Usuários do Twitter fazem “checagem de fatos” em tempo real durante a CPI da Covid-19

Deborah Freire | 21/05/2021 10:56

Desde o início das atividades da Comissão Parlamentar de Inquérito da Covid-19, no Senado Federal, na semana passada, muitas informações divulgadas pelos depoentes e até por senadores sobre a pandemia são alvo de críticas por estarem distorcidas ou serem completamente falsas.

Crédito:Reprodução / Twitter Pedro Barciela

Na quarta-feira (19), o senador relator, Renan Calheiros, citou a possibilidade de contratar uma agência de checagem de fatos para acompanhar a CPI, fala que foi reforçada nessa quinta, após o segundo dia de depoimento do ex-ministro da Saúde, Eduardo Pazuello.


Mas enquanto a intenção não se concretiza, já existem milhares de “checadores” que fazem esse trabalho em tempo real, pelo Twitter. São jornalistas, pesquisadores, profissionais da área de saúde e cidadãos comuns que têm atuado informalmente desmentindo ou confirmando o que é dito na CPI.


O fenômeno é acompanhado pelo analista de dados Pedro Barciela. Ele tem feito mapas de interação com os principais tópicos comentados pelos internautas e os perfis mais citados ou que alcançaram maior engajamento.


No dia 19, primeiro dia de depoimento do ex-ministro Pazuello, e um dos mais polêmicos da CPI, a disputa de interações foi intensa entre internautas que são contrários e os que são a favor do governo. 


Em um trabalho descoordenado, mas em partes eficaz, os internautas utilizam trechos de vídeos, material jornalístico ou documentos para contestar as declarações dos depoentes e senadores.


“É algo recorrente nos últimos depoimentos: a eficiência com a qual as mentiras de depoentes são apontadas por usuários no Twitter. Não é o fact-checking padrão, mas sim um processo caótico e horizontal que produz resultados rápidos, com vídeos curtos de falas mostrando as contradições, recortes de jornais que exponham as mentiras contadas na CPI ou até mesmo arquivos prontos para serem explorados por senadores que estejam na CPI”, citou o analista em seu perfil no Twitter.


O mapa elaborado por Barciela mostra hashtags como “Desmentindo Bolsonaro” entre as mais citadas do lado da oposição, e do lado oposto esteve por exemplo o termo “Família Direita Brasil”.


Ele agrupou na parte cinza do mapa elaborado na quarta as interações de perfis bolsonaristas, que teve pouco mais de 16% dos atores e um grau médio de interações de 10,3. O antibolsonarismo, que foi aglutinado nas cores verde e laranja, representou 72,4% dos atores e um grau médio de 5,4.


Grau médio, ele explica, é o volume de interações que os usuários de um agrupamento produziram, dividido pelo número de usuários naquele agrupamento. Ou seja, quanto maior o grau médio, maior o volume de interações médias daqueles usuários. Isso significa que a base bolsonarista interagiu mais, mas com menos pessoas.


“Esse movimento acaba por aglutinar jornalistas e atores de oposição que se mostram muito incomodados com as mentiras contadas por depoentes, bem como com a morosidade de alguns senadores para confrontá-las”, explica o analista.


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