Apoio do governo Bolsonaro à Ditadura Militar gera onda de repúdio no aniversário do Golpe

Redação Portal IMPRENSA | 01/04/2021 10:26

As declarações de autoridades nacionais em comemoração ao Golpe Militar de 1964, feitas nessa quarta (31), e as tentativas do governo Jair Bolsonaro de revisar o conceito da Ditadura foram recebidas com repúdio e indignação por entidades da sociedade civil, jornalistas, políticos e juristas.

Crédito:Getty Images

Desde que assumiu o governo, Bolsonaro tenta reclassificar o golpe tratando-o como um movimento que “livrou” o País de uma ditadura comunista e que deve ser comemorado. 


No dia 17 de março de 2021, o Tribunal Regional Federal da 5ª Região (TRF-5) acolheu um pedido de recurso da Advocacia Geral da União (AGU) e derrubou uma decisão que impedia o governo federal de celebrar o Golpe.


A decisão anulada determinava a retirada de uma nota publicada pelo Ministério da Defesa, que classificou o episódio que deu início a duas décadas de governos autoritários como um “marco da democracia brasileira”, e vetava qualquer iniciativa semelhante.


Além disso, iniciativas do governo com base na Lei de Segurança Nacional (LSN), criada durante a ditadura e que prevê como crime “caluniar ou difamar o presidente da República”, motivaram 51 procedimentos da Polícia Federal em 2020.


Fundamentados na mesma lei, cinco manifestantes foram detidos em Brasília no dia 18 de março de 2021, por estender uma faixa com a frase “Bolsonaro Genocida” em frente ao Palácio do Planalto.


Declarações


O comportamento teve um ápice esta semana com a demissão dos chefes das Forças Armadas, por não cederem aos pedidos de apoio de Bolsonaro à Ditadura e contra medidas de controle da pandemia de coronavírus.


Nessa quarta (31), o novo ministro da Defesa, Braga Netto, em seu primeiro ato público divulgou a Ordem do Dia Alusiva ao 31 de Março de 1964, dia do Golpe.


O texto afirma que “a Guerra Fria envolveu a América Latina, trazendo ao Brasil um cenário de inseguranças com grave instabilidade política, social e econômica” e que havia “ameaça real à paz e à democracia”.


Diz ainda que “as Forças Armadas acabaram assumindo a responsabilidade de pacificar o País, enfrentando os desgastes para reorganizá-lo e garantir as liberdades democráticas que hoje desfrutamos” e portanto, “devem ser compreendidos e celebrados os acontecimentos daquele 31 de março”.


Ele não citou, porém, que jornalistas passaram a trabalhar na clandestinidade e que pelo menos 19 foram assassinados e 9 foram vítimas de desaparecimento forçado entre 1970 e 1985 no Brasil, segundo o Observatório Infoamérica.


Entre os mortos está Vladimir Herzog, então diretor de jornalismo da TV Cultura, preso, torturado e assassinado no dia 25 de outubro de 1975, violências que expuseram aos olhos de todo o país a crueldade do regime militar e tiveram enorme repercussão, desencadeando uma série de manifestações que culminaram na redemocratização do país.


Além de Braga Netto, o vice-presidente Hamilton Mourão declarou ontem no Twitter que “há 57 anos, a população brasileira, com apoio das Forças Armadas, impediu que o Movimento Comunista Internacional fincasse suas tenazes no Brasil”.


Repúdio


O posicionamento do governo gerou uma onda de indignação e repúdio. A organização Repórteres Sem Fronteiras, o Instituto Vladimir Herzog, ministro Gilmar Mendes, o ex-presidente da Câmara Rodrigo Maia, entidades e jornalistas como Carlos Latuff, Guilherme Caetano, João Paulo Charleaux, a professora Lola Aronovich e outros se manifestaram com declarações contra a Ditadura e as iniciativas autoritárias de Bolsonaro.


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