‘Sanduíche da verdade’: técnica que ajuda a combater notícias falsas ganha relevância no jornalismo

Redação Portal IMPRENSA | 27/05/2021 11:07

Uma proposta de lead para matéria jornalística, diferente daquilo que é ensinado desde a faculdade, tem ganhado importância e espaço nos veículos quando a intenção é combater falsas informações.


O “sanduíche da verdade”, uma estrutura narrativa proposta pelo linguista norte-americano George Lakoff, já há alguns anos, ensina ao jornalista a seguir três etapas na construção do texto para refutar a informação falsa, de forma que o cérebro humano entenda claramente por que está lidando com uma informação incorreta.

Crédito:Pexels

A ferramenta deve ser usada, segundo defende, quando não há escolha a não ser incluir a falsidade na matéria. Consiste basicamente em 3 etapas que seriam as 3 camadas do sanduíche:


1. Pão: comece sempre com a verdade sobre o fato. Ela vai criar uma confiança maior no que se está escrevendo ou falando, criando uma vantagem para a matéria desde o ponto de partida.


2. Carne: em seguida, inclua a falsidade que deseja refutar.


3. Pão: Reitere a verdade novamente, para reforçar a confiança na informação. Além disso, explique as diferentes consequências que a falsidade pode ter, em contraste com as informações verdadeiras.


Lakoff explicou em seu podcast FrameLab, que a ideia do “sanduíche da verdade” surgiu quando ele viu como o ex-presidente dos Estados Unidos Donald Trump recorria com frequência à velha estratégia de repetir tantas vezes uma mentira, até que seus seguidores acreditavam que era verdade.


“Os políticos estão recorrendo à estratégia de repetir mentira após mentira, após mentira, para passar sua mensagem aos seus eleitores. Para combater isso, é necessário enquadrar a história em um quadro mental, onde a mentira é capturada no meio de duas afirmações verdadeiras”, explica. 


Diferentes analistas apontaram o valor do 'sanduíche da verdade' proposto por Lakoff. Entre eles, Luis Antonio Espino colunista do The Washington Post en Español, explicou como o uso desse meio de comunicação poderia ajudar as autoridades mexicanas e latino-americanas a convencer a população da segurança da vacina contra a covid-19.


“O desafio das autoridades é encontrar o ponto de equilíbrio na escala do medo, com uma comunicação clara e consistente que motive as pessoas a seguir as orientações de saúde e modificar seus hábitos e comportamentos para cuidar de si e dos outros”, afirma Espino. 


Na Espanha, a colunista María Ramírez também destacou em sua coluna ElDiario.es a importância de aplicar o 'sanduíche de verdade' nas estratégias de comunicação pública, já que no caso europeu a xenofobia vem crescendo graças à desinformação. “Um dos erros mais comuns é assumir a linguagem dos políticos até para criticá-la. É preciso esforço e escolher manchetes menos chamativas, mas desmantelar slogans para se tornarem palavras 'normais' ajuda a combater atalhos onde mentirosos e extremistas têm sucesso”, destaca. 


O especialista em comunicação política Daniel Eskibel comentou que o método do sanduíche só deve ser utilizado após o descarte de outras alternativas de combate à desinformação, nas quais não é necessário citar a informação que está sendo negada.  


Segundo Eskibel, existem três estratégias básicas de comunicação para combater a falsidade. A saber:


• O silêncio


• A afirmação do verdadeiro


• E, em terceiro lugar, o 'sanduíche da verdade'


Em primeiro lugar, o silêncio é eficaz em apenas um cenário: quando a falsidade se espalha exclusivamente em canais de comunicação marginais e minoritários, sem poder se expandir para áreas de maior repercussão pública. Nesse caso, o silêncio funciona porque evita a amplificação do falso.


A afirmação da verdade, por sua vez, é uma arte e uma ciência que todo jornalista deve tentar aperfeiçoar dia após dia. Eskibem diz que é preciso desmentir o falso nomeando o conceito oposto; explicar a verdade com frases afirmativas; evitar repetir a falsidade, e evitar negações, por que o cérebro humano presta pouca atenção à palavra "não".


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