Especialista põe em dúvida tom moderado do Taleban sobre liberdade de imprensa

Denise Alves | 18/08/2021 10:12
O tom moderado do novo governo do Taleban, que retomou o controle do Afeganistão no início desta semana, causa desconfiança mundo afora. Em um comunicado divulgado pelos Repórteres sem Fronteiras (RSF), o grupo extremista firmou um compromisso em respeitar a livre atuação dos profissionais de imprensa. 

"Respeitaremos a liberdade de imprensa, porque a informação dos veículos de comunicação será útil para a sociedade e poderá ajudar a corrigir os erros dos líderes", disse Zabihullah Mujahid, porta-voz do Taleban. 
Crédito:Reprodução/TOLONews
Zabihullah Mujahid, porta-voz do Taleban
Zabihullah Mujahid, porta-voz do Taleban
O professor Roberto Uebel, da ESPM, doutor em Política Internacional pela UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), põe em dúvida a nova "cara" que o grupo tenta mostrar nas primeiras coletivas de imprensa, tentando se desvencilhar da imagem violenta construída anos atrás. 

"O Taleban é uma organização política extremista que não aceita opiniões diferentes. Censura todo tipo de informação e notícia que possa contestá-lo. O Afeganistão nunca foi um exemplo de país onde há uma liberdade plena de imprensa, como em outros países do Oriente Médio, como Israel e Líbano, é um país onde a imprensa sempre foi muito cerceada. Sempre está no topo da lista dos Repórteres sem Fronteiras (RSF) de jornalistas presos, mortos e perseguidos. A gente pode imaginar que o Taleban no seu extremismo fará uma perseguição à imprensa, principalmente com quem é contra", contextualiza. 

A declaração do porta-voz do Taleban ao RSF — que mantém reservas sobre o compromisso — foi feita em uma conversa telefônica. Eles declararam que reconhecem "a importância do papel dos meios de comunicação".

"Os jornalistas que trabalham para meios de comunicação estatais ou privados não são criminosos e nenhum deles será perseguido. Na nossa opinião, esses jornalistas são civis e, além disso, são jovens com talento que constituem nossa riqueza".

Informações recebidas pelo professor, no entanto, contrariam a versão. "Deste anteontem ouvimos relatos de jornalistas locais, inclusive correspondentes que estão em Cabul, de medo e apreensão de possíveis perseguições e ameaças a sua vida e ao seu trabalho". 

Zabihullah Mujahid garantiu que as mulheres continuarão podendo exercer suas funções desde que usem o hijab, véu que cobre orelhas, pescoço e cabelo. Para o especialista, é um discurso no papel em busca de reconhecimento internacional, que na prática, "não se sustenta". 

"É para o mundo ver. Não acredito que o Taleban vá rever suas posições políticas e ideológicas porque é o que o sustenta, é o que dá respaldo em boa parte da sociedade afegã. Se ele diz que as mulheres vão poder estudar, é até que nível? Educação básica? Poderão frequentar universidades?", questiona. 

"Outra pergunta: as universidades vão continuar abertas? O Taleban é negacionista na ciência, a primeira medida foi proibir a vacinação contra covid-19. As mulheres vão poder ser professoras? Acredito que é um contrasenso. No momento em que eles censuram a liberdade de pensamento, perseguem quem pensa contra, permitir que as mulheres ou homens tenham acesso a educação, ainda mais superior, me parece um contrasenso. Desconfio da veracidade dessa informação, ainda mais nesse momento, para tentar mostrar um Taleban diferente, mas isso contradiz as suas origens, e que dificilmente será algo que virá a acontecer."

Os extremistas, segundo Uebel, fazem uma interpretação particular dos preceitos da religião. "A leitura que o Taleban faz das escrituras sagradas, do islamismo, é uma leitura deturpada. É uma leitura que não condiz com o que pregava o próprio Islã. E nessa leitura está a subjugação da mulher ao homem, coloca a mulher a um nível inferior. Lembramos que em 2001 as mulheres estavam usando burca, não podiam trabalhar.  Me chamou atenção que em Cabul militantes do Taleban já pintavam propagandas onde tinham mulheres, cobrindo de branco as fotos. É um indicativo do que pode acontecer", afirma.
 
"Tem aparecido na internet pessoas que defendem o Taleban, dizendo que permitem que mulheres sejam médicas, enfermeiras. Mas claro. A lei islâmica diz que mulheres só podem ser tocadas por outras mulheres ou pelo marido. Então não pode um médico, um enfermeiro, atender uma mulher, é pecado. É passível até de punição com algum tipo de violência. Em algumas profissões específicas, as mulheres continuarão trabalhando, como médicas, como enfermeiras, mas pensar em mulheres professoras, cineastas, jornalistas, infelizmente não condiz com a visão de mundo do Taleban. Além de ser extremista é machista, tem preceitos machistas em todos os fundamentos", prossegue. 

No início da semana, os jornais The New York Times, Wall Street Journal e The Washington Post enviaram uma carta ao presidente Joe Biden pedindo providências em favor dos profissionais que estavam presos no Afeganistão. A retirada dos jornalistas de lá é a única forma de garantir sua vida e segurança, diz o professor. 

"Qualquer garantia mínima de segurança já não é mais possível. Imagino que os EUA devem retirar os jornalistas dos seus veículos para proteger a vida deles. Claro que isso impede o trabalho jornalístico, impede o acesso à informação que possa ser checada, ficamos dependendo dos veículos locais e oficiais, mas imagino que a retirada desses jornalistas é a única possibilidade. O Taleban toma o poder, as tropas dos EUA saem, a garantia de segurança para o trabalho desses profissionais não é possível ser feita", analisa. 

Segundo o RSF, o Afeganistão soma 190 jornais impressos, 165 emissoras de rádio e 52 canais de TV, além de oito agências de notícias. Ao todo, o país tem cerca de 12 mil jornalistas. De 1996 a 2001, no primeiro governo do grupo no país, todos os meios de comunicação foram proibidos, exceto uma emissora de rádio que transmitia apenas conteúdos religiosos. 
 
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