Perseguição a mulheres jornalistas e tecnologias de espionagem são destaque no primeiro dia do Congresso da Abraji

Redação Portal IMPRENSA | 04/08/2022 10:48
Começou nesta quarta-feira (3) o 17º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo. Realizado anualmente pela Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo) desde 2005, o evento acontece até domingo (7), em São Paulo, com mais de 80 atividades e cerca de 200 palestrantes

Pela primeira vez o congresso tem formato misto. Nos dois primeiros dias as atividades serão online e gratuitas e o conteúdo ficará disponível por 30 dias. Já na sexta, sábado e domingo o acesso à programação será pago e presencial, com as atividades sendo realizadas na Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP ), na capital palista. O último dia é dedicado à quarta edição do Domingo de Dados, com cursos, oficinas e técnicas atrelados a jornalismo de dados.
Crédito: Reprodução

Com mais de 20 palestrantes internacionais, o evento também debate temas como agravamento da repressão a jornalistas em regimes autocráticos, proteção e segurança de jornalistas, desinformação e checagem, cobertura especializada, jornalismo local e independente, técnicas de investigação, podcasts, documentários, jornalismo colaborativo e investigativo e Lei de Acesso a Informação.
 
O Golpista do Tinder

No primeiro dia do evento, os repórteres Kristoffer Kumar e Natalie Remøe Hansen, do portal norueguês Verdens Gang (VG), contaram como o caso de Shimon Hayut, criminoso que aplicou golpes milionários em diversas mulheres na Europa por meio do aplicativo de relacionamento Tinder, acabou virando o documentário mais assistido na história da Netflix. 

Batizada de O Golpista do Tinder, a produção acumula mais de 52 milhões de visualizações e baseia-se na investigação jornalística feita pelo VG. Correspondente do portal nos Estados Unidos, Erlend Ofte Arntsen contou na mesa de abertura do evento que não foram poupados recursos para permitir que os jornalistas investigassem o caso, transformando-o em um produto jornalístico digital multiplataforma com repercussão em jornais de todo o mundo. Exemplo disso foram as viagens em busca de fontes feitas pelos repórteres que atuaram na cobertura por diversos países da Europa e Oriente Médio. 

Jornalistas mulheres ameaçadas na AL

Também no primeiro dia do evento foi realizado um painel sobre ameaças a mulheres jornalistas na América Latina, que começou com uma apresentação da jornalista Paola Ugaz, correspondente do ABC da España no Peru. Ela vem sofrendo assédio judicial que inclui medidas protetivas que a proíbem de sair do país.

A perseguição começou após a jornalista denunciar em suas reportagens que governantes e autoridades da cidade de Piura vendem urânio e plutônio a extremistas do Oriente Médio. Por mais irônico que possa parecer, a própria Paola passou a ser acusada por governantes locais de comercializar os elementos químicos de forma ilegal.

Outra história abordada foi a de Maria Teresa Montaño Delgado, correspondente de diversos veículos de comunicação mexicanos e jornalista no The Observer, que vem sofrendo ameaças, campanhas de difamação e foi alvo de um sequestro relâmpago em 2021. Tudo por sua cobertura da atuação dos carteis mexicanos.

Já Gabriela Martinez, jornalista do El Universal que trabalha na fronteira de Tijuana (México) com os EUA, falou sobre a perseguição que passou a sofrer após denunciar um caso de tortura sexual cometido por agentes de segurança contra mulheres em situação de vulnerabilidade social. Suas reportagens mostraram que, além de não serem punidos, os acusados subiram de cargo. Além de ameaçada, Martinez foi alvo de notícias falsas e campanhas de difamação.

Espionagem

Também no primeiro dia do evento, o jornalista francês Laurent Richard, que fundou a Forbidden Stories (Histórias Proibidas, em inglês), falou sobre o software israelense Pegasus, que vem sendo usado por governos mundo afora para monitorar jornalistas e opositores.

Comercializada pela empresa israelense NSO, no Brasil a ferramenta despertou interesse do governo do presidente Jair Bolsonaro, que em 2021 tentou adquiri-la. 

Richard contou que a Forbidden Stories criou o Projeto Pegasus com apoio do Laboratório de Segurança da Anistia Internacional. A iniciativa envolve mais de 80 repórteres de 17 organizações de mídia em 10 países, que tiveram acesso a uma lista com 50 mil números de telefone que estavam sendo espionados, incluindo de jornalistas de veículos como Le Monde, France Télévisions, Le Figaro e AFP. Ainda segundo Richard, o ataque acontece através da infecção de aparelhos celulares e notebooks.

O trabalho do Forbidden Stories teve forte repercussão internacional, desestimulando o governo brasileiro de adquirir a tecnologia de espionagem. A apresentação de Richard contou com participação de Jurema Werneck, diretora-executiva da Anistia Internacional Brasil, e foi mediada pelo jornalista e escritor Leandro Demori.