Chefe da Secom em 2019 defendeu liberação de verba publicitária para 'mídia aliada'

Redação Portal IMPRENSA | 14/06/2021 11:45

A Polícia Federal descobriu, durante as investigações dos atos antidemocráticos, que Fabio Wajngarten, então chefe da Secretaria de Comunicação Social (Secom) do governo Bolsonaro, defendeu a liberação de verba publicitária para a “imprensa aliada”. O conteúdo faz parte de conversas no WhatsApp ao qual o jornal O Globo teve acesso.

Crédito:Agência Brasil
Fábio Wajngarten

Segundo a PF, Wajngarten e o blogueiro bolsonarista Allan dos Santos, dono do site Terça Livre e amigo dos filhos do presidente, se aproximaram em 2019 e conversavam sobre o assunto.


Em um diálogo, Wagjngarten diz ao blogueiro que está preocupado com o atraso no pagamento de verbas de publicidade a “aliados” e que eles estariam “furiosos”. “Caixa devendo dinheiro pra BAND, RTV. Os aliados estão furiosos. General sentou em cima e não paga nenhuma nota passada. Provocando iminentes tumores”, afirma.


Wajngarten e Allan dos Santos também falam que seria preciso aproximar a “mídia aliada” do governo.


A PF não identifica quem seria o “general”, mas à época, a Secom era vinculada à Secretaria de Governo, chefiada pelo general Carlos Alberto Santos Cruz, que foi alvo de ataques de bolsonaristas e acabou sendo demitido pelo presidente.


Em outra conversa, Allan dos Santos e Wajngarten falam da decisão do Ministério Público perante o Tribunal de Contas da União (TCU) para pedir à Corte que obrigue a Secom a distribuir verbas publicitárias do governo com base em critérios técnicos.


Na época, matéria da Folha de S. Paulo revelara que Wajngarten mantinha contratos, por meio de sua empresa FW Comunicação e Marketing, com as emissoras Record e Band, que recebiam recursos da Secom.


Wajngarten comentou que a decisão iria beneficiar a Globo, ao que Santos sugeriu: “Bora bater sem parar”, e o chefe da Secom agradeceu.


Segundo as mensagens analisadas pela PF, Wajngarten criou um grupo de WhatsApp chamado “Mídia Pensante — SECOM” e adicionou Allan dos Santos. No grupo, foi sugerido criar um departamento de comunicação estratégica e contrainformação, ao que Wajngarten concordou.


No relatório, há também uma conversa de Allan dos Santos com um contato chamado “Eduardo”, que pode ser o deputado federal Eduardo Bolsonaro, onde o blogueiro diz: “Precisamos da Secom para implementar uma ação que desenhamos aqui. Seu pai disse que sim”.


Eduardo diz que tem o contato de Douglas Tavolaro, ex-executivo das emissoras Record e CNN. “O Douglas diz que a linha será da Record, que o que vem dos EUA é só o nome CNN”, afirma.


Verbas


Dados do sistema de pagamentos da Secom mostram que veículos classificados como “mídia aliada” receberam mais verba do governo.


Em 2019 e 2020, no governo Bolsonaro, o volume de recursos públicos destinado à Globo teve um corte de 69% comparado com o governo Temer (2017 e 2018), enquanto a verba destinada à Record caiu 7%. O SBT teve uma queda de 16%, enquanto a Bandeirantes teve uma queda de 22%. A Rede TV!, ao contrário, teve aumento no volume de verbas de 10%.


Os dados compilados de janeiro a junho deste ano apontam que o padrão vem se mantendo. Duas emissoras lideram o ranking de recebimento de verba pública — a Record, com R$ 8,3 milhões, e o SBT, com R$ 8,3 milhões. A Globo está em terceiro lugar, com R$ 6,2 milhões, à frente da Bandeirantes, com R$ 4,4 milhões e Rede TV! com R$ 1,8 milhão.


Os critérios do governo para a distribuição de verbas constam em uma instrução normativa. O primeiro é a audiência. Em seguida vem: perfil do público-alvo, perfil editorial, cobertura geográfica, dados técnicos de mercado, e pesquisas de mídia, sempre que possível.


Outro lado


Fabio Wajngarten negou o beneficiamento de determinadas emissoras e disse que sua gestão foi “técnica e profissional”. 


A Rede TV! informou que não fornece dados dos seus contratos comerciais e que “o jornalismo da emissora é reconhecidamente imparcial, plural e independente”.


A CNN Brasil disse que não tem nenhuma relação com Fábio Wajngarten.


O Grupo Bandeirantes afirmou que é “reconhecido pela qualidade e imparcialidade de seu jornalismo” e que as suas “relações com chefes do Secom são institucionais como as de qualquer grupo jornalístico”.


Record e SBT não responderam. Allan dos Santos, Secom, Ministério das Comunicações, Palácio do Planalto e o deputado federal Eduardo Bolsonaro também não responderam. 


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