Com 65 anos de jornalismo, Zé Hamilton conta vivências e opina sobre momento político atual do Brasil

Deborah Freire | 07/04/2021 10:43

Ao fazer os cálculos de quando iniciou no jornalismo, José Hamilton Ribeiro, nascido no interior de São Paulo em 1935, prefere reforçar que começou a carreira na segunda metade do século passado e não na primeira, deixando claro que ainda é um contemporâneo da profissão muito atento aos fatos atuais.

Crédito:Reprodução / TV Globo

Em entrevista especial ao Portal IMPRENSA para o Dia do Jornalista, ele falou um pouco de sua trajetória e relembrou a atuação dos jornais durante a Ditadura Militar. Mas apesar das trevas enfrentadas pelos que lutavam por liberdade à época, Zé Hamilton, como é chamado, se estendeu mais em críticas ao cenário político que enfrentamos hoje.


“Tenho 85 anos. Comecei com 20 no jornalismo, ou seja, tem 65 anos que comecei. Sempre trabalhei profissionalmente em São Paulo, fiz incursões pelo interior, um ano em um lugar, dois anos em outros. Participei da criação de dois jornais, fiquei em São Paulo meio ‘no desvio’ porque era Ditadura Militar. Mas quando terminou esse período, a imprensa pôde crescer, a gente teve condições no Brasil de fazer jornalismo dentro das circunstancias de cada lugar”, reconta.


Hoje, a realidade do Brasil com o governo de Jair Bolsonaro é chamada por Zé Hamilton de momento de mediocridade, em que o País vive sob a autoridade de pessoas incapazes de governar.


“É um governo circunstancial que se estabeleceu em momento histórico perturbado do Brasil e acabou ganhando a eleição. É um fato fora da curva. Um homem cheio de recalque, cheio de mania de perseguição. É um caso psiquiátrico e não político”, opina o jornalista.


Entre as experiências como repórter, editor e diretor, Zé Hamilton lembra que vivenciou um momento áureo do jornalismo, com a criação do grupo Abril, onde trabalhou, e a abertura de muitos jornais, com a consequente geração de muitas vagas de trabalho.


Já naquele tempo, ele recorda que os patrões faziam uma “choradeira” para manter os custos baixos e não aumentar salários. “Não me lembro de ter lido nos jornais nada sobre faturamento, que era alto, nem a promessa de que ‘vamos aumentar o salário dos jornalistas’. Reclamavam do papel caro, dos muitos direitos trabalhistas. Nesses 65 anos, patrões sempre fizeram uma choradeira danada, mas era a empresa chorando e a gente lutando por emprego. Foi uma fase boa”, diz.


Na Ditadura de 64, ele conta, a imprensa e as entidades de jornalismo foram sufocadas, mas conseguiram atuar, pouco a pouco, para mudar a realidade. Ele acredita que a ideia de liberdade de expressão apesar de massacrada, não morreu, por isso o jornalismo resistiu.


“A Ditadura foi horrorosa. Uma rebordosa que sufocou o jovem brasileiro por muito tempo, mas em vão, porque os sindicatos estavam alertas, as associações de jornalismo estavam alertas, cutucando o governo para mudar e sempre conseguiam mudar algumas coisas. Ela massacrou a sociedade civil brasileira, mas não matou, a sementinha foi esmagada mas não morreu. Por mais dura que seja, não se consegue acabar com a ideia do jornalismo”, ressalta.


A repressão voltou a ter lugar no Brasil, hoje com a descredibilização do jornalismo pelas próprias autoridades. Zé Hamilton enxerga que a sociedade e as entidades que lutam pelo jornalismo e pela liberdade estão sufocadas e precisam reagir. E o jornalismo surge, mais uma vez, com a responsabilidade de aproveitar as brechas para ampliar a voz da verdade.


“Colocaram uma placa na nossa cabeça, e o espaço entre a cabeça e a placa está cada vez menor; o ar para respirar está pouco, estamos perto do teto, vivendo o sufocamento de um governo absurdo, dirigido por gente incapaz, que chegou a um lugar além de sua capacidade. As pessoas estão lá às vezes não sabem nem por quê. Quem está por cima hoje são os medíocres, ideologizados, fanáticos”, afirma.


E reforça o papel do jornalismo: “O jornalista tem que aproveitar as pequenas brechas de liberdade que existem para fazer ouvir a voz das pessoas lúcidas que não querem ter, num país tão promissor, um presidente do nível do Bolsonaro, que não tem dimensão de estadista, que em nenhum lugar do mundo ninguém leva a sério. Uma piada mundial”.


Zé Hamilton acredita que, “na pior das hipóteses”, o governo muda nas próximas eleições. Para isso, jornalistas e a sociedade como um todo têm que começar a agir agora.


“Só saímos dessa escuridão ou pela força das armas, coisa que não temos, ou pelas forças do espírito, da cabeça, da mente. Em 2022, tem eleição e nós temos chances de dar uma virada boa via povo. Temos que lutar para conversar com as pessoas e mostrar que na próxima eleição, o próximo presidente não pode ser um homem chamado até de genocida publicamente. Temos que sair disso, com gente que tenha qualidade humana e política para governar o Brasil. Alguém do nível de um estadista e não de um miliciano”, pontua.


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