Etiene Martins: "É importante dar a oportunidade de ouvir a diversidade do povo brasileiro"

Denise Alves | 06/08/2021 10:36
Para ser antirracista, o jornalismo precisa mudar de dentro para fora. Essa é a percepção de Etiene Martins, do coletivo Lena Santos, que reúne jornalistas negros e negras de Minas Gerais, sobre a cobertura da imprensa no Brasil. 

Etiene, uma das palestrantes da  16ª edição do Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo da Abraji, defende a pluralização das fontes na comunicação como uma forma de dar visibilidade aos profissionais da área. 

"Infelizmente, a gente vê que historicamente falando, todos os especialistas ouvidos são brancos, sendo que 56% da população brasileira se autodeclara negra", diz. 
Crédito:Reprodução/Facebook
Etiene Martins
Etiene Martins é uma das palestrantes do 16º Congresso da Abraji
"Fica muito repetitivo. Se racializa o negro, o indígena, mas não se racializa o branco, que sempre tem o poder da palavra. É importante dar a oportunidade de ouvir a diversidade do povo brasileiro. Historicamente a gente consegue perceber como a percepção da história do Brasil é lida do olhar do homem branco. É muito diferente olhar da percepção de um geografo como Milton Santos, do que um geografo que não conhece a periferia", exemplifica. 

Etiene reforça que atualmente, especialistas negros são procurados apenas em situações ligadas ao racismo, e acabam invisibilizados na cobertura diária. "O negro só pode falar quando sofre a violência, a partir do racismo, de acordo com a visão atual de muitos jornalistas", analisa.  

"Da mesma forma que um não negro assiste TV, vai ao clube, compra no supermercado, o negro também compra. Da mesma forma que o não negro é advogado, o negro também é. Especialista em saúde, educação. Por que colocar o negro em um único espaço para falar de um único sofrimento? Negros também tem essa universalidade, tem outras questões sociais que nos atravessam. Já que ele vive de tudo nessa sociedade, é importante também que ele fale de tudo". 

Na opinião da jornalista, o racismo precisa ser muito discutido, para que o "receio" que existe em volta do tema deixe de existir. "O racismo é algo que ninguém quer falar porque incomoda, mas o fato de incomodar não faz com que ele não esteja presente na sociedade. Para a promoção da igualdade racial, é importante que a gente possa refletir sobre isso abertamente para adotar hábitos antirracistas no nosso trabalho como jornalista, porque se não a gente continua reproduzindo a lógica colonial com uma nova roupagem". 

Ela reconhece que a rotina desgastante do jornalismo prejudica o profissional que deseja olhar para o tema de forma mais sensível. "É preciso entender o racismo para que ele não seja propagado, para que haja a opção de não praticá-lo. É muito cruel quando a gente enxerga o negro apenas como personagem das paginas policiais, e muitas vezes o jornalista que esta fazendo a matéria não para para observar, porque o trabalho jornalístico é muito pesado, e isso faz com que o que já acontece apenas se repita", diz. 

"Já está fácil, automático. É nesse sentido. Vou pegar aquele que eu vi na semana passada mesmo, vou ouvir sempre as mesmas fontes, porque está ali, não vou procurar outra. O que pode motivar a procurar outras pessoas é entender que falar é existir para o outro. A partir de um momento que um jornalista ouve a mesma fonte, ele invisibiliza a outra, e ele faz com que as fontes negras não existam. Elimina o protagonismo da pessoa negra falar."

O passo a passo para reverter esse cenário exige um olhar atento. "A primeira questão é fazer o diagnóstico, conseguir compreender que não está legal. Se a gente vive numa sociedade colorida, porque todas as fontes são brancas?", questiona Etiene. 

"A segunda questão é querer. Quando a gente está procurando [fontes], perguntar para aquela colega preta, aquele colega preto, e não ter vergonha. Se perguntarem por que está procurando um negro, falar que é porque nunca entrevistou um colega negro. O primeiro passo é identificar essa exclusão do negro, e o segundo passo é procurar as fontes. E racializar: o branco é lido como universal, todo mundo pensa no branco, então vamos racializar. 'Dessa vez quero um médico negro, indígena'. Pouco a pouco, vai se criando essa 'lista'. O mais importante de tudo é querer ser antirracista na proposta de escrever. Sem esse querer, nada muda."

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