política: entenda o que está por trás da CPI da TV Cultura

Leandro Haberli | 25/04/2024 15:46
Aliado do governador paulista Tarcísio de Freitas e membro do Movimento Brasil Livre (MBL), o deputado estadual Guto Zacarias conseguiu reunir 35 assinaturas, mais do que as 32 necessárias, para instalar uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp) que visa investigar a Fundação Padre Anchieta (FPA), responsável pela TV Cultura.

Mas, para que a CPI seja criada, também é necessário que ela passe na frente de outras protocoladas anteriormente na Alesp. Mesmo sem a instauração da CPI, Fábio Magalhães, presidente do Conselho Curador da Fundação Padre Anchieta, e José Roberto Maluf, diretor da TV Cultura, poderão ser ouvidos nos próximos dias pela Comissão de Educação e Cultura da assembleia. 

Oficialmente, o objetivo da CPI é investigar a eleição do Conselho Curador e os gastos da entidade, que é parcialmente mantida com recursos do governo de São Paulo. Diretores da emissora, porém, dizem o que parece óbvio: está em curso uma tentativa de interferência política na TV e em seu jornalismo.
Crédito: Marcelo Camargo-Agência Brasil
Deputados da base do governo Tarcísio de Freitas defendem fim de repasses à Fundação Padre Anchieta
No ano passado, a Fundação Padre Anchieta recebeu R$ 125 milhões em repasses do governo paulista, dos quais R$ 102 milhões foram gastos com despesa de pessoal. Além da TV Cultura, a Fundação mantém as rádios Cultura FM e Cultura Brasil, MultiCultura Educação, Univesp TV e TV Ra Tim Bum!

Vice-presidente da TV Cultura, Eneas Pereira afirmou à imprensa que a emissora opera com 60% de recursos próprios. Apenas 40% seriam oriundos do governo estadual. Para ele, além de tentativa de interferência política, a CPI é resultado de uma guerra ideológica. 

Por sua vez, o deputado Zacarias tem afirmado que o Conselho Curador da Fundação Padre Anchieta, formado por 47 conselheiros, que atuariam de forma voluntária, está inchado e é uma espécie de cabide de empregos. O parlamentar também defende o fim dos repasses do governo de São Paulo à TV Cultura. Para sustentar tal medida, ele tem atacado, de forma um tanto desconexa, a cobertura jornalística feita pela emissora da tragédia ocorrida em São Sebastião, no litoral norte paulista, no ano passado.

A esse respeito, a diretoria da TV Cultura diz que foram produzidas e exibidas 35 matérias sobre o tema, além de inúmeros boletins jornalísticos e dois documentários disponíveis no Youtube.

Disputa antiga

Os ataques de políticos conservadores ao jornalismo da TV Cultura não são de hoje. Em 2022, durante debate entre candidatos ao governo do estado de São Paulo, o então deputado estadual Douglas Garcia hostilizou a jornalista Vera Magalhães, que apresenta semanalmente o programa Roda Viva na emissora. 

Na ocasião, o parlamentar questionou Vera sobre seu contrato com a Fundação Padre Anchieta e repetiu várias vezes, aos berros, que ela é "uma vergonha para o jornalismo". A frase foi a mesma usada pelo ex-presidente Jair Bolsonaro contra Vera durante debate entre candidatos à Presidência  realizado semanas antes.

Vera Magalhães afirmou à época que recebia um salário bruto mensal da Fundação Padre Anchieta de cerca de 22 mil reais. Ao gerar grande audiência e prestígio para a programação da TV Cultura, muitos especialistas acreditam que ela mereceria ganhar muito mais.

Mesmo assim, apoiadores de Jair Bolsonaro passaram a afirmar que Vera ganhava dinheiro do governo do estado de São Paulo para atacar o ex-presidente. Para isso, divulgaram nas redes, como se fosse seu pagamento mensal, o valor equivalente a dois anos do salário recebido por Vera da Fundação Padre Anchieta.