Cade Metz: Presença do jornalista será necessária mesmo com avanço da tecnologia

Redação Portal IMPRENSA | 27/08/2021 11:11
Qual será o futuro da atividade jornalística com o avanço da tecnologia? O jornalista Cade Metz, correspondente do The New York Times especializado no tema, avaliou as ferramentas disponíveis para a profissão, e destrinchou o tema no painel "Uso de inteligência artificial no jornalismo", promovido pelo 16º Congresso de Jornalismo da Abraji. 

Em uma conversa com a Natalia Mazzote, diretora da Abraji, ele falou sobre como a inteligência artificial está inserida hoje em dia nas redações, e como os profissionais podem se preparar para a cobertura do tema, indo "além dos bits e bites". 
Crédito:Reprodução
Cade Metz
Cade Metz, correspondente do THe New York Times
"Existem serviços que podem transcrever a gravação de uma entrevista, por exemplo. Com isso, ganha-se tempo. Essa ferramenta pode ser super útil, mas nem todo mundo usa, porque ela não é perfeita, ainda comete muitos erros dependendo da qualidade da gravação. A transcrição que você obtem muitas vezes vale a pena, muitas vezes não serve para muita coisa", disse. 

"Em outras áreas, as pessoas falam muito de automatizar a escrita de matérias. Tem sistemas que conseguem hoje em dia gerar linguagem por conta própria, são impressionantes. Tem um sistema novo, construído em um laboratório fundado em parceria com o Elon Musk, o OpenAI, que se chama GPT3. É notável, gera tuítes, escreve poesia, código. Mas durante o uso, percebe-se que ele falha com tanta frequência como é bem-sucedido. Então se você pedir 10 discursos na voz de Donald Trump, ele vai produzir cinco que são impressionantes, que parece com coisas que o Trump falou, e outros cinco completamente inúteis. Então é tipo como se tivesse jogando dados - as vezes funciona, as vezes não funciona", completa. 

Metz exemplificou a possibilidade de falha com a programação de sistemas.

"Quando os sistemas escrevem os próprios códigos, estou avaliando isso em uma matéria, às vezes o código é perfeito, exatamente o que você pediu. Se você diz 'escreva um programa que me mostre neve branca caindo sob um fundo preto'. Ele vai escrever e você vai ver a neve caindo, o pano de fundo preto. E você acha que o sistema vai substituir todos e construir os softwares que a gente precisa, mas na realidade, na próxima tarefa, pode ser que nada funcione, que os códigos tenham falhas, inclusive de segurança. Ainda precisamos de seres humanos para trabalhar em paralelo com esse tipo de sistema. A maior parte dos sistemas de inteligência artificial funciona assim. Ele pode fazer um pouquinho do que você faz, mas a sua presença ainda é necessária. Para um jornalista, há a transcrição de palavras, mas não tem muito mais coisas que isso não. Pelo menos, não uso."

Para o norte-americano, o papel contestador e investigativo do jornalista precisa ser cada vez mais inserido no meio da tecnologia, algo que não era feito há alguns anos quando a cobertura especializada no Vale do Silício começou. 

"O jornalismo tradicional precisa cumprir esse papel porque ele não vai ser feito por outras pessoas. Nos anos 1990, início dos anos 2000, os jornalistas que cobriam o Vale do Silício estavam próximos das empresas, o que elas falavam, o que a tecnologia trazia, e não contestavam isso suficiente. E esse é o papel do repórter, ter um quadro completo, olhar para os aspectos positivos, potenciais, mas também para os negativos, para todo o cenário. Acho que os dados são importantes em qualquer reportagem. Será que estamos vendo isso por todos os lados? Será que estamos avaliando consequências, os lados positivos e negativos? Certamente é importante que os jornalistas questionem isso", pondera. 

Ao contrário do que acontecia na época, as atenções precisam estar divididas, para que nada escape, diz. "Cada vez mais, isso é uma situação global. O que estamos vendo é muitas partes do mundo estão avançando, e sem dúvida, à medida que elas avançam não só nos Estados Unidos, mas também na Europa, no Canadá e na China, isso muito rapidamente passa para outras partes do mundo, e o que a gente vê, mas esse espaço específico, onde a gente tem essa tecnologia, esse grande avanço, e cada vez mais o observamos não apenas em berços como Vale do Silício, mas no mundo inteiro". 

Ele dá dicas sobre como deve ser a cobertura jornalística da editoria. "Por um lado, muitas empresas publicam os aspectos tecnológicos. Mas o jeito que essas empresas usam a tecnologia acontece de portas fechadas. Entre quatro paredes. Como eles estão usando, que tipo de dados, quais são os problemas, os resultados de usar essa tecnologia, e de ter essa tecnologia usada por várias pessoas. Se o Google constrói um serviço, só o Google sabe como as pessoas usam. E é difícil entrar, penetrar nessas empresas para entender de fato os problemas. Eles não vão revelar isso sem que jornalistas e outras organizações os empurrem a fazer isso. É preciso não apenas entrar pela porta da frente, e receber o que a assessoria de imprensa te manda, mas também comer pelas beiradas, conhecer quem está construindo essas tecnologias, e as pessoas que enxergam como isso é utilizado, que veem onde pode ter um problema", orienta.  

"É importante e faz parte do papel dos jornalistas, como a gente falou antes, jornalistas precisam verificar essas coisas. Vimos isso muito bem recentemente com o Facebook. Lançaram o que pintam como relatório de transparência sobre oque é mais visualizado na plataforma deles, e alguns colegas meus do NYT mostraram depois que na verdade, eles pensaram em lançar um relatório semelhante alguns dias antes, mas decidiram não publicar porque acharam que não iam ficar bem na foto. A empresa, oficialmente, só vai publicar até certo ponto. Eles vão trabalhar para proteger a própria imagem. Mais para ter uma visão ampla, é preciso comer pelas beiradas".

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