Unesco aponta tendências globais de ataques online contra jornalistas mulheres e cobra respostas

Redação Portal IMPRENSA | 03/05/2021 11:11

Um artigo lançado pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco)  em abril deste ano aponta para um aumento acentuado na violência online contra jornalistas mulheres e revela como esses ataques estão agora intrinsecamente ligados à desinformação, discriminação interseccional e política populista. 

Crédito:Reprodução

O documento batizado 'The Chilling: Tendências globais na violência online contra jornalistas mulheres', em que chilling pode ser traduzido para “freio” ou “barreira”, foi extraído de uma pesquisa do Centro Internacional para Jornalistas (ICFJ).


Foram feitas pesquisas com 901 profissionais de 125 países; entrevistas com 173 jornalistas e especialistas; dois estudos de caso avaliando mais de 2,5 milhões de postagens em mídias sociais dirigidas a Maria Ressa (Filipinas - ganhadora do Prêmio Mundial de Liberdade de Imprensa Guillermo Cano 2021) e Carole Cadwalladr (Reino Unido); 15 estudos de caso detalhados de alguns países; e uma revisão da literatura cobrindo centenas de publicações de pesquisas acadêmicas e da sociedade civil.


As principais descobertas foram:


Os ataques online têm impactos na vida real. Não apenas afetam a saúde mental e a produtividade, mas os ataques físicos e o assédio legal são cada vez mais disseminados online.


A misoginia se cruza com outras formas de discriminação. Jornalistas mulheres que também são prejudicadas pelo racismo, homofobia, preconceito religioso e outras formas de discriminação enfrentam exposição adicional a ataques online, com impactos piores.


A violência online de gênero se cruza com a desinformação. Enquanto as campanhas de desinformação orquestradas usam a misoginia para desestimular a reportagem crítica, a produção de matérias sobre a desinformação pode ser um gatilho para ataques intensificados.


Ataques online contra mulheres jornalistas têm motivos políticos. Atores políticos, redes extremistas e mídia partidária são identificados como instigadores e amplificadores da violência online contra mulheres jornalistas.


As plataformas de mídia social e organizações de notícias ainda estão tentando responder com eficácia. No contexto de um ecossistema de informações cada vez mais tóxico, as plataformas são vistas como os principais facilitadores da violência online. Quando as jornalistas recorrem a elas ou a seus empregadores em meio a uma tempestade de violência online, muitas vezes deixam de receber respostas eficazes e até enfrentam comportamentos de culpabilização das vítimas.


O relatório também demonstra que existe um clima da impunidade em volta dos ataques online a jornalistas mulheres.


“[Os ataques] devem ser tratados de forma mais urgente e eficaz porque a impunidade encoraja os perpetradores, desmoraliza a vítima, corrói os alicerces de jornalismo e mina a liberdade de expressão. Por muito tempo, o foco tem sido tornar jornalistas mulheres responsáveis por sua própria defesa e proteção, em vez de tornar responsáveis os perpetradores e instigadores, os donos da plataforma e os agentes da lei e da mídia”, afirma o estudo.


A violência, segundo a pesquisa, está mais sofisticada e evoluindo com a tecnologia, sendo alimentada por atores políticos. A maioria das mulheres jornalistas não divulga essas situações e muitos empregadores ainda parecem relutantes em levar a violência online a sério.


Por isso, a Unesco traz uma série de recomendações para as profissionais, para as plataformas de mídia, para as empresas, para organizações de defesa dos direitos humanos, entre outros atores envolvidos.


Entre essas recomendações estão:


Reconhecer que o problema é global e opera no contexto de grandes e lucrativas empresas de tecnologia;


Facilitar a cooperação global e entre Estados contra os ataques; 


Promover respostas colaborativas envolvendo organizações da sociedade civil, redes de jornalistas e pesquisadores; 


Investir em pesquisa sobre a violência online e as respostas a ela;


Reconhecer as ameaças relacionadas à violência de gênero, como racismo, preconceito religioso e homofobia;


Certificar-se de que os mecanismos e protocolos desenvolvidos para salvaguardar jornalistas são apropriados para casos de violência orquestrada;


Monitorar evidências da violência online associada a crimes contra jornalistas;


Garantir que as leis e direitos para proteger as mulheres jornalistas offline são aplicado igualmente online, conforme exigido pela ONU;


Tornar as empresas de mídia social mais claramente responsáveis pelo combate à violência;


Desestimular ataques entre partidos políticos;


Punir membros que participem de atos de violência online contra jornalistas mulheres.


Todas as conclusões e recomendações elaboradas pela Unesco podem ser acessadas no relatório completo por meio deste link.


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