Diretor da RSF elege a China como 'inimiga nº1 da liberdade de imprensa no mundo'

Redação Portal IMPRENSA | 23/08/2021 15:59
Cédric Alviani, diretor da organização não governamental internacional Repórteres sem Fronteiras (RSF) na Ásia Oriental, elegeu o governo da China como o maior inimigo da liberdade de imprensa em todo o mundo. No painel que debateu a 'Imprensa na mira de governos' na 16ª edição do Congresso Internacional de Jornalismo investigativo da Abraji, o jornalista apontou as iniciativas de censura e repressão adotadas pelo governo Xi Jinping. 

"Em 2021, a China se tornou a inimiga nº1 da Liberdade de Imprensa no Mundo. Nosso índice de liberdade de imprensa mostra mais de 180 países avaliados, e a China só está atrás da Coreia do Norte. Não é um país fácil para jornalismo, as autoridades chinesas sempre tentaram aplicar a censura, mas antes, no começo dos anos 2000, era possível fazer jornalismo investigativo, reportagens com conteúdo que não agradavam autoridades", lembra. 
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Cédric Alviani
Cédric Alviani, diretor da Repórteres sem Fronteiras na Ásia
"Correspondentes tinham liberdade. Na época do SARS, a epidemia e suas falhas foram comentadas pela própria mídia. Isso é muito diferente do que aconteceu durante a pandemia de covid-19", avalia. 

Zaffar Abbas, editor do Dawn, principal jornal diário em inglês do Paquistão, e o jornalista de Hong Kong Chris Chang também participaram do debate, mediado por Márcio Gomes, jornalista e apresentador da CNN Brasil. 

"O presidente Xi Jinping é um inimigo da democracia, de valores universais, direitos humanos e liberdade de imprensa. Ele considera que o papel do jornalista é aceitar a propaganda e propagar a mensagem do governo. Desde que ele está no poder, houve uma pressão incrível em todos os domínios da mídia. Primeiro um aumento do controle da mídia estatal", afirma Alviani. 

Segundo números da RSF, em 2020, 18 jornalistas estrangeiros foram expulsos da China. Outros 125 profissionais e defensores da liberdade de imprensa estão presos - três deles, estrangeiros. Para Alviani, o governo chinês tenta distorcer a definição do que é jornalismo. Iniciativa que é perigosa, segundo sua avaliação. 

"O regime está tentando distorcer a definição do jornalismo, de que o jornalismo não trabalha para o público, e sim deve ser a voz do governo. Isso é perigoso, pois outros países podem adotar essa visão, que obviamente não é jornalismo". 

Alviani ressalta que a liberdade de imprensa diminui a cada ano no mundo, número traduzido por um mapa produzido pela RSF. Na escala de 2021, por exemplo, o Brasil aparece em vermelho, com a classificação "Situação Difícil", ao lado de México, Bolívia, Venezuela, Rússia, Sudão, Índia, entre outros países. A classificação é a segunda pior, perdendo apenas para a Líbia, Egito, China, Iraque, Arábia Saudita, entre outros, que aparecem como "Situação muito séria". EUA, Austrália e Canadá estão em uma situação "satisfatória". 

"A gente não pode só confiar na coragem do jornalista para ter liberdade de expressão. Os jornalistas estão fazendo um esforço fantástico, lutando muito, mas são seres humanos, não são heróis. Eles têm limites, famílias, e estão sob forte pressão e ameaça. É compreensível que alguns deixem o trabalho. Não podemos só ser jornalistas super corajosos. Não é sustentável", alerta. 

"Precisamos do apoio do público. Só o público pode pressionar os governos para que esses protejam os jornalistas. É muito importante que os cidadãos se lembrem: sem jornalistas, eles estão cegos. Não há investigação independente do que acontece no país ou no mundo, o que os representantes fazem. As democracias não podem trabalhar sem o jornalismo, que precisa do apoio do público", finaliza. 

Abbar, que sofreu agressões pelo exercício da profissão no Paquistão, e lidera um coletivo de editores contra o assassinato e a violência contra jornalistas no país, diz temer pelas novas gerações. 

"Desde 2001, mais de 80 foram assassinados, outras dezenas feridos e atacados, e muitos estão na profissão mesmo após o que passaram. Os assassinos não foram processados, e isso criou uma situação de medo, na qual as organizações de mídia, editores tem medo de mandar repórteres a campo. Eu não estou falado de um lado do conflito. Há organizações de extrema direita, de esquerda, autoridades, e isso continua acontecendo até hoje. Como controlar isso?", questiona. 

"Meu medo é a nova geração. Eles estão entusiasmados, têm vontade de serem honestos, sinceros, de fazer boas investigações. Honestamente, espero que tenham energia suficiente e coragem para se manter unidos e continuar fazendo o que fazem melhor, que é a disseminação de informação verdadeira para o público". 

"Esse país é fantástico. Ele luta para conquistar a democracia. Tivemos jornalistas presos por isso, buscando liberdades. Agora, a liberdade está sob ameaça, mas ao mesmo tempo, os jornalistas recebem o apoio das pessoas. Acordamos todos os dias e percebemos o quanto o nosso trabalho é apreciado pelo público. O Paquistão é um desses países que vai determinar se a democracia vai permanecer ou não. Não somos como países que não tem democracia nenhuma. Queremos que ela continue. Vamos continuar insistindo para que sejamos uma nação democrática." 

Chang elogiou o apoio da população de Hong Kong após o fechamento de um dos principais jornais do país, o Apple Daily, quando diversos jornalistas e executivos foram presos, e clamou para que a união continue forte no país. "O apoio do público é muito importante, especialmente em Hong Kong, estamos nos acostumando a um novo paradigma onde temos más notícias, dia sim e dia também. Precisamos de muito apoio, seja emocional, do público, financeiro, assim os jornalistas podem ver que o público está agradecido e apoia esse trabalho."