"Perspectiva humanista guiava seu olhar sobre economia", diz autor de biografia recém-lançada de Joelmir Beting

Leandro Haberli | 14/05/2021 12:11
Autor de "Joelmir Beting – O jornalista de economia mais influente da história do Brasil", biografia-perfil lançada no início de maio pela Beting Books, o escritor, jornalista e professor universitário Edvaldo Pereira Lima concedeu entrevista ao Portal IMPRENSA sobre o processo de elaboração do livro e a importância de Joelmir Beting para a profissionalização e popularização do jornalismo econômico no Brasil.

A conversa obviamente aborda temas diversos da trajetória de Joelmir, incluindo a ascendência germânica, a infância em Tambaú (SP), a colaboração da família Beting no processo de elaboração do livro (em especial de Gianfranco Beting, filho mais velho de Joelmir), o amor ao Palmeiras, a fase como repórter esportivo e a histórica reportagem de capa publicada pela Revista IMPRENSA poucos meses antes da morte de Joelmir em 2012. 

Edvaldo também comenta os complexos quadros políticos e sociais de diferentes momentos do país, que foram objeto de análises de fôlego ao longo do livro. Um desses momentos é o fatídico lançamento do Plano Collor, cuja cobertura acabou sendo crucial para a carreira de Joelmir. 

Dentre muitas histórias do "jornalista de economia que já foi mais ouvido do que ministro", Edvaldo também detalha o temperamento fleumático e generoso que fez Joelmir ser admirado por todas as redações pelas quais passou, a importância da fé católica ao longo de toda a vida e as entrevistas mais marcantes feitas para o livro, incluindo a de Johnny Saad, presidente do Grupo Bandeirantes de Comunicação, e as dos colegas de Bandeirantes José Paulo de Andrade, Ricardo Boechat e Salomão Ésper. 

Portal IMPRENSA - Qual a sua relação com a família Beting?
 
Edvaldo Pereira Lima - É uma relação de respeito, admiração e reconhecimento por uma família de princípios e valores. Esses valores, deduzo, procedem das raízes do Joelmir, filho de imigrantes alemães, e de sua esposa , Lucila, de origem italiana. O Joelmir, como patriarca do clã Beting-Zioni, encarna de maneira muito apropriada princípios desesperadamente necessários nesse mundo de balbúrdia e crise moral que vivemos hoje no Brasil. Como o princípio da ética e a perspectiva humanista que guiava seu olhar sobre a economia, esse campo de conhecimento tão fundamental na sociedade, mas tão atrelado, quase sempre, a visões puramente materialistas, desencarnadas de alma.  
O reconhecimento cresceu em mim pelo gesto nobre da família em realizar esse projeto da biografia tanto como uma homenagem muito justa ao seu líder, quanto como uma oferta generosa à sociedade brasileira. Pois a história de Joelmir é um capítulo importante de resgate e respeito à memória cultural do Brasil contemporâneo. Além disso, o livro acaba representando uma contribuição  para o registro da história contemporânea do jornalismo de economia no país, assim como é igualmente uma certa homenagem de honra ao próprio jornalismo como um campo de atividade que presta um serviço tão fundamental à sociedade pluralista e cada vez mais diversa, complexa, dos tempos de Joelmir e os de agora. 
Divulgação
Joelmir com os colegas de rádio Bandeirantes José Paulo de Andrade e Salomão Ésper (da esquerda para a direita) 
Portal IMPRENSA - A família de Joelmir é repleta de comunicadores. Isso aumentou o seu desafio? 

Edvaldo - Esse livro  é uma narrativa biográfica autorizada e portanto, para isso, a família acabou optando por contratar um escritor para realizar o projeto, em lugar de contar com uma produção própria – afinal, os dois filhos de Joelmir são comunicadores profissionais, o Mauro jornalista esportivo, o Gianfranco um publicitário e autor de livros históricos do setor de transporte aéreo, sem falar na Cecília, cunhada de Joelmir, jornalista, e sem mencionar outros familiares em torno, também comunicadores . Não é um relato, portanto, de uma justa homenagem afetiva de um colega de trabalho, de um amigo de infância.  É uma narrativa produzida por um profissional especialista em histórias de vida, com um método próprio de trabalho, alicerçado na tradição do jornalismo literário, que não se exime das emoções. Procura, ao contrário, traçar um retrato por inteiro, do Joelmir como profissional e do Joelmir como pessoa, na sua complexidade, magnitude e vulnerabilidade como ser humano. A biografia não é uma história chapa branca. Não é uma história de compadres.  É uma história humana, carregada de vários subtemas atrelados à trajetória de Joelmir. Contada por muitas vozes, vista por muitos olhares, e não só os da família. Eu, como autor, sou o arqueólogo que escarafuncho  os territórios da história. Para a produção de uma biografia assim, quem contrata há de depositar muita confiança no escritor contratado.   Sinto-me honrado por isso e grato pela família ter aceito a minha liberdade de estilo e criação narrativa da história.
 
