"ABL representa diversas categorias da cultura brasileira", diz Merval Pereira, recém-eleito presidente da entidade

Redação Portal IMPRENSA | 21/12/2021 17:01
Eleito presidente da Academia Brasileira de Letras no início de dezembro, o jornalista Merval Pereira é conhecido por suas análises políticas. Tendo começado a trabalhar em O Globo no final da década de 1960, como estagiário, Merval passou pelas redações do Jornal do Brasil, onde foi editor-executivo, e de Veja, onde foi editor nacional e chefe das sucursais no Rio de Janeiro e em Brasília.

Ele voltou ao jornal O Globo em 1994 e liderou importantes transformações na transição digital do veículo. Em 2003, afastou-se dos cargos de chefia e desde então mantém uma coluna no jornal.

Também comentarista da CBN e da GloboNews, Merval entrou na ABL em 2011, no lugar do escritor Moacir Scliar. Dono da cadeira 33 da academia, o jornalista estará à frente da instituição em seu aniversário de 125 anos.

Na entrevista a seguir, concedida por email ao Portal IMPRENSA, Merval fala sobre as iniciativas programadas para celebrar a data, além de comentar passagens de sua carreira e relatar em síntese a experiência de mais de 10 anos como membro da ABL. Merval também comenta críticas ao jornalismo político e econômico do país e a possibilidade de um escritor indígena vir a se tornar membro da ABL.  
Crédito: Reprodução G1/GloboNews
Jornalista Merval Pereira durante posse administrativa na Academia Brasileira de Letras
Portal IMPRENSA - Você é neto de Clodomir Cardoso, político que chegou a ser senador pelo Maranhão. De alguma medida essa relação familiar te inspirou a seguir o caminho do jornalismo político? Ou isso foi um acaso na sua vida?
Merval Pereira - Meu avô foi Prefeito de São Luiz, levou a eletricidade à cidade, interventor no Maranhão e morreu senador. Mas era jornalista também. Fundou um jornal chamado “A Pacotilha”. Pode ser que seja alguma coisa hereditária, mas não houve nenhuma influência direta, a não ser o ambiente em casa, favorável à leitura e à cultura.

Portal IMPRENSA - Como você descreveria o panorama do jornalismo nacional na época em que você trabalhou no Jornal do Brasil? 
Quando estive no JB, como editor-executivo, no início dos anos 1990, ainda havia uma competição entre O Globo e o JB, embora o primeiro já fosse líder de vendas no Rio. Quando comecei a trabalhar no Globo, em 1968, o JB era o grande jornal nacional. O Globo superou a concorrência, mas o JB ainda manteve sua influência por longo tempo, mesmo perdendo a concorrência. 

Portal IMPRENSA - Como foi sua passagem pela Veja?
Fui editor nacional da Veja em São Paulo, convidado pelo Elio Gaspari, que era diretor-adjunto da revista. Dei sorte porque foi uma época de ouro da revista, praticamente todos os grandes jornalistas trabalhavam lá. É diferente trabalhar em revista, a maneira de escrever é outra, a abordagem do assunto é distinta. Foi muito estimulante, mas confesso que prefiro o jornalismo diário. 

Portal IMPRENSA - Qual a importância para a ABL, nos campos simbólico, representativo e até financeiro, da recente eleição de Fernanda Montenegro e Gilberto Gil como imortais?
No campo simbólico, eles mostram que a ABL é uma Casa de diversidade plural, que acolhe e representa diversas categorias da cultura brasileira. Do lado financeiro, não há nenhuma mudança, eles estão lá para produzir cultura.

Portal IMPRENSA - Como avalia a possibilidade de um escritor indígena, como o Daniel Munduruku, vir a ser eleito membro da ABL?
Com bastante satisfação. O Munduruku teve uma votação expressiva e já anunciou que será candidato novamente, o que muito nos agrada.

Portal IMPRENSA - Considerando a missão da ABL de zelar pela língua nacional, que fica evidente em projetos como o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, como você avalia a discussão em torno da linguagem inclusiva e da linguagem neutra?
Não nos posicionamos oficialmente sobre essa questão porque ela não está posta de maneira formal. Como a ABL é, por lei, responsável pela definição de normas da língua portuguesa no Brasil, quando o assunto se tornar oficial, tomaremos posição. No momento, temos apenas opiniões pessoais. 

Portal IMPRENSA - Em que pé está o desafio da ABL de organizar e publicar toda a correspondência de Machado de Assis?
Já publicamos em cinco volumes, um produto de alta qualidade que estará à venda a partir de março na Livraria Acadêmica, que volta a funcionar na sede da ABL. 

Portal IMPRENSA - Uma das críticas que se faz ao jornalismo brasileiro é que ele busca repercutir uma única corrente de pensamento econômico, ignorando que nem todos profissionais da área, seja na academia ou no mercado, pensam da mesma forma. Como você avalia essa crítica?
Acho que há uma tendência majoritária entre os economistas, que independe de posição política. O equilíbrio fiscal, por exemplo, acho que é indiscutível, e quando se sai dele, como aconteceu no governo Dilma ou está acontecendo agora no governo Bolsonaro, as coisas desandam, a inflação volta, o desemprego aumenta. 

Portal IMPRENSA - Você entrou na ABL em 2011, no lugar de Moacir Scliar. O que mais te marcou nesse período como imortal? 
A cada dia que passa entendo mais e mais a importância da ABL como principal instituição da cultura brasileira e o valor de seus objetivos - defender a língua e a cultura. Sempre que é instada pelos acontecimentos a se posicionar em defesa da liberdade de expressão e da liberdade de informação, a ABL se pronuncia, o que a torna um sustentáculo da democracia no país, no momento difícil que estamos vivendo.

Portal IMPRENSA - A ABL fará, sob sua gestão como presidente, 125 anos. Que iniciativas estão programadas para essa celebração?
Vamos fazer uma reunião aqui no Rio com diversas academias estaduais, e teremos a Academia de Ciências de Lisboa e a Academia Francesa participando, se não presencialmente, pelo menos virtualmente. Vamos discutir a importância das academias para a cultura nacional. Pretendemos também editar um livro com a história da Academia e fotos de nosso arquivo das diversas Casas onde se instalou a ABL até receber do governo francês o Peter Trianon. Como esse fato se deu a partir da Exposição Internacional que se realizou no Rio em 1922, para festejar o centenário da Independência, toda a programação cultural da ABL em 2022 será em torno desses três acontecimentos: Semana de Arte Moderna de 1922, Exposição Internacional e Bicentenário da Independência. Pretendemos também acrescentar à visita guiada que retomaremos em março uma peça teatral sobre Machado de Assis e a ABL. Temos uma exposição de móveis que pertenceram a Machado de Assis que poderá ser utilizada para esse fim. O acadêmico Geraldo Carneiro já está trabalhando nessa ideia, que certamente terá em Fernanda Montenegro um apoio importante, se não na participação direta, certamente na concepção da peça. 

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