Trade jornalístico ignora as críticas sobre a cobertura das manifestações anti-Bolsonaro

Deborah Freire | 31/05/2021 11:32

A cobertura da imprensa nacional sobre os protestos de sábado (29) contra o presidente Jair Bolsonaro e para cobrar vacinação em massa contra o coronavírus foi criticada por jornalistas, atores e outros influenciadores nas redes sociais. As análises das capas de jornais impressos e do espaço e tempo dados às matérias das TVs são de que os protestos foram ignorados, diminuídos ou relatados de forma tendenciosa pela maior parte dos grandes veículos.


Tal comportamento da grande imprensa só é comparável ao silêncio dela quando a bandeira das Diretas Já foi lançada no comício da Praça da Sé, em São Paulo, em 25 de janeiro de 1984.

Crédito:Reprodução / Redes Sociais
Sites noticiaram os atos, mas jornais impressos deram menos destaque

A diferença dos dois eventos é que em 1984 não havia sites jornalísticos, e tudo era norteado pelo jornal impresso/TV. Hoje em dia, os sites alcançam um público bem maior, e o fato é que todos os sites da grande mídia noticiaram o #29M.


Contudo, ao serem criticados pelo posicionamento dos grandes veículos, seja no jornal impresso ou na TV aberta, as associações do trade jornalístico não se manifestaram. O Portal IMPRENSA procurou a Associação Nacional de Jornais, mas a entidade disse que não comentará o assunto. 


As críticas


Uma das situações mais comentadas no Twitter foi a comparação das capas da Folha de S. Paulo, do O Estado de S. Paulo e do O Globo. A Folha escolheu dar manchete nos atos, enquanto o Estado noticiou “Cidades turísticas se reinventam para atrair o home office”, e o Globo deu “PIB reaquece e empresas desengavetam R$ 164 bilhões em projetos”.


Também incomodou a decisão de alguns veículos de priorizar manchetes que falassem da interrupção do trânsito nas vias, já que os atos reuniram milhares de manifestantes nas 27 capitais brasileiras, ocupando as principais avenidas das cidades.


Outra crítica foi para a imprensa de Pernambuco. Em Recife, capital pernambucana, houve confronto com a Polícia Militar e duas pessoas foram atingidas no olho com balas de borracha, mas nos jornais algumas chamadas justificaram a ação policial com o fato de ter havido aglomeração no protesto.


Nas redes sociais, as críticas citaram os atos pró-Bolsonaro e compararam as coberturas. Para muitos jornalistas, houve desequilíbrio. Além disso, alguns cobram posicionamentos mais contundentes dos jornais contra o atual governo por seu perfil abertamente antidemocrático.


A jornalista Carol Pires argumentou: “Os bolsonaristas vivem tentando - e muitas vezes conseguem - desacreditar a imprensa, que por sua vez é defendida pelo campo democrático. Aí milhares deste campo se manifestam e são ignorado por 2 dos 3 maiores jornais do país. Perdemos todos. Menos os negacionistas”.


Cecília Oliveira, jornalista do El Pais, considera que decisões editoriais “tomadas em gabinetes” deixam repórteres à mercê de ataques.


E Mauricio Savarese, correspondente da Associated Press no Brasil, considera que a decisão editorial de dar menos espaço aos protestos gera perdas à credibilidade da imprensa.


“Todos nós repórteres perdemos quando grande parte do público entende que uma notícia importante foi ignorada. Não importa se trabalhamos nos veículos que brigaram com a notícia ou não. É a credibilidade de todos que está em jogo. É problema de todos que trabalhamos na mídia”.


Veja a repercussão no Twitter:



Leia também:


Jornais são questionados por publicação de anúncio que defende tratamento precoce


Pesquisa divulgada pelo CNJ corrobora percepção de punitivismo na cobertura jornalística de justiça criminal