Lei contra notícias falsas extermina veículos jornalísticos independentes russos

Redação Portal IMPRENSA | 15/07/2022 16:05
Fortemente acentuada com a guerra na Ucrânia, a censura russa sobre o jornalismo produzido e veiculado no país levou ao colapso de todo um ecossistema de veículos de notícias independentes, isolando cada vez mais o público local do resto do mundo.

O ápice da repressão estatal aos veículos e profissionais de imprensa russos ocorreu com uma mudança no Código Penal aprovada oito dias após a invasão da Ucrânia. Com ela, tornou-se crime a divulgação de quaisquer “informações falsas” envolvendo o exército russo e a guerra com o país vizinho. De acordo com a lei, os jornalistas não podem descrever o conflito como uma “guerra”, e sim como “operação militar especial”.

Quem for considerado culpado por passar “informações deliberadamente falsas” sobre os “relatórios confiáveis” do governo terá que pagar multas pesadas, cujos valores equivalentes em reais ultrapassam os R$100 mil. Caso as "falsidades" sejam sobre os militares russos, os jornalistas podem ser condenados a penas de até 15 anos de prisão.

Mais de 30 veículos fecharam

Desde que a lei foi aprovada, mais de 30 meios de comunicação russos foram forçados a fechar, incluindo Meduza, The Moscow Times, TV Rain, Znack e The Bell.

Considerado o principal jornal independente do país, o Novaya Gazeta, que era editado pelo vencedor do Prêmio Nobel da Paz de 2021, Dmitry Muratov, suspendeu as operações após ameaças do Roskomnadzor, o temido órgão regulador de mídia russo. Já a Echo of Moscow, uma das poucas estações de rádio independentes da Rússia, foi retirada do ar durante o horário nobre.
Crédito: Reprodução DW
Em entrevista ao veículo britânico Press Gazette, especializado em jornalismo e liberdade de imprensa, o jornalista Alec Luhn, correspondente da Vice News na Rússia, diz que “o pouco jornalismo independente que restava" no país acabou.

Guerra sim, questionamentos não

“Ficou muito claro após a invasão que nenhum jornalismo independente seria tolerado, porque as apostas foram muito altas. Esta é uma invasão que custou muito caro. Muitos soldados estavam voltando para casa em sacos de cadáveres. (...) o Kremlin não queria que ninguém pensasse em questionar as motivações dessa guerra, o custo dessa guerra, a necessidade dessa guerra. Eles só queriam mobilizar a população e não ter nenhum tipo de jornalista intrometido levantando qualquer dúvida.”

Também ao Press Gazette, Samuel Greene, diretor do Instituto da Rússia no King's College London, observou que apenas meios de comunicação oficiais concordaram com a imposição do uso do termo "operação militar especial" em vez de guerra.

“Para qualquer jornalista que se considere independente, uma imposição dessas é difícil de engolir. Por isso muitos profissionais e veículos decidiram que, se não pudessem cobrir a guerra honestamente e com segurança, não o fariam. Já um terceiro grupo de jornalistas optou por fugir do país para que pudesse continuar reportando com segurança."