Audiência pública do Senado expõe agressões, ameaças e ataques a jornalistas

Redação Portal IMPRENSA | 15/06/2022 12:45
A Comissão de Direitos Humanos (CDH) do Senado realizou nesta quarta-feira (15) uma audiência pública para discutir os ataques à liberdade de imprensa e os riscos à atividade jornalística observados atualmente no Brasil.  O evento contou com a participação de diversos profissionais de imprensa, incluindo Jamil Chade (UOL), Patrícia Campos Mello (FSP), Octávio Costa (ABI), Natalia Mazotte (Abraji), Maria José Braga (FENAJ) e Bia Barbosa (Repórteres sem Fronteiras).

A audiência foi requerida pelo senador Humberto Costa (PT-PE), que é presidente da CDH. Lançando mão de dados de relatório feito pela Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ), ele lembrou que o Brasil registrou, só em 2021, mais de 400 ocorrências de agressões e ataques a jornalistas.

“Esta constância está associada a três fatores: às ações do presidente da República; às ações dos auxiliares e apoiadores do presidente; e à censura estabelecida pelo governo aos profissionais da Empresa Brasil de Comunicação (EBC). O que observamos diuturnamente é que o presidente Bolsonaro busca desqualificar e descredibilizar o papel dos jornalistas, sendo ele próprio responsável por inúmeros ataques à imprensa, o que demonstra grande desrespeito à democracia, à Constituição Federal”, defendeu o senador.

Terroristas digitais

Primeiro profissional de imprensa a falar, Sylvio Costa, fundador do Congresso em Foco, relatou o recrudescimento de atos de violência contra os jornalistas que trabalham no veículo. Segundo ele, ao longo de 18 anos de existência, o site sofreu vários ataques e ameaças, "mas nada comparável ao que estamos vivendo atualmente". Ele informou que a jornalista Vanessa Lippelt, que é editora do site, está de licença médica e impedida de trabalhar devido ao estresse emocional causado por ataques e ameaças desferidos por pessoas que Costa chamou de "terroristas digitais".
Crédito:Reprodução YouTube
"O que ela fez de errado? Nada. A não ser praticar seu ofício com correção", disse o fundador do Congresso em Foco, lembrando que uma das matérias de Lippelt que mais causaram ameaças foi sobre uma escola paramilitar de Brasília voltada a crianças com a partir de 5 anos, que submeteria seus alunos a treinamentos e a canções com letras que estimulam a violência. Costa citou o trecho de uma das canções. "A pele do inimigo eu pus no mastro da bandeira, por isso sou chamado faca na caveira."    

O fundador do Congresso em Foco também citou o caso do repórter Lucas Neiva, que recebeu ameaças de morte após assinar uma matéria sobre um fórum na internet cujos usuários estimulam a criação de conteúdo desinformativo favorável ao presidente Jair Bolsonaro. 

Ataques à democracia

Em seguida, Jamil Chade, via vídeo-chamada, falou sobre o caso do desaparecimento de Dom Phillips e de Bruno Pereira. "A violência não é um acidente. Esse não é um caso isolado. Hoje a Amazônia chora e sangra. Mas é o Brasil também que chora e sangra."

Chade também buscou analisar os motivos que levaram a imprensa a ser um alvo de ataques. "A imprensa é atacada porque ela faz parte da infraestrutura da democracia. (...) Portanto, o que está sob ataque não é um profissional ou um veículo. E sim a própria democracia. Se não entendermos isso, temo que nós não conseguiremos formular uma resposta a tudo isso."

Também via vídeo-chamada, Patrícia Campos Mello falou sobre o clima de hostilidade e violência que os jornalistas enfrentarão durante a cobertura das eleições deste ano. "Como vai ser trabalhar numa eleição marcada por uma campanha de desinformação em relação à integridade do processo eleitoral?", perguntou a jornalista, lembrando que, para conseguir trabalhar, a imprensa precisa de segurança.

"Hoje em dia existe uma ecossistema paralelo de informação. Há uma série de sites, blogs e perfis nas redes sociais que fazem uma versão distorcida da realidade. (...) Para que a gente consiga manter uma sociedade baseada em fatos, precisamos de segurança para trabalhar."