“O jornalismo regional é de interesse nacional”, sintetiza Mariama Correia

Alexandra Itacarambi | 18/05/2023 10:20

A diversidade regional dentro e fora das redações, as potências do jornalismo de proximidade, o jornalismo cívico, os desafios enfrentados em campo, como a segurança e o impacto psicológico, e o avanço dos direitos da mulher nos últimos anos foram alguns dos principais assuntos do bate-papo do lançamento da 17ª edição do Troféu Mulher IMPRENSA. Realizado na segunda-feira, dia 15, na capital paulista, a gravação do evento está disponibilizado on demand no Portal IMPRENSA, e conta com o apoio institucional da Intercom e da ESPM, e com patrocínio pelo terceiro ano consecutivo da Bayer. 


A abertura desta edição especial, com o tema regionalidade, teve a participação das jornalistas Nina Weingrill da Énois, Jéssica Moreira do Nós, Mulheres da Periferia e Mariama Correia, representando a PROJOR, com a mediação do professor da ESPM Ricardo Gandour. 


Jéssica Moreira, cofundadora do Nós, Mulheres da Periferia analisa que nesses dez anos o cenário de conquistas dos direitos das mulheres foi se modificando e avançamos muito, com maior representatividade das periferias. Contudo, os desafios ainda são maiores. “Tem que ser discutido políticas públicas pensadas para comunicação local, para financiamento da comunicação local e é necessário multiplicar esse conhecimento que a gente vem adquirindo para que outras tantas mulheres, outros estudantes, as populações negras, indígenas, periféricas, também possam se utilizar desse jornalismo que nasce a partir dos territórios. E, claro, cada território tem sua especificidade”, diz.


Na última pesquisa do Atlas da Notícia, um projeto da PROJOR que mapeia o jornalismo local no Brasil, aponta que ano após ano o jornalismo digital tem avançado, mas que o rádio continua com uma importância muito grande, pois chega nos municípios pequenos. Na pandemia, muitas rádios comunitárias foram responsáveis por esse trabalho informativo essencial para suas comunidades. A coordenadora da pesquisa da região Nordeste, Mariama Correia, conta que “o jornalismo online vem ajudando a, digamos assim, reflorestar esses desertos de notícias que hoje cobrem boa parte do Brasil. Hoje, 14% da população brasileira vive em regiões de deserto de notícias, que são lugares que não tem jornalismo local mapeado pela pesquisa do Atlas, ou seja, nesses lugares as pessoas não se informam sobre a realidade local”.


Nina Weingrill traz para o debate o comportamento do jornalista nas redações, o que nos EUA e na América Latina está se denominando de jornalismo cívico. “Do cidadão que também é jornalista e não do jornalista cidadão, como se configurou aqui no Brasil, que tem um estigma quase pejorativo, como se não pudesse reportar a partir do seu território”. E pondera que nem sempre a melhor saída para um caso de denúncia ou de violência, por exemplo, é fazer uma matéria, ou que nem sempre quem exerce a função de informar nas comunidades é um jornalista. Existem outras iniciativas, outros meios e formatos, conforme cada realidade local.


Mariama acrescenta que as regiões nordeste e norte são as campeãs em termos de proporção de desertos de notícias no Brasil. “Isso diz muito sobre essa discussão que a gente está falando de concentração da mídia. Mais de 60% dos municípios nordestinos são desertos de notícias. São lugares onde as pessoas não têm acesso à informação sobre a prefeitura, sobre o problema do posto de saúde, não tem ninguém ali fiscalizando o poder público local, o que é que os vereadores estão fazendo na Câmara. Então, esse é um campo muito fértil para desinformação”, pontua.


Crédito:Roberto Braga/ ESPMSP


Diversidade


“É muito importante também a gente discutir dentro desse ponto da diversidade, a diversidade regional. Que possam ter pessoas de outras regiões nas equipes aqui dos grandes jornais, das redações grandes em São Paulo, no Rio de Janeiro, em Brasília, porque esse olhar vai contribuir para qualificação da própria cobertura. E aí, não só trazer pessoas dos seus territórios para outros, mas também a diversidade regional no nível de oferecer condições de trabalho para as pessoas que estão nos seus territórios para elas continuarem lá. Porque é importante que elas continuem lá fazendo diferença”, diz Mariama, que também é editora e repórter na Agência Pública em São Paulo.


O PL das Fake News também foi pauta do debate, no contexto do financiamento deste ecossistema da informação. Nina, cofundadora da Énois e consultora para organizações de jornalismo, analisa que “dentro desse projeto tem um artigo que prevê a remuneração de jornalistas e de organizações de jornalismo com dinheiro que vem dos impostos das plataformas para o exercício do jornalismo. Só que quando a gente vai pensar em política pública, não há dinheiro na publicidade, nas plataformas, na filantropia, suficiente para sanar, para “repovoar” esse deserto de notícias. Então, a gente precisa começar a pensar em políticas públicas que deem suporte para construção dessas outras narrativas, que são tão importantes para essa cobertura local. Precisamos pensar dentro da indústria, em como ela deve ser diversa, mas fora dela também como é que esse ecossistema sobrevive, porque sem olhar para isso, ele não vai sobreviver”.


Jéssica conta que o trabalho junto com toda a equipe do Nós, Mulheres da Periferia é de fortalecer essa identidade, de fortalecer esse ‘jeito nosso de ver o mundo’. “Quero pegar um exemplo recente que não é de uma mulher periférica, mas de uma mulher que teve autonomia da sua narrativa, a Rita Lee. Quando sai uma capa de jornal dizendo uma frase que ela mesma criou, você diz ‘nossa essa mulher teve autonomia’, autonomia antes de morrer de dizer qual a capa de jornal que ela gostaria. E aí, a pergunta que eu deixo é: quais são as mulheres negras e periféricas que podem ter essa autonomia?”. 


Indicações populares


O jornalista Ricardo Gandour que ministra a disciplina “Cenários Midiáticos Locais, Hiperlocais e Regionais” na ESPM, ressalta que o jornalismo local não é só cobertura, também é recheio, usando a metáfora para ressaltar esse vetor de proximidade com o público e como isso afeta as relações entre jornalistas e fontes. Também reforçou as frases citadas no debate: “o jornalismo regional é de interesse nacional” e “como que as estatísticas batem no seu portão”.


Gandour ainda lembrou que, na edição do prêmio deste ano, haverá uma categoria para cada região do país com indicação feita pelo público, com as inscrições abertas no site do prêmio.


As categorias de consulta popular visam homenagear as jornalistas ou comunicadoras brasileiras que se destacam na relação com o público na sua região e produzem jornalismo regional, ou seja, informação jornalística gerada dentro do território de pertença e de identidade em uma dada localidade ou região.



Serviço:

17ª. Edição do Troféu Mulher IMPRENSA 

Indicação popular: de 16 de maio a 16 junho 2023

www.portalimprensa.com.br/trofeumulherimprensa

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