Covid-19 e política se misturam ao detectar desinformação no Brasil, aponta relatório da Reuters

Relatório do Instituto Reuters de Jornalismo 2021

Redação IMPRENSA | 23/06/2021 10:08
“A preocupação com a desinformação é crescente, e este ano, Covid-19 superou a desinformação na política no mundo”, afirma Nic Newman, ao comentar o relatório do Instituto Reuters de Jornalismo 2021 publicado hoje, dia 23.

A décima edição do Digital News Report, o mais importante estudo de mídia mundial, com base em dados de seis continentes e 46 mercados. O estudo visa lançar luz sobre questões-chave que enfrentam a indústria em um momento de profunda incerteza e mudança rápida. Este ano a amostra inclui Índia, Indonésia, Tailândia, Nigéria, Colômbia e Peru pela primeira vez, e fornece uma compreensão mais profunda das diferenças dos ambientes de notícia fora dos Estados Unidos e Europa. “Tentamos encontrar novas maneiras de refletir isso, embora reconhecendo que as diferenças na penetração da internet e a educação tornará algumas comparações menos significativas”, pontua o relatório. 

Preocupações globais sobre informações falsas e enganosas subiu ligeiramente este ano na média, porém variando de 82% no Brasil para apenas 37% na Alemanha. Quem usa as redes sociais provavelmente dirão que foram expostos a informações incorretas sobre coronavírus do que os não-usuários. O Facebook é visto como o principal canal para espalhar informações falsas em quase todos os lugares, mas aplicativos de mensagens como o WhatsApp são vistos como um problema maior no hemisfério Sul, como Brasil e Indonésia.

Crédito:Divulgação
Em entrevista exclusiva para a próxima edição da Revista IMPRENSA feita pela jornalista Maria Luiza Abbott em Londres, Nic Newman, pesquisador responsável pelo estudo do Instituto Reuters de Jornalismo, ressalta que a preocupação com a desinformação é mais alta este ano, sendo que há muita preocupação na África (74%), seguida pela América Latina (65%).  

Este ano as pessoas afirmam, em média, ter visto mais informações falsas e enganosas sobre o coronavírus (54%) do que eles têm sobre política (43%). Contudo, e em particular no Brasil, os dois temas estão intrinsecamente relacionados, visto que na pesquisa, os políticos nacionais são quem mais espalham desinformação sobre o coronavírus.

         

“Quando aprofundamos e tentamos entender o que é desinformação, as pessoas em geral relatam como desinformação muitas coisas que consomem na mídia, isto porque percebem que estes conteúdos possuem um ponto de vista particular, em contraponto a expor apenas os fatos”, explica Newman. E acrescenta que neste sentido o jornalismo precisa fazer uma autorreflexão.

Modelo de negócio

Mais de um ano depois de ter começado,  a pandemia continua a lançar uma nuvem negra sobre a saúde no mundo - bem como a da indústria de notícias. A crise - completa com bloqueios e outras restrições – acelerou a transição dos jornais impressos para digitais, impactando os resultados financeiros de muitos, inclusive de empresas de mídia independentes. Novos modelos de negócios, como assinatura e associação, foram acelerados pela crise. Mas, na maioria dos casos, ainda não chegam nem perto de compensar a perda de renda em outro lugar.

Contudo, esta crise também mostrou o valor da precisão e informações confiáveis em um momento em que vidas estão em jogo. “Em muitos países vemos o público recorrer a marcas confiáveis – além de atribuir uma maior confiança na mídia em geral”, analisa Newman. A lacuna entre o "melhor e o resto" cresceu, à medida que tem a lacuna de confiança entre a mídia de notícias e a mídia social.


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Confiança nas marcas no Brasil
Essas tendências, no entanto, não são universais e o relatório deste ano também expõe desigualdades preocupantes no consumo e confiança entre jovens, mulheres, pessoas de minorias étnicas e partidários políticos, muitas vezes se sentindo menos representados pela mídia.


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