Portal IMPRENSA - Como a Lucila, viúva de Joelmir, contribui com a obra?

Edvaldo - Ela foi muito generosa em abrir-me a intimidade de sua casa, para conhecer in loco um dos principais ambientes da vida do Joelmir. Em jornalismo literário é fundamental o mergulho do escritor nos principais cenários da vida do protagonista de suas histórias. Lucila colocou-me uma das salas de trabalho do Joelmir à disposição. Passei muitas horas de muitos dias mergulhado numa farta documentação pessoal de Joelmir. Nessas ocasiões é que fui conhecendo essas qualidades admiráveis da família, dos membros que entrevistei.
 
Portal IMPRENSA - Mas o Gianfranco você já conhecia?
 
Edvaldo - Sim, o Panda é um amigo e colega profissional pelo trânsito num campo de paixão em comum: a aviação comercial. Panda, publicitário, consultor internacional de transporte aéreo, tem uma carreira longa dedicada ao setor. É co-fundador da Azul Linhas Aéreas. Da minha parte, como jornalista, especializei-me em aviação. Trabalhei em publicações especializadas no Brasil e depois durante muitos anos fui Editor Contribuinte da publicação mundial de maior prestígio nesse campo, a Air Transport World, sediada nos Estados Unidos. Nossos caminhos se cruzaram em eventos  do setor. 
Portal IMPRENSA - Você poderia resumir o papel do Panda no projeto?
 
Edvaldo - Ele desempenhou um papel  fundamental, algo semelhante ao do produtor, numa obra cinematográfica. Sem sua mobilização em direção a essa ideia, o livro não existiria. Nasceu em Panda a vontade do livro, sensibilizou a família para endossar a ideia, resolveu que contrataria um escritor profissional para isso, encarregou-se de produzir a capa e a parte ilustrativa do livro, a partir do seu rico acervo fotográfico. Também decidiu publicar o livro pela sua própria editora, a Beting Books.
 
Portal IMPRENSA - Quais os principais depoimentos do livro?
 
 Edvaldo - No núcleo central da família de Joelmir, destaco as entrevistas feitas com a esposa Lucila, os filhos Gianfranco e Mauro, a cunhada Cecília Zioni e a irmã Juracilde. Também foram importantes as entrevistas de Francisco Donizetti Sartori, o Fiquinho,  historiador e memorialista informal de Tambaú, e do padre Donizetti, o grande mentor de Joelmir na infância e adolescência.
No campo profissional, destaco as entrevistas de Johnny Saad – presidente do Grupo Bandeirantes de Comunicação -,  de Ricardo Boechat, José Paulo de Andrade e Salomão Ésper, todos  colegas de Joelmir na Band,  assim como do economista e ex-ministro da Fazenda, Delfim Netto. Entre os amigos de Joelmir, Roberto Olsen, Sérgio Cândido Pereira - presidente da Cacique Café Solúvel - e Sérgio Silbel Soares Reis, publicitário famoso pela criação da campanha antológica do  antigo Bamerindus, “Gente Que Faz”. Em pesquisa bibliográfica e documental, foram muito importantes os livros Construtores do Jornalismo Econômico, de José Venâncio de Resende, e Jornalismo de Economia no Brasil, de Hérica Lene, além de artigos acadêmicos do meu colega docente na Escola de Comunicações e Artes da USP, Manuel Carlos Chaparro. Da imprensa, destacam-se matérias sobre Joelmir assinadas por Glauco Carneiro, Alexandre Machado e Paulo Galvão, este apresentador de um programa de rádio na Band.
 
Crédito: Arquivo pessoal
Joelmir com o filho Mauro: paixão mútua por jornalismo e Palmeiras
Portal IMPRENSA - Por que você decidiu incluir uma matéria especial sobre Joelmir publicada na Revista IMPRENSA em 2012 logo no início do livro?
 
