Jamil Chade: Exposição dos blogs traz mais responsabilidade ao jornalista

Denise Alves | 30/08/2021 18:59
O currículo de Jamil Chade fala por si só - é um dos primeiros nomes que vem à cabeça quando o assunto são as coberturas internacionais. Na Suíça há mais de duas décadas, o brasileiro cobriu o que há de mais importante na Europa - de reuniões com chefes de Estado a eventos esportivos como Copa do Mundo. 

No início dos anos 2000, ele assumiu um blog como correspondente internacional d'O Estado de São Paulo. Recentemente, em 2019, chegou ao UOL como colunista, também abordando os bastidores da notícia no continente europeu. No Dia do Blog, o jornalista contou ao Portal IMPRENSA que não vê diferença prática no formato, contanto que haja grande relevância no conteúdo. 
Crédito:Arquivo Pessoal
Jamil Chade
Jamil Chade, colunista do UOL
"O que tem peso é apuração e fato. Se vem na forma de blog, coluna, reportagem, podcast, isso não é o que conta. O que conta é justamente o que você traz. Agora, o que sim, existe de uma forma clara, é que você está muito mais exposto. Você se coloca em uma situação de exposição ao assumir que aquilo ali é de sua responsabilidade. A questão do privilégio é forte, mas a da responsabilidade é outra. Há uma maior exposição, mas essa exposição vem com mais responsabilidade. O que tem mais peso é o fato da história ter credibilidade e você trazer aquilo ali com apuração de fato", disse, em entrevista exclusiva. 

Em espaços como blogs e colunas, o jornalista fica mais acessível e identificável por parte do leitor. Para Jamil, entregar um conteúdo nesses termos reflete ainda mais a grande responsabilidade de informar o público da forma correta e direta. 

"Meu objetivo é traduzir a política externa e explicar que é política pública, não sofisticação da diplomacia. O que acontece na política externa é resultado das escolhas nacionais, e é fundamental entender isso. Por isso me sinto privilegiado em contar essa história com fatos. Em alguns deles, dou minha opinião, mas deixo claro que são artigos de análise. Tento fazer da coluna um espaço de apuração e fatos, e ter esse espaço é um privilégio e uma grande responsabilidade. Essa audiência importante em um site dessa dimensão, como o UOL, exige a responsabilidade de informar da forma correta."

O processo de produção das matérias de um blogueiro ou colunista exige a mesma dedicação, com apuração precisa e de muita qualidade, principalmente em tempos onde tentativas de manipulação da verdade podem atravessar o caminho do jornalista, diz Jamil. A chave para a construção de um blog ou coluna de sucesso é a credibilidade, construída por meio da consistência do trabalho. 

"Meu trabalho, e o trabalho dos espetaculares repórteres que temos no Brasil, não difere. Todos nós vamos atrás da mesma coisa, o fato, a apuração, e nessa apuração, é onde o centro do nosso trabalho está. O que eu, pessoalmente, tento fazer, é no espaço da coluna, me dedicar a destrinchar a origem daquela decisão, daquele gesto ou daquela palavra, e entender o que está por trás, nos bastidores principalmente da política externa, foco do meu trabalho", conta. 

"É preciso consistência em demonstrar que suas fontes são confiáveis, que você tem fontes no local de decisão. Que você tem nessas fontes uma relação de confiança, no sentido que elas não vão te manipular, manipular o blog ou a coluna para algum interesse, deturpar fato. Essa consistência precisa ser construída ao longo do tempo. Não existem atalhos para credibilidade. Não existe atalho para obter respeito. Você só tem isso ao longo de muito trabalho e construção de fontes, basicamente de espaços, para que essas apurações possam ser feitas", prossegue. 

Jamil defende uma "revolução" pautada por fatos por parte dos jornalistas, para combater a onda de desinformação que toma conta do país e do mundo nos últimos anos. 

"Precisamos da revolução dos fatos contra a desinformação, não das opiniões. Esse é o elemento que vai, de uma certa forma, minar campanhas de desinformação. Com credibilidade e fatos, que você chega a desfazer essas operações de desinformação que são uma ameaça real a democracia, já ficou provado isso. A desinformação é um instrumento para minar democracias, e o nosso papel é ser essa força de resistência, não por opinião, mas por fatos, por mostrar o que de fato está acontecendo na política, sociedade, economia, esporte, ciência, o que for o setor. É algo transversal".

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