Relatório analisa impactos da desinformação e da violência política na internet contra jornalistas

Redação Portal IMPRENSA | 02/05/2022 10:08
Um relatório produzido pela Gênero e Número, em parceria com a ONG Repórteres Sem Fronteiras, revelou quais são os efeitos da desinformação e da violência política contra jornalistas, comunicadoras e lgbtqia+. 

A pesquisa foi realizada com 237 profissionais em 2021, ainda durante a pandemia, e divulgada na última semana, às vésperas do dia do trabalho. 
Crédito:Reprodução
Trabalho é fruto de uma parceria entre Gênero e Número e a ONG Repórteres Sem Fronteiras
Trabalho é fruto de uma parceria entre Gênero e Número e a ONG Repórteres Sem Fronteiras
Os resultados são alarmantes. Entre os entrevistados, 85,6% avaliam que a desinformação é uma das razões para que os ataques contra jornalistas sejam naturalizados. Foi ela também a responsável por fazer com que 54% mudassem sua rotina profissional, e 14,7% desenvolvessem algum problema relacionado à saúde mental. 

Metade dos profissionais ouvidos afirmaram já terem sofrido algum tipo de violência, sendo 41,9% são pessoas que se identificam como do gênero feminino. Em situações de violência online, o número vai a 81,4%, sendo 67% mulheres. 

Comentarista de política, colunista e apresentadora do Roda Viva, Vera Magalhães, contou à equipe de pesquisadores sobre a retaliação que sofreu quando revelou que o presidente Jair Bolsonaro (PL) convocaria atos contra o Supremo Tribunal Federal (STF). 

"Nessa ocasião, vieram ameaças mais claras, com a publicação, por exemplo, de onde os meus filhos estudavam, nome da escola dos meus filhos, que eu tive de recorrer para que o Twitter tirasse aquela postagem porque colocava os meus filhos em risco". 

Juliana Dal Piva, colunista do UOL que liderou a produção do podcast "A vida de Jair" também foi alvo dos apoiadores do presidente em uma série de ataques pela internet. 

"A minha família também sofreu retaliação de trabalho por causa do podcast [A vida de Jair]. É assim, pressão pra cima de pessoas da minha família por causa do meu trabalho. Então eu tô lidando com tudo isso, e tentando voltar a trabalhar, mas eu não me sinto cem por cento. Eu tenho dificuldade de me concentrar agora, tenho dificuldade de manter a concentração. Trabalho muito, eu gosto muito de trabalhar, eu gosto muito de ser jornalista, de trabalhar com a reportagem, mas isso tudo mexeu muito comigo e com a minha família", conta. 

Bolsonaro, que travou uma cruzada contra jornalistas desde sua eleição, é sempre mencionado em pesquisas relacionadas à violência contra a profissão. Desta vez, não foi diferente: 86% das entrevistadas perceberam um aumento na desinformação desde que ele chegou ao Palácio do Planalto.

"É uma violência de gênero muito clara porque quem ataca avalia que a mulher é mais frágil, que vai se intimidar e recuar diante desse tipo de ataque violento, mas o efeito tem sido o contrário, hoje em dia quem tá na linha de frente da denúncia dos abusos, dos arbítrios do governo, do autoritarismo do presidente, dos absurdos cometidos durante a pandemia, são as jornalistas mulheres", analisa Vera Magalhães. 

Para tentar se blindar dos ataques, 31% dos profissionais resolveram mudar ou diminuir a forma como utiliza as redes sociais. Já 14% prefere evitar produzir conteúdo sobre determinados assuntos; 5% precisaram fechar as contas em redes sociais. 

Ainda sobre o impacto no dia a dia de trabalho, 10% relataram que perderam o ânimo para desenvolver o trabalho - e ainda não o recuperaram. 

Os tipos de violência também foram elencados pelo estudo. Xingamentos e palavras hostis aparecem com 35,4%, em primeiro lugar. Ataques ao trabalho somam 34,1%, desqualificação do trabalho realizado, 33,7%, e ataques misóginos ou com conotação sexual, 19%. 

O Facebook é ainda o principal meio de atuação para esse tipo de 'hater'. Foi na rede social que 26% dos ataques ocorreram. Logo atrás está o Twitter (20%), as páginas dos respectivos veívulos de informação (17%), Instagram (14%) e até mesmo o WhatsApp (12%). 

Os canais de denúncia, no entanto, não funcionam como deveriam: 26% afirmaram que não conseguiram efetuar a denúncia contra os ataques junto às plataformas - 1,3% sequer conseguiram denunciar. Para 52% dos respondentes, deveria existir uma lei mais dura para punir quem produz e dissemina fake news. 

Além de Vera Magalhães e Juliana Dal Piva, Caê Vasconcelos, Kátia Brasil, Schirlei Alves e Martha Raquel Rodrigues também concederam entrevistas ao projeto. 

Perfil 

Entre os entrevistados pelo estudo, 43% se identifica como mulher, cisgênero, branca e sem filho; 78% trabalham em capitais e tem renda superior a R$ 5,5 mil. A maioria atua como pessoa jurídica, freelancer ou prestador de serviços, e são profissionais qualificados, com ensino superior completo e pós-graduação, com mais de 10 anos de atuação. 

A idade média é de 33 anos. Quase metade dos respondentes (48,9%) atua com mídia digital; outros 28,7% com assessoria de imprensa.

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