Edvaldo - A matéria especial assinada por Guilherme Sardas, com fotos – inclusive de capa -  de Luiz Murauskas, da edição de julho daquele ano, resulta da última entrevista concedida por Joelmir, já em estado de enfrentamento de problemas de saúde que levariam ao seu falecimento, em novembro. É uma espécie de síntese do momento-símbolo mais expressivo da sua carreira, um resgate de capítulo dramático da história contemporânea brasileira: o dia em que, na Rede Globo de Televisão, Joelmir  representou toda uma nação, pela sua reação facial espontânea, diante do anúncio do estapafúrdio plano econômico do presidente Fernando Collor de Mello, em  16 de março de 1990, um dia após sua posse. A matéria tem um tom de homenagem  - muito justa, por sinal - a uma carreira tão brilhante e que tanto não só dignificou o jornalismo como uma atividade tão fundamental nas sociedades modernas, quanto elevou a barra de qualidade do jornalismo de economia. Acabou resultando, pelas circunstâncias, numa espécie de testamento profissional de Joelmir oferecido à comunidade jornalística, nesse veículo que tão bem a representa.
 
Portal IMPRENSA - Por que o plano Collor foi tão marcante na trajetória profissional de Joelmir?
 
Edvaldo - As 22 medidas provisórias do famigerado plano, incluindo o fechamento de empresas estatais, o corte de milhares de empregos públicos, um ajuste fiscal draconiano com aumento de tributação, e o pior, a medida lesa-cidadão que bloqueou e confiscou temporariamente o dinheiro depositado em bancos, geraram um trauma nacional de difícil cura. Criaram uma ferida profunda  na psique coletiva brasileira. Levaram  muita gente ao desespero, causaram mortes, suicídios.
 O plano foi  uma medida tresloucada para tentar resolver o problema monstruoso da inflação e de uma economia caoticamente perturbada, como um avião desgovernado, em queda livre, pilotos absolutamente estorvados na cabine de comando, em ação de desespero para coloca-lo  de volta a um seguro nível de voo de cruzeiro. Era confuso, complicado, hermético, cheio de vazios informativos, de ambigüidades.
A opinião pública precisava da imprensa séria e de jornalistas competentes para traduzir em miúdos o que significava tudo aquilo para o bolso de cada um. Precisava identificar as consequências do discurso oficial esotérico, de difícil entendimento fora do circuito fechado dos pouquíssimos tecnocratas reunidos sob a asa da  ministra da Economia, Zélia Cardoso de Mello, todos abençoados por Collor, para conceberem o estrambótico resgate salva-pátria. Todos os profissionais especializados em economia, na mídia, estavam pressionados pela dimensão desse evento histórico a exercerem seus papéis de comunicadores instantâneos, procurando informar com segurança, traduzir com clareza de expressão, profundidade de entendimento e rapidez que a emergência exigia. Era uma questão de vida ou morte, e não apenas simbolicamente, infelizmente, para alguns.
Dentre esses colegas, a pressão maior recaía, naturalmente, nos ombros dos analistas e comentaristas. Nessa elite, Joelmir ocupava  há um bom tempo o posto mais elevado de prestígio e credibilidade junto à opinião pública. Era um fenômeno de popularidade, com sua atuação multimidiática na mais importante rede de televisão do país, a Globo, na sua coluna de jornal reproduzida por dezenas de periódicos por todo o Brasil.  Se o trauma era   tão profundo para todo cidadão brasileiro, representava  um desafio de igual envergadura e um dever gigante para Joelmir no exercício de seu propósito como estrela de primeiríssima grandeza nesse segmento profissional.  Não fugiria da raia. E não teria em mãos, ao longo da carreira, outro evento de tal impacto emocional e desafio comunicacional  como esse.
 
Portal IMPRENSA - Como ele reagiu àquela drástica medida do governo?
 
