Apesar de onipresente, a cobertura do meio ambiente pela imprensa regional do Norte é heterogênea

Troféu Mulher IMPRENSA

Marcus Ribeiro | 31/05/2023 07:18

As percepções, especialmente no que diz respeito a cobertura do meio ambiente, tema mais latente hoje no mundo, é bem díspar nas duas cidades de maior visibilidade e de presença econômica da região Norte do Brasil: Manaus (AM) e Belém (PA). Para entender como as jornalistas do Norte percebem o trabalho dos seus pares na região, conversamos com as jornalistas Manuella Barros e Marlu Almeida. Experientes, as duas somam trajetórias bem diversas: Manuella, 42 anos e 23 de carreira, é formada em jornalismo pelo Centro Universitário Nilton Lins, com especialização em Gestão e Produção Cultural pela Universidade do Estado do Amazonas (UEA). Passou por jornais locais como Diário do Amazonas, Correio Amazonense, Amazonas em Tempo e A Crítica, e também atuou em TV, no canal Amazon Sat, foi chefe de pauta na TV A Crítica e editora do Portal D24am. Atualmente ela integra a equipe de coordenação da Secretaria de Estado de Comunicação Social do Amazonas. 


Marlu, por sua vez, cursou jornalismo na Universidade Federal do Pará, fez assessoria de imprensa e entrou no mundo da tevê, onde está há três décadas, passando por produção, reportagem e edição. Hoje, ela é chefe de reportagem na RBATV, afiliada da Bandeirantes, em Belém (PA).


Essa bagagem das profissionais e a experiência em cada uma das cidades traz visões bem diversas quanto à cobertura da mídia. Manuella não vê, por exemplo, um componente regional na cobertura do tema onipresente na região: o meio ambiente. “Não temos editorias ou programas voltados para a questão, além da Amazônia Real, que trabalha com reportagens especiais. Os veículos fazem uma cobertura mais superficial e pouco se aprofundam na questão, especialmente no interior do estado”, completa.


Regional ou nacional?


A razão desta superficialidade na cobertura do território é logística e monetária, afinal muitos municípios possuem apenas acesso fluvial e isso demanda custo e tempo. Manuella cita, como exemplo, uma recente cobertura na terra dos Mura, em Autazes – município distante 113 quilômetros de Manaus -, que está em evidência: “O valor para duas pessoas é de, no mínimo, R$ 5 mil. Tem que ir de barco, depois alugar uma lancha, dormir na comunidade, porque não tem hotel. Se for de carro é ainda mais caro”, enumera a jornalista. 


Marlu aponta que o Pará é peculiar, o que se reflete na cobertura jornalística. “Seja pela cultura local, riquíssima, a culinária, o canto, nos costumes e as tradições do povo paraense. Aí predominam elementos locais próprios, como na religião, com a devoção por Nossa Senhora de Nazaré, e a prova maior de manifestação de celebração católica: o Círio de Nazaré”, explica.


No geral, as emissoras de tevê seguem a linha de combate à violência, nos mais diversos níveis, e de comportamento. “Acompanhamos muito a linha da cobertura nacional por aqui, com o adendo de temas locais como conflitos indígenas, queimadas, seca e questões da fauna e flora. O meio ambiente rende pautas abrangentes. Afinal, o mundo todo está com os olhos voltados para a nossa Amazônia”, completa. Ela lembra que a COP30, em 2025, será em Belém, o que deve ampliar essa cobertura.


Crédito:Alex Pazuello/Heitor Costa
Manuella Barros e Marlu Almeida, jornalistas da região Norte

Veículos alternativos


No Pará, aponta Marlu, a mídia alternativa encontra dificuldades de se firmar, pois enfrenta grupos de comunicação que estão estruturados há tempos. “Localmente, os alternativos sobrevivem na Internet e em rádios comunitárias, e agora em podcasts”, completa.


Um cenário não muito diferente, neste caso, em Manaus. “Atualmente, além dos veículos tradicionais, tem muito blog e sites na cidade e a cobertura é feita praticamente por celular, o que facilita na questão do imediatismo da informação. Com os equipamentos mais leves, eles têm mais mobilidade para oferecer imagens de qualidade e até para entradas ao vivo”, garante Manuella.


Contudo, existe mídia independente regional e comandada por mulheres. Manuella cita o caso do Amazônia Real, veículo que tem à frente as jornalistas Elaíze Farias e Kátia Brasil, e que traz reportagens sobre povos indígenas, quilombolas, ribeirinhos, defensores ambientais, mulheres, crianças e adolescentes e migrantes, entre outros temas.


Diversidade


Embora a presença das mulheres no mercado seja carente, no que diz respeito a cargos de maior peso, para Manuella Barros, jornalista de Manaus, não existe uma barreira explícita para as mulheres chegarem aos cargos de liderança na comunicação, mas sim o reflexo do machismo estrutural enraizado no Norte como em todo o País. “Existem mulheres no cargo de chefia, porém ainda não é um número significativo”, critica.


Sobre o cenário no Pará, Marlu Almeida também tem uma visão realista. “Avançamos, mas não temos direitos iguais, e não apenas no mercado da comunicação. Conheci, ao longo de duas décadas e meia de atuação no jornalismo, apenas uma mulher em cargo de comando na comunicação, não mais que isso. Fruto, ainda, de herança estrutural da nossa sociedade patriarcal”, conclui.


Quanto ao futuro das mídias regionais, as duas são otimistas. “Tenho esse sentimento quanto ao foco e espaço do jornalismo regional, assim como o espaço para as mulheres, estamos no caminho para furar essa bolha e conquistar mais destaque”, garante Manuella. Ou como finalizou Marlu: “As mulheres têm se posicionado, mas essa mudança de mentalidade é de médio a longo prazo. Não se faz mudanças estruturais da noite pro dia”.


Indicações populares


Para reconhecer o trabalho das mulheres jornalistas pelo Brasil, na edição do Troféu Mulher IMPRENSA deste ano, haverá uma categoria para cada região do país com indicação feita pelo público, com as inscrições abertas no site do prêmio.


As categorias de consulta popular visam homenagear as jornalistas ou comunicadoras brasileiras que se destacam na relação com o público na sua região e produzem jornalismo regional, ou seja, informação jornalística gerada dentro do território de pertença e de identidade em uma dada localidade ou região.



Serviço:

17ª. Edição do Troféu Mulher IMPRENSA 

Indicação popular: de 16 de maio a 16 junho 2023

www.portalimprensa.com.br/trofeumulherimprensa

#trofeumulherimprensa


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