“O jornalismo é essa mediação, precisamos entender onde podemos evoluir para não repetirmos preconceitos”, diz Adriana Couto

Troféu Mulher IMPRENSA

Adriana Cardoso | 17/06/2022 08:31

Ter mais jornalistas negros e, principalmente, mulheres negras nas redações ocupando espaços de poder é essencial para tornar mais plurais e democráticas as discussões levadas ao grande público. Na visão de jornalistas que participaram do terceiro bate-papo no lançamento da 16ª do Troféu Mulher Imprensa, ocorrido na última terça-feira (14) com patrocínio da Bayer, uma redação mais diversa dentro de toda a cadeia de produção da notícia é uma forma de não replicar o racismo.


Gravada nos estúdios da ESPM/SP, na zona sul da capital paulista, a terceira mesa do programa trouxe o tema “Não basta aceitar, tem que desejar a mudança”, que teve mediação do jornalista Juca Guimarães, repórter da agência Alma Preta, e participações das jornalistas Débora Freitas, apresentadora do CBN São Paulo, da Rádio CBN; Adriana Couto, apresentadora do programa Metrópoles, da TV Cultura; e da cartunista Fabiane Langona, da Folha de S. Paulo.  


Para Adriana, a democratização do jornalismo começa nas redações. Afinal, ter uma redação diversa funciona como uma espécie de radar para detectar preconceitos antes que possam ser replicados. “O jornalismo é essa mediação importante dentro da sociedade e precisamos entender onde podemos evoluir para não repetirmos preconceitos”, disse.


Muito em voga hoje em dia, a discussão sobre o que é politicamente correto, na opinião da jornalista, contribui para barrar a reverberação daquilo que não cabe mais perpetuar. “Não dá mais para usar termos pejorativos para falar de pessoas negras, pessoas com deficiências e para tratar das questões da mulher”, observou.

Sobretudo, na opinião dela, o politicamente correto dentro do jornalismo funciona como um importante exercício de liberdade. “A gente se desamarrar de termos e conceitos é difícil, mas a redação diversa pode ajudar nisso.”

Crédito:Deka Carvalho


Diversidade


Assim como Adriana, Débora também enxerga as redações como ainda muito brancas, principalmente nos espaços de poder. Além disso, ela refletiu sobre um aspecto não muito visto nas grandes empresas: os comitês de diversidade.

“A maior parte das empresas de comunicação não tem um comitê de diversidade e não se fala sobre isso. O racismo é um problema, mas não se discute como a gente não reproduz o racismo, porque é muito fácil reproduzi-lo”, pontuou.


Apesar de reconhecer que houve avanços na representatividade negra nesse e em outros campos da sociedade, a âncora da CBN acredita que a maior parte dos brasileiros não se vê representada nas telas de TV ou atrás de um microfone de uma rádio. E, lembrando do tema do bate-papo, ela frisou: “Não é só desejar a mudança, tem que fazer a mudança!”.


Dentro de seu trabalho na CBN, ela tenta dar voz a quem não tem voz, pois vê a renovação de fontes como um espaço de reflexão muito importante no jornalismo. “De uma forma intuitiva, eu tento fazer isso usando as ferramentas que tenho, trazendo especialistas negros para falarem sobre todo e qualquer tema que não seja só sobre racismo, negritude. Busco trazer referências de autores e intelectuais negros, pois isso é muito importante”, enfatizou.


Crédito:Deka Carvalho

Artes gráficas


O fato de ser mulher, ainda que branca, impôs uma série de desafios à cartunista Fabiane para desbravar um ramo de atividade essencialmente masculino, que é o das artes gráficas.


“Também senti essa dificuldade porque o universo das artes gráficas, do humor, sempre foi um ambiente muito masculino, até porque sempre existiu um paradigma de que as mulheres não tinham a acidez necessária, o humor necessário para fazer críticas. Às mulheres sempre foi reservado um espaço de fragilidade, de delicadeza”, disse.


Desde muito cedo, ela começou a publicar seus próprios quadrinhos justamente por não se ver representada nas artes produzidas por homens. “Sempre senti muita falta dessa representatividade, dessa inclusão, porque o ponto de vista masculino não me cabia, até porque o ponto de vista masculino sempre foi mais sexista, da piada da loira ou da piada da mulher supostamente não intelectualizada. Isso me agride, isso me ofende, eu não me sinto nesse lugar”, criticou.


Foi a partir dessa indignação que ela buscou usar a sua arte para discutir questões mais femininas e nas quais se enxergasse, como dignidade menstrual, sexualidade e violência doméstica. Contudo, ela lamentou o fato de que ainda há pouquíssimas mulheres dentro das artes gráficas no Brasil.

Crédito:Deka Carvalho


Serviço:


Programa de lançamento TMI 2022 disponível em

www.portalimprensa.com.br/trofeumulherimprensa


Indicação popular aberta de 14 de junho a 13 de julho de 2022



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