Edvaldo - No plano racional, do expert, comentarista de elevadíssimo nível e analista de veloz e profundo talento para mixar causas e consequências, contextos e efeitos, Joelmir categorizou na hora ao vivo, diante das câmeras da Globo, quando seu colega Paulo Henrique Amorim deu em primeira mão a notícia do plano que o Brasil aguardava,  o que aquilo significava: “é um arrocho monetário jamais visto na história da humanidade!” No plano simbólico, essa dimensão entrelaçada aos fatos, e que é realmente o que complementa e sedimenta o significado das coisas e a compreensão que delas podemos obter, Joelmir abriu  uma cara de perplexidade que foi manchete do prestigiadíssimo Jornal do Brasil no dia seguinte: “a cara da nação”. Joelmir personificou ali, numa imagem, todo um povo.  Muitos anos depois, na entrevista para a Revista IMPRENSA, ele ressignificou uma outra vez a cena.   “Não era cara de espanto”, disse ele, “era de pavor”. E aí reproduziu essa cena, versão 2012, para a capa de IMPRENSA.
Crédito:Gianfranco Beting
Joelmir em Nova Iorque com a mulher Lucila

Portal IMPRENSA - Como foi o trabalho de pesquisa da fase pré-jornalismo econômico de Joelmir?
 
Edvaldo - Consistiu principalmente de uma viagem de observação, levantamento de informações e entrevistas a Tambaú e Porto Ferreira, e de pesquisas complementares. 
Em jornalismo literário, que é minha escola e minha linha de narrativa jornalística,  procuramos integrar  a exatidão e  a precisão informativa aos diálogos abertos com personalidades reais da história,  à imersão tanto quanto possível nos cenários reais dos acontecimentos principais, à observação e percepção do ambiente e da atmosfera sutil que enriquecem as ocorrências e as vidas do protagonista, assim como  das demais pessoas que com ele interagem de maneira significativa.
Nesse contexto, foram importantes as visitas a Juracilde e outras pessoas desse passado distante de Joelmir, como sua cunhada Josefina e a irmã dela, colega de escola do biografado, Janete Uliana, e a Fiquinho, já citado.
Somos caçadores de compreensão, muito mais do que pescadores de informação.  Somos uma modalidade de  cientistas, investigadores,  pesquisadores e analistas dos múltiplos níveis de realidade que constituem uma história de vida. E somos os xamãs contadores de histórias que traduzem esse levantamento para o público numa linguagem tanto quanto possível esteticamente bem resolvida do ponto de vista narrativo. Mais do que entregar ao leitor uma experiência de prazer e deleite intelectual e emocional, buscamos sacudir e inspirar a ressignificação do mundo, a partir da história do biografado, que seja também um modo do leitor encontrar, na biografia, elos de conexão com sua própria história individual e com a história coletiva com a qual estamos todos entrelaçados no nosso tempo de vida.
 
Portal IMPRENSA -  Quais foram as principais fontes de informação desse período da vida dele?
 
Edvaldo - Além dessas pessoas, artefatos históricos – o nome que damos a documentos e registros históricos – de posse delas, e outros registros disponíveis, acessíveis através delas, como um bom material ligado ao padre Donizetti.  Muito levantamento bibliográfico junto a acervo digital  de periódicos da fase mais midiática do padre Donizetti. E arquivos digitais, encontrados através de   levantamento iniciados pela via de Mr. Google, buscando mapear questões de fundo como a emigração alemã para o Brasil no século XIX associada à agricultura cafeeira no interior de São Paulo, por exemplo. A isso se completou o acervo pessoal de Joelmir, onde estava uma importante entrevista biográfica que concedeu ao seu colega jornalista Milton Neves.  
 
Portal IMPRENSA - O amor de Joelmir pelo Palmeiras fez dele um símbolo da torcida alviverde. Como foi o desafio de descrever essa paixão? E qual a importância dela na vida de Joelmir?
 
Edvaldo - Foi um desafio encarado com bom humor, tendo como vias de captação tanto a observação simbólica de artefatos históricos  - como uma determinada camisa do Palmeiras com o nome de Joelmir, e a visita à sala de imprensa que leva seu nome, no Estádio Allianz Parque -, quanto conversas saborosas dessa paixão com os filhos Gianfranco e Mauro, ambos palmeirenses de carteirinha assinada, carimbada e consagrada...risos...e, no caso de Mauro, jornalista esportivo  que  soube separar, ao contrário do pai, sua metade torcedor de sua metade profissional competente que ganha a vida cobrindo e analisando futebol. Essa paixão é fundamental para se compreender o Joelmir na sua inteireza humana. O lado sério, distinto, do profissional correto e exemplar, fruto de sua origem alemã, abria alas, no futebol, para o outro lado, mais temperado pela festividade e descontração emocional de origem italiana, exemplificado pelo casamento com Lucila, digna integrante da família Zioni, em cujo ambiente Joelmir encontrava entrada, desde o começo do namoro, para o alegre, descontraído, bem humorado e amante ser da boa  comida e da música romântica que também era o seu eu.
 
Portal IMPRENSA - Você sentiu alguma dificuldade em explicar conceitos econômicos para os leitores? Ou esse é um tema já familiar para você?
 
Edvaldo - Dificuldade, não, mas sim exigiu um empenho de estudo e compreensão, já que economia é um campo de conhecimento que soa como algo muito distante e estranho, para mim.  Contudo, essa tradição do bom jornalismo literário e a minha experiência da carreira paralela de professor universitário, ambas tendo uma base muito forte na questão da pesquisa e da busca de compreensão contextual e sistêmica das coisas, facilitou-me a vida. Considero-me um bom estudioso, tenho o prazer intelectual de decifrar e apreender coisas novas. Técnicas e procedimentos de pesquisa que emprego, como o mapa mental, ajudam-me a sintetizar conhecimentos. Para traduzir o que apreendo para a narrativa emprego recursos apropriados de linguagem que utilizamos no jornalismo literário, como a digressão, e a função metalinguística de linguagem.
 
Portal IMPRENSA - Além de questões políticas e econômicas, o livro traz uma abordagem espiritual da vida, refletindo sobre temas como finitude e ancestralidade. Como foi transitar entre esses dois mundos?
 
Edvaldo - Tranquilo, natural, orgânico. Parto para o mergulho num trabalho de fôlego, como esse, tendo como pressuposto o conceito intelectual cada vez mais sólido, a partir de ciências de vanguarda que trabalham com novos e revolucionários  paradigmas de compreensão da vida, que a realidade é multidimensional. Minha abordagem tem caráter transdisciplinar, onde o conhecimento pela via da ciência dialoga em igualdade com o conhecimento que vem das artes, da filosofia, das tradições. A isso se agrega uma postura pessoal, experimentada e testada individualmente, de que nossos canais de percepção envolvem o pensamento, a intuição e a emoção.
Só compreendemos em qualidade alguma coisa quando liberamos o funcionamento integrado dessas três funções. A realidade conceitual de um mundo exclusivamente materialista, físico, objetivo, linear e cartesiano,imposta pela nossa cultura durante os últimos três séculos, pelo menos, revela-se cada vez mais limitada, parcial, fragmentada em relação ao que é de fato a existência e o que de fato somos, como seres humanos.
Como escritor biógrafo, encaro um protagonista de uma história de vida como um ser  humano complexo, vivendo simultaneamente distintas camadas interrelacionadas de realidades pessoais.  Integrada à vida externa, ancorada no mundo físico social das profissões e dos negócios, por exemplo, temos a vida interior, sutil, muitas vezes inconsciente, das emoções profundas. E associada a ambas, temos a vida simbólica do mundo arquetípico, que diz respeito a toda a humanidade, mas que pode se  configurar de maneira muito particular em cada indivíduo. Transitar por essas dimensões, que na verdade fazem parte de um conjunto unificado, é algo que me motiva imensamente na busca da compreensão de um biografado por inteiro. E para isso, nos recursos que desenvolvi para a minha proposta do que denomino jornalismo literário avançado, abro as portas de percepção para que sinais dessas outras dimensões cheguem à minha consciência de um modo que eu consiga decodificar e entender adequadamente.
É uma tarefa desafiadora, pelas minhas limitações como ser humano em processo de ampliação de consciência, que é uma tarefa universal para todos nós, seres vivos. Os recursos que consigo acionar com algum conforto me facilitam nesse trânsito, como é o caso das mensagens simbólicas, tradutoras de realidade pela via simbólica, que os sonhos trazem. Tive dois sonhos com Joelmir durante o processo de desenvolvimento dessa biografia. Estão contados no livro.
 
Portal IMPRENSA - Quais foram as principais influências do "jornalista de economia mais influente da história do Brasil"? 
 
Edvaldo - Uma marca bem conhecida do Joelmir é a sua linguagem altamente criativa, traduzindo para o público o “economês” surreal e enigmático dos especialistas.  
 O segredo estava no uso de metáforas e analogias, por exemplo, acoplado ao ritmo narrativo que empregava com um ligeiro toque até  mesmo poético, às vezes. O Joelmir era, assim entendo, também um storyteller. Um habilidoso contador de casos, tanto no jornalismo, quanto na sua atividade de palestrante brilhante que também foi, usando-os como ilustração das análises, dos conceitos, dos raciocínios, das teses que desenvolvia para interpretar a economia. 
Vira e mexe o Joelmir saía com joias preciosas como esta: para explicar um aumento absurdo do preço de medicamentos na época da nossa inflação brava, um aumento não seguido da mesma coisa em produtos veterinários e para apontar o sentido dessa defasagem, simplesmente disse  “se você entrar na farmácia falando, vai pagar 10 reais; se entrar latindo, vai pagar cinco”.
Curta também essa nota para comentar um simpósio de saúde veterinária, chamada “a carne é fraca” que começa assim: “Gripe aviária na empada, peste suína na porcada, febre aftosa na boiada. A carne é realmente fraca. E a defesa sanitária das nobres proteínas animais, mais fraca ainda. Com direito a greve abusiva de inspetores e a corte suicida de dotações. O orçamento da defesa animal para este ano ficou um terço abaixo do minguado orçamento do ano passado”.
Simples assim, genial assim.
De onde vem esse estilo?
Joelmir começou a carreira de jornalista como repórter esportivo. Era setorista cobrindo o Santos de Pelé, no início da carreira do Rei. O Santos tinha predileção por jogar no Maracanã e Pelé parecia ter um prazer especial em lá exibir seu majestoso talento inigualável. Foi por isso que um dia driblou quase todo o time do Fluminense, marcando um gol de feitura de arte. Isso deu origem ao chamado Gol de Placa, cuja história tem a ver com Joelmir ... mas não vou lhe dar um “spoiler” e macular o seu prazer da descoberta, leitor ... risos... leia o livro... risos...
No Maracanã, Joelmir convivia com notáveis mestres do jornalismo esportivo, cronistas de fina estampa literária, exímios esgrimistas da palavra: Nelson Rodrigues e principalmente Armando Nogueira, que ele admirava em especial. Esses dois gigantes são as principais influências que despertaram o estilo que
marcaria a produção de Joelmir. Seu Gol de Placa foi migrar para  o jornalismo de economia, com assinatura própria, essa semente criativa do texto elaborado na correria instantânea do jornalismo com um toque de artista das metáforas e analogias.

Portal IMPRENSA - A descrição do temperamento calmo, leal e generoso de Joelmir é uma das marcas do livro. Como esse jeito de ser influenciou na carreira dele? 
 
Edvaldo - Tornou o Joelmir uma figura ímpar que conquistou a simpatia e o afeto  de colegas e do público pela sua postura de ser humano íntegro, um homem de princípios.
Nem sempre nos bastidores competitivos do grande jornalismo de televisão, por exemplo, o brilhantismo profissional de alguém talentoso faz parceria com a hombridade ou com a dignidade feminina  da pessoa que, se espera, existe ali, por trás da máscara social de celebridade das notícias. Isso influenciou sobremaneira a credibilidade e a autoridade natural, sem ostentação, que tinha junto ao público. Essa imagem representava um valor agregado  ao seu relacionamento com os veículos onde trabalhou, dos quais não era empregado, mas sim um prestador de serviços com um grau de autonomia considerável. Joelmir era uma marca poderosa.
Junto aos colegas, como isso se traduzia no tanto que era ben-quisto e admirado?
Seu companheiro de bancada em telejornal na Band, Ricardo Boechat, exemplificou, na conversa que tive a oportunidade de ter com ele, poucos meses antes de seu trágico desaparecimento.  
Referiu-se a essa “máquina de malucos” que é qualquer grande redação, os profissionais “...lidando com muitos assuntos, muitas emoções à flor da pele” e tudo “...acontecendo ao mesmo tempo, com um relógio que insiste em continuar avançando a hora”. 
E aí, “Joelmir lidava com essas oscilações de temperatura” do ambiente frenético de um telejornal  “de forma muito equilibrada. O argumento era firme, contundente, mas era uma exposição. Nunca vi o Joelmir falar alto, bater o telefone, gritar uma palavrão. Uma coisa é um cara gritar puta que pariu. Outra coisa é gritar puta que pariu baixinho”.
Boechat não sabia se Joelmir falava puta que pariu baixinho. Mas testemunhava que nunca o vira “dar uma desqualificada num argumento idiota. Ele era maneiro. E construía o convencimento a partir de uma coisa que não era paternal, não era professoral. Mas era a soma multiplicada dessas duas coisas”. E mais, “... estava de paletó e gravata, mas não era engravatado. Tinha o figurino, mas não era a figura do figurino.” Era, pois, “... um cara que transmitia bagagem sem pretensão.” E por isso, “... você ficava seguro ao lado dele”.