Violência contra jornalistas afeta 73% das profissionais mulheres e avança na internet

Redação Portal IMPRENSA | 09/03/2021 11:56

A presença cada vez maior das mulheres no jornalismo e os avanços na proteção feminina no exercício da profissão não têm acompanhado a realidade da violência de gênero, que atualmente tem migrado para a internet e se fortalecido nesse meio, onde 73% das jornalistas já sofreram ou ameaças, ofensas ou outras agressões.

Crédito:AFP

O dