Gordofóbico e machista, obituário de Marília Mendonça gera críticas internas e externas à artigo da Folha

Redação Portal IMPRENSA | 08/11/2021 11:10
Em meio à comoção nacional em torno da morte de Marília Mendonça em acidente de avião em Minas Gerais e a discussão entre profissionais da imprensa sobre a cobertura de tragédias dessa magnitude, a discussão sobre a objetificação do corpo de uma mulher mesmo após a sua partida tomou conta das redes sociais após a publicação de um artigo do historiador Gustavo Alonso na Folha de S. Paulo, intitulada "Marília Mendonça, rainha da sofrência, não soube o que é o fracasso". 

Após chamar Marília de "rainha da música brasileira" e dizer que "ela já havia atingido o topo" exaltando suas conquistas que podem ser consideradas precoces - ela tinha 26 anos e compunha desde os 12 -, ele optou por incluir, entre outras avaliações sobre música e cultura, frases sobre o corpo da cantora, seu estilo e principalmente, seu peso. 
Crédito:Reprodução/Redes Sociais
Marília Mendonça morreu na última sexta-feira (5), em um acidente de avião
"Nunca foi uma excelente cantora. Seu visual também não era dos mais atraentes para o mercado da música sertaneja, então habituado com pouquíssimas mulheres de sucesso - Paula Fernandes, Cecília (da dupla com Rodolfo), Roberta Miranda, Irmãs Galvão, Inhana (da dupla com Cascatinha", introduziu. 

"Marília Mendonça era gordinha e brigava com a balança. Mais recentemente, durante a quarentena, vinha fazendo um regime radical que tinha surpreendido a todos. Ela se tornava também bela para o mercado. Mas definitivamente não foi isso que o Brasil viu nela".

A crítica disfarçada de comentário não pegou bem. Para além dos muitos fãs e usuários do Twitter que criticavam o posicionamento gordofóbico e machista, outros jornalistas também expuseram sua opinião contrária à forma como a cantora foi objetificada um dia após a sua morte. 

"É uma vergonha essa coluna", disse Ana Thais Matos, comentarista esportiva dos canais Globo e SporTV. Cecília Oliveira, editora do The Intercept, classificou o texto como "vergonhoso e insensível" - "Para não usar outras palavras, pois a responsabilidade jurídica me impede", completou. 

Flávia Oliveira, da GloboNews, também comentou - "que lixo de matéria", escreveu. 

As respostas vieram no próprio jornal. Bianka Vieira publicou o artigo "Gordofobia não perdoou Marília Mendonça nem no dia de sua morte". 

"Após a confirmação de sua morte, na sexta, a fiscalização em torno do peso da cantora marcou presença em análise publicada neste jornal pelo historiador Gustavo Alonso. O texto exaltava a magnitude da carreira trilhada por ela quando o autor observou que "Marília Mendonça era gordinha e brigava com a balança", afirmando que recentemente a sertaneja vinha se tornando "bela para o mercado". "Mas definitivamente não foi isso que o Brasil viu nela", ponderou o autor", escreveu. 

"Se a intenção era dizer que Marília Mendonça superou barreiras da indústria fonográfica, havia muitos outros exemplos e formas de fazer isso que não por meio de um cacoete gordofóbico. Recorrer a um eufemismo há muito entendido como ofensivo para se referir a um corpo gordo —"gordinha"— para depois dizer que isso não importou aos olhos do público não torna a afirmação menos grosseira. Era um obituário, afinal, e é difícil acreditar que essa observação apareceria se o personagem fosse um cantor". 

"Numa realidade em que corpos são marcados por eixos de diferenças como gênero, raça, classe, idade e tamanho, nem a estrela que cantou a liberdade e o amor próprio passou incólume. Nem mesmo no dia de sua morte, quando até sua qualidade vocal foi posta em xeque pelo colunista", completou. 

Também colunista, Mariliz Pereira Jorge também se posicionou. "Mulheres são julgadas pela aparência até quando morrem", disse, no texto.

"Fiquei pasma com o trecho da análise, publicada nesta Folha, sobre a trajetória da artista em que ela é retratada como "seu visual também não era dos mais atraentes para o mercado", "gordinha e brigava com a balança", "vinha fazendo regime radical", disse. 

"Não porque essas frases sejam o retrato da gordofobia e da misoginia que pautam a sociedade. O autor pode ter acreditado que apenas resumia uma impressão coletiva. Fiquei incomodada porque é uma visão preguiçosa sobre o que tem acontecido na sociedade, na qual Marília Mendonça se mostrou uma das maiores representantes de sua geração. Mas talvez o jornalismo não esteja preparado para isso."

Em mais de uma entrevista, Marília chegou a dizer que não estava "nem aí" para comentários sobre o seu peso. "Se um dia resolver emagrecer, será por vontade própria, e não porque faz bem para minha imagem", dizia. 

Mestre em letras pela USP, Aline Lima também foi convidada a falar sobre o assunto no site da Folha. Ela afirmou que "a ela [Marília] foi atribuída uma suposta contradição, ou uma traição de si mesma, porque 'afirmava a poética da autoaceitação, mas aparentemente teve que mudar sua imagem e emagrecer'".

"Porém, a questão está mal posta de partida. Quase desnecessário dizer que o obituário de um homem não seria marcado por observações a respeito de sua aparência, sobretudo nestes mesmos termos. Importa nada que Mendonça tenha sido gordinha, que tenha depois emagrecido e por quê, quando temos que lidar com seu desaparecimento repentino, grotescamente precoce e violento", analisa. 

Há quem discorde, é claro. No fórum de leitores desta segunda-feira, um cidadão questionava o porquê "de tanto mimimi" em volta do tema. As colunas rebatendo o texto de Alonso, no entanto, estiveram entre as mais lidas do portal do jornal durante o fim de semana. 

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