Eugênio Bucci defende em novo livro que adoecimento da democracia é uma das consequências das redes sociais

Redação Portal IMPRENSA | 15/07/2021 17:50
Jornalista e professor da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, Eugênio Bucci lançou recentemente, pela editora Autêntica, o livro A Superindústria do Imaginário: Como o Capital Transformou o Olhar em Trabalho e se Apropriou de Tudo Que É Invisível.

A obra vem sendo considerada fundamental para profissionais de comunicação ao teorizar sobre os mecanismo usados pelas redes sociais para fazer com que seus usuários trabalhem de graça e permitam a exploração de suas informações em bases de dados..

Em entrevista a João Luiz Sampaio, publicado nesta quinta-feira (15 de julho de 2021) pelo Estadão, Bucci chama plataformas sociais como Google e Facebbok de conglomerados monopolistas globais, cujos "algoritmos sabem tudo sobre a intimidade dos frequentadores da internet e esses frequentadores nada sabem sobre os algoritmos". 
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"Perto disso, o 1984 de George Orwell é uma fábula infantil. A exploração econômica que esses conglomerados realizam é mais absurda ainda. Pensemos nas plataformas sociais. O modelo de exploração chega às raias da desumanidade. Quem são os digitadores, os fotógrafos, os editores, os locutores, os atores e os modelos de tudo o que aparece nas plataformas? Ora, os "usuários", como aprendemos a chamá-los. Um Facebook da vida não precisa contratar ninguém para "postar conteúdos", no linguajar deles, pois os tais "usuários" fazem isso de graça. E como se estivessem se divertindo, aproveitando as vantagens de um entretenimento que lhes é dado de graça. Sejamos diretos: quem entra de graça aí não são as funcionalidades das plataformas, mas o trabalho do tal "usuário". Além do seu trabalho e do seu olhar, que vale dinheiro, e muito, o pobre e inocente "usuário" entrega todos os seus dados, sua biografia, seus sonhos mais pueris para o algoritmo. Depois, no fim da linha, quem vai ser vendido é o próprio usuário, com seus dados, seu olhar e o circuito secreto de seu desejo inconsciente. Nunca os seres humanos foram tão abusivamente explorados como agora."

Ainda segundo Bucci, a tecnologia "aprisionada pela ganância do capital rebaixa a dignidade humana e é intolerável se queremos viver numa sociedade civilizada". 

Em seu novo livro sobre a superindústria do imaginário, o jornalista também atribuiu ao fenômeno das redes sociais o que chamou de "perda de contato com a razão, com os fatos e com a política orientada para o bem comum". Nesse contexto, associou o fenômeno ao recrudescimento do ultraconservadorismo. 

"O que é o bolsonarismo se não uma legião de aproveitadores que se apropriaram de ferramentas da era digital para promover a mentira, o ódio e o culto da violência?", perguntou o professor da USP, acrescentando que o adoecimento da democracia é uma das consequências mais deletérias das redes sociais.