Plataforma jornalística Earth News Terra busca revelar potencial dos biomas brasileiros

Redação Portal IMPRENSA | 07/06/2022 13:27
Foi lançada em 5 de junho, Dia Mundial do Meio Ambiente, a Earth News Terra, plataforma bilíngue voltada à cobertura jornalística de assuntos ligados a meio ambiente, clima e geografia humana. Tendo como um dos pilares a proposta de divulgar o conhecimento de povos tradicionais, aproximando tais saberes ancestrais da ciência, a parte editorial do projeto é comandada pelo jornalista Lourival Sant'Anna.

Conhecido por sua atuação como analista internacional em veículos como CNN Brasil e Estadão e também por sua experiência na cobertura de guerras e conflitos armados, Lourival explica na entrevista a seguir que o Earth News Terra também tem como missão editorial mostrar o potencial da Amazônia e de outros biomas brasileiros para a produção de fármacos, alimentos, cosméticos e matérias-primas.

"As soluções para os problemas da humanidade, na forma de princípios ativos, insumos industriais e até os algoritmos do comportamento dos seres vivos estão escondidos na Amazônia e em outros biomas. Nossa tese é de que o Brasil só será um país avançado se descobrir essas soluções e, claro, patenteá-las. Para isso, é preciso promover o encontro entre a ciência e o conhecimento dos povos que vivem na floresta, que a entendem intimamente."

Na conversa a seguir Lourival também fala sobre os conflitos observados em territórios amazônicos e lamenta o desaparecimento do jornalista Dom Phillips e do indigenista Bruno Pereira.
Crédito: Reprodução

Portal IMPRENSA - Como surgiu a ideia de criar a plataforma?
Lourival Sant'Anna - Há vários anos observo um debate estéril e um dilema entre levar prosperidade para os 30 milhões de pessoas que vivem na Amazônia e a preservação da floresta. Esse impasse parte do princípio equivocado de que para extrair riquezas da floresta é preciso destruí-la. A floresta de pé tem riquezas muito mais valiosas do que o que a pecuária, a soja, a extração de madeira depredatória e o garimpo podem oferecer. Essas riquezas estão escondidas na floresta, na forma de princípios ativos para fármacos, alimentos, cosméticos, matérias-primas e insumos industriais, entre outras soluções. Para descobri-las, precisamos ouvir os povos tradicionais, que conhecem a floresta como ninguém, e juntar esse saber com a produção científica, para produzir patentes que trarão prosperidade para as pessoas que vivem na Amazônia e para o Brasil. Só então o Brasil se tornará um país avançado, porque a Amazônia ocupa metade do território brasileiro. Mas isso se aplica também à Mata Atlântica, à Caatinga, ao Cerrado, ao Pantanal e aos Pampas.

Portal Imprensa - Por que ela é bilíngue? 
Lourival Sant'Anna -  Porque esse é um tema que tem apelo mundial. Realizei duas expedições pela Ásia, em abril e maio, e discuti essa questão com muitos profissionais, que também fazem diagnósticos semelhantes sobre os territórios em que atuam. Em 2019, passei dois meses na África, e percebi a mesma coisa. O Earth News Terra trará histórias de todo o mundo. E mesmo os projetos aqui do Brasil podem e devem fazer a interface com povos tradicionais, cientistas, organizações e empresas de outros países, como aliás já tem acontecido. Isso precisa ser intensificado, ampliado e amadurecido em termos da atuação de todos e da regulação por parte do Estado brasileiro. 

Portal IMPRENSA - Quem está por trás do projeto? 
Lourival Sant'Anna - Sou o editor, e o Marcello Queiroz, que foi diretor de redação do Propmark, cuida das relações institucionais. A equipe cresce a cada dia, e conta com nomes como a repórter indígena Luciene Kaxinawá, baseada em Rondônia, mas que percorre toda a Amazônia; o documentarista Adriano Gambarini; o fotógrafo Érico Hiller; o médico Fabio Tozzi; a nutricionista Valéria Paschoal. O projeto envolve muitas áreas do conhecimento.

Portal IMPRENSA - A ideia é conseguir patrocinadores? Como foi planejado o financiamento da plataforma? 
Lourival Sant'Anna - Sim. Demos o start com recursos próprios e estamos em busca de patrocínio.

Portal IMPRENSA - O assunto meio ambiente é amplo. Como vocês buscaram encaixar as diferentes pautas sob esse guarda-chuva? Existem diferentes 'editorias'? Além de ambiente, a ideia é cobrir outros temas?
Lourival Sant'Anna -  Nosso foco é o ponto de encontro entre o conhecimento dos povos tradicionais, a natureza e a ciência, em busca de soluções de desenvolvimento sustentável. Não achamos que seja possível encontrar essas soluções sem considerar as pessoas que vivem nos biomas, nem pensar na prosperidade delas sem a preservação da natureza. Então é um ângulo abrangente e ao mesmo tempo fechado dentro de uma estratégia clara.

Portal IMPRENSA - Hoje há muita tensão em algumas regiões da Amazônia, principalmente devido a conflitos entre pecuaristas, garimpeiros, madeireiros, indígenas e preservacionistas. Você acha que sua extensa experiência como repórter de guerra pode ajudar a cobrir esses conflitos? 

Lourival Sant'Anna - Sim, a cobertura de guerra nos ajuda a aperfeiçoar as técnicas de apuração num ambiente violento e de logística complexa. E também nos treina psicologicamente para trabalhar sob ameaça e risco real de morte. Fiz também muitas coberturas na Amazônia e em outros biomas, no Brasil e no mundo, onde existem esses conflitos. 

Portal IMPRENSA - Como analisa nesse contexto o desaparecimento do jornalista Dom Phillips e do indigenista Bruno Pereira?
Lourival Sant'Anna - Conheço o Vale do Javari, onde eles desapareceram. Cobri lá o início do contato da Funai com o povo isolado Korubo, em 1998. Integrantes do grupo indígena haviam matado o chefe do posto avançado da Funai, no ano anterior. É uma região muito violenta. Fica na fronteira com a Colômbia e o Peru. Há muito contrabando de minérios, madeira, peixes ornamentais e droga. Estou torcendo para que o Dom e o Bruno apareçam vivos. O caso coincide com a Cúpula das Américas, e lembra o mundo das atividades ilegais na Amazônia. Não seria justo dizer que não haja esforços de valorosos servidores públicos, na área ambiental, indígena e policial, para enfrentar essas atividades. Mas é preciso incrementar essa repressão. Por outro lado, o Brasil estará sempre enxugando gelo, se não oferecer uma alternativa de geração de renda sustentável para as pessoas que vivem lá. Nas minhas expedições pela África, vi exemplos de ex-caçadores e contrabandistas convertidos em fiscais e policiais florestais. O conhecimento deles do terreno e do comportamento dos animais passou a ser usado a favor da preservação, e as receitas do turismo trazem prosperidade para eles e para os países. Exemplo: os territórios dos gorilas em Ruanda, onde estive em 2019. É isso: envolver os habitantes das regiões nas soluções e não tratá-los como parte do problema.

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