“Tudo que é cuidado a mulher vai dar conta e jogam uma responsabilidade ainda maior do que a gente já tem”, diz Vanessa Pessoa

Redação | 15/12/2021 08:24

Com um formato diferenciado de uma entrega formal de prêmio, o programa híbrido “As jornalistas Imprecindíveis” celebrou as conquistas de cada uma das vencedoras desta edição e promoveu bate-papos para compartilhar a visão das vencedoras de como enfrentar os desafios da pauta dos direitos humanos.


Para falar sobre a “Transformação do mercado de trabalho para as jornalistas", IMPRENSA recebeu Carla Bigatto, da rádio BandNews FM São Paulo, e Vanessa Pessoa, Assessora da Secretaria de Mobilidade e Trânsito (SPTRANS). O painel mediado pela professora Francine Altheman (ESPM), trouxe à tona questões recorrentes nas redações em relação à equidade salarial e de condições para as mulheres.


Francine Altheman destacou a vagarosidade em relação à ascensão profissional das mulheres jornalistas, pautada especialmente pelas dificuldades. "Percebemos as diferenças de gênero em diferentes aspectos. O primeiro que vem à mente é a diferença salarial. Hoje mesmo, os números do IBGE, mostram que as mulheres recebem quase 30% a menos que os homens. E eu percebo isso no meu entorno".


"É por isso que é tão importante que haja um aumento da presença nos cargos de liderança. Tem muita coisa que melhorou, avançou, mas a gente ainda tem que crescer bastante, principalmente nessa questão da representatividade e diversidade. E se o futuro é feminino, temos que ocupar mais estes espaços", completou Vanessa Pessoa.


Vanessa ainda destacou como a violência de gênero atinge as mulheres dentro e fora das redações, seja na forma da própria violência física, seja na violência verbal. "É uma luta nossa a busca em ocupar esses espaços com respeito".


Crédito:IMPRENSA

"Claro que a gente tem que lutar e mostrar que isso está acontecendo. Mas temos de encontrar um equilíbrio nisso. A gente está sempre esticando a corda, puxando um pouquinho mais aqui e ali, que acaba trazendo uma tensão para o ambiente. E fica aquela dúvida: quanto de fato estamos sendo respeitadas e quanto esse machismo está sendo perpetuado num ambiente em que, teoricamente, estamos sendo respeitadas", afirma Carla.


Vanessa toca num ponto fundamental, a sobrecarga da mulher: “Uma coisa que me incomoda é que jogam para a gente a área do cuidado. Tudo que é cuidado a mulher vai dar conta.  Uma coisa que me incomoda bastante é a frase ‘vocês fazem tudo, vocês dão conta de tudo, é melhor vocês fazerem’ e jogam para gente uma responsabilidade ainda maior do que a gente já tem. As mulheres acabam sendo responsáveis por este cuidar, da casa, dos filhos, dos pais, do trabalho, de certa forma isso só nos sobrecarrega, o que queremos é equidade de gênero, não queremos ser mais, queremos ser respeitadas, no trabalho, nos lugares de fala, na rua, em casa”, desabafa.


Já o bate-papo sobre “O jornalismo feito por mulheres e os direitos humanos”, mediado pela jornalista Marilu Cabañas, da Rádio Brasil Atual, contou com as presenças de Cinthia Toledo, da TV Globo, e Márcia Cirino, Assessora Agência Weber Shandwick.


Marilu Cabañas destacou os números de mulheres atingidas pela Covid-19, apontando como essa presença feminina no mercado de trabalho é a base da economia brasileira.


Márcia Cirino disse que não se surpreende em ver que as mulheres negras são muito mais impactadas, pois existe um contexto que coloca essas mulheres nesse lugar. "Quando pensamos na falta de acesso e recursos não é surpreendente ver este dado. Prestarmos atenção a isso e chamar para esse debate é um trabalho diário".


Crédito:IMPRENSA

Ao destacar a importância do jornalismo de direitos humanos, Cinthia Toledo fala dos entraves para abordar o tema. "O primeiro desafio é quebrar essa barreira. As pessoas não querem ouvir. Já escutei muitos homens questionando por que o feminicídio, ou seja, o crime contra a mulher tem que ter uma tipificação a mais. E aí temos de explicar", frisa.


Para a âncora da TV Globo, nem todos conseguem enxergar a importância desse tipo de tipificação para a criação de políticas públicas que evitem que uma mulher seja atacada por conta do seu gênero.


"Quando dizemos que 'vidas negras importam' e alguém retruca que todas vidas importam. Claro, que todas as vidas importam, mas a minha vida não está em risco pela cor da minha pele", destaca Cinthia Toledo.


As jornalistas concordam que, embora pareça repetitivo abordar essas pautas quase que diariamente, é essencial para que o público passe a ter empatia pelo tema e possa mudar o olhar sobre essas realidades. É uma realidade: a cada 9 horas uma mulher foi assassinada durante a no Brasil, vítima de feminicídio.


"A informação tem um papel muito importante, pois ajuda as pessoas a reavaliar, repensar e pensar em seu papel nisso. É preciso tipificar os crimes contra as mulheres para não naturalizar isso", conclui Márcia.



Desinformação


A repórter especial da TV Globo, Sônia Bridi foi escolhida para o Grande Prêmio de “Contribuição ao Jornalismo” desta edição do Troféu Mulher IMPRENSA. 


Após o evento, a jornalista conversou com a reportagem de IMPRENSA e falou sobre o impacto das fake news no mundo atual. Além disso, ela fez uma análise de como a desinformação será um desafio no Brasil durante a corrida presidencial em 2022.


"Acho que será um ano de muito ataque e violência. Violência verbal, e eu espero, que não tenha violência física, mas o fato é que nós, jornalistas, estamos correndo risco, pois tivemos violência física na última eleição e podemos voltar a ter agora. Acho que vai ser uma eleição muito, muito difícil".


Crédito:Debora Matos/ESPM




"As maiores vítimas da desinformação são as pessoas desinformadas", afirma Sonia Bridi no Troféu Mulher IMPRENSA










Para Sônia, independentemente de quem sair vencedor do pleito, o Brasil terá um trabalho muito grande pela frente, pois na visão da repórter, "a régua está muito baixa." 


"As nossas conquistas democráticas, coisas que tínhamos como garantidas foram destruídas. E seja for que ganhe, acho que vai ser muito confortável deixar a régua baixa. O importante é que o vencedor, primeiramente, não seja alguém empenhado na destruição, mas que seja alguém empenhado realmente na reconstrução, no reforço das instituições democráticas deste país e a imprensa é uma delas". 


Imprensa contra as fake news


O advento das fake news e o estrago que a desinformação decorrentes dela causaram muitos danos à democracia e, infelizmente, foram responsáveis por boa parte das mortes pela Covid-19 no Brasil. A imprensa teve papel fundamental em fazer checagens e comprovar a inveracidade de informações erradas divulgadas, inclusive pelo presidente da República.  


Sônia Bridi fala do tema com preocupação. "Chegamos a um momento em que as pessoas acreditam no que elas querem acreditar, para encaixar em seus interesses e estilo de vida. Acho que não há um jeito fácil de resolver isso [fake news] daqui pra frente". 


A repórter especial da TV Globo acredita que "as maiores vítimas da desinformação são as pessoas desinformadas".


"Quem não usou máscara morreu mais do que quem usa máscara. Quem se vacinou não está mais morrendo como quem não se vacinou. As pessoas que em algum momento acreditou que mudança climática era balela e continuou fazendo o que quis. Acho que está chegando uma conta super pesada para quem acreditou e fomentou fake news. Porque as vítimas são eles", conclui.


Assista à cerimônia completa da 15ª edição do evento aqui.


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