"Você não fala de diversidade se não falar de violência no Brasil", pontua Sônia Bridi

Redação | 10/12/2021 16:45

A cerimônia da 15ª edição do Troféu Mulher IMPRENSA foi realizada e transmitida on-line na manhã desta sexta-feira (10), dia dos direitos humanos, direto do estúdio de TV da Escola da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), em São Paulo, com o tema "As jornalistas imprescindíveis".


Sinval Itacarambi Leão, diretor de IMPRENSA, parabenizou as vencedoras e fez a homenagem a Sonia Blota, da BandNews TV, que foi nomeada madrinha do prêmio após ganhar em cinco ocasiões o Troféu Mulher IMPRENSA. 


"Mulheres imprescindíveis foi um tema muito feliz que vocês escolheram para esse ano, principalmente, porque no meu local de trabalho, o Grupo Band de Comunicação, está com lideranças femininas que estão fazendo toda a diferença”, disse Sonia Blota.


Diversidade e a igualdade de oportunidades


Sonia ainda participou o painel "Mulher e Diversidade” com as vencedoras dos projetos especiais, Cris Guterres, apresentadora do Programa Estação Livre, da TV Cultura, e Andrea Dip, diretora da Agência Pública. 


"Estar aqui representa não ser apenas a Cris Guterres, mas um coletivo de mulheres que sonhou em chegar à televisão e que por diversas vezes foram, são e serão ainda bloqueadas. Chegar a esse lugar e ter meu trabalho reconhecido é muito gratificante, mas não posso esquecer que foram muitos anos para chegar aqui", disse Cris Guterres.


Andrea Dip concordou com a colega, pontuou que, apesar de a diversidade no jornalismo e a presença das mulheres nas redações ter avançado, ainda há muito o que fazer. 


Crédito:Débora Matos/ESPM

"Hoje temos muitas redações e veículos chefiados por mulheres, mas pouquíssimas chefiadas por dissidências, pessoas trans, por exemplo. Ainda temos um longo caminho. Estamos bem longe de poder parar de lutar pelos espaços", diz Andrea.


A diretora da agência Pública, uma das responsáveis pelas reportagens que denunciou a rede de abusos sexuais da família Klein, lembrou que mesmo com tantos avanços, a imprensa brasileira ainda está inserida em "um cenário em que temos casos de assédio e abusos dentro das redações".


Cris defendeu que a diversidade e a igualdade de oportunidades para minorias também ganhem espaço atrás das câmeras em cargos de produção, reportagem etc.


Grande Prêmio


Sônia Bridi, repórter especial da TV Globo há 30 anos, foi escolhida para o Grande Prêmio de “Contribuição ao Jornalismo” desta edição do Troféu Mulher IMPRENSA. Esta categoria é um reconhecimento do histórico de carreira e a importância da participação da homenageada no desenvolvimento da comunicação no País.


No painel, Sônia Bridi conversou sobre sua experiência nessas três décadas dedicadas à reportagem ao lado de Sinval de Itacarambi Leão e de Malu Weber, diretora de comunicação corporativa do Bayer Group.


"Fico super emocionada de estar aqui. Talvez o mérito seja em continuar aqui. Sabemos que a trajetória de uma mulher no jornalismo é sempre mais dura, a dedicação tem que ser ainda maior e tem muito mais dificuldades em ter o jornalismo como uma profissão e não uma dedicação exclusiva", disse Sônia Bridi.


A repórter especial do Fantástico, falou do prazer de fazer reportagem com a mesma vontade do início e como o jornalismo deve ser visto como um movimento transformador. "Quando a gente tenta fazer um jornalismo sério, solidário e empático, a gente consegue de alguma forma impactar a vida das pessoas".


Crédito:Débora Matos/ESPM

Sônia afirmou que falar de diversidade no Brasil passa, invariavelmente, sobre temas como desigualdade e violência. Para exemplificar, ela citou as coberturas de duas chacinas no Rio de Janeiro e se emocionou. 


"Quando nós chegamos de volta à redação naquele dia, depois de ver aqueles caixões em Vigário Geral, ao entrar no corredor da Globo eu tirei meus sapatos e joguei fora. Tinha tanto sangue naquele sapato, que estava pegajoso. Na Candelária, quando cheguei, os corpos ainda estavam lá, de crianças mortas pelo Estado brasileiro. Tinha uma criança que tentou cobrir a cabeça com aquele cobertorzinho sujo de quem mora na rua, deixando os pés de fora. Ele tinha um tiro no meio da testa. Portanto, "você não fala de diversidade se não falar de violência no Brasil".


Por fim, a jornalista assinalou como a desinformação contribuiu para as mortes pela Covid-19 no Brasil. Ela destacou o fato de como a mentira é embalada como notícia, justamente porque a imprensa passa credibilidade. Não à toa, os veículos responsáveis por fake news usam desse subterfúgio para se fazer verossímil.


"Seiscentas e tantas mil morreram no Brasil com Covid-19, mas a maioria morreu por causa de uma campanha de desinformação, uma campanha que sistematicamente trabalhou contra a vida. E é esse povo que faz o discurso da liberdade. Não é livre quem está morto", concluiu


Ao longo da transmissão, o público pode conferir depoimentos em vídeo das vencedoras de 2021. A edição completa do evento pode ser assistida aqui.


Sobre o Troféu Mulher IMPRENSA


Única premiação jornalística do Brasil dedicada exclusivamente ao público feminino, o Troféu Mulher IMPRENSA foi lançado em 2005, por iniciativa das redações da Revista e Portal IMPRENSA. Criado antes da Lei Maria da Penha, já premiou mais de 170 mulheres na comunicação, e tem contribuído para os debates sobre os direitos da mulher e os desafios no exercício da profissão. 


O Troféu Mulher IMPRENSA é destinado a reconhecer o trabalho jornalístico das mulheres dentro e fora das redações brasileiras. A 15ª edição visa prestigiar as jornalistas que se destacaram em suas áreas de atuação no biênio 2020/2021, além de fomentar a pauta dos direitos humanos através do tema diversidade.


As 65 finalistas e os 10 projetos foram definidos por um júri de excelência composto por 46 profissionais com experiências diversas no mercado brasileiro de comunicação. A etapa de votação popular aconteceu de 13 de outubro a 13 de novembro de 2021.


A lista de vencedora de 2021 pode ser conferida aqui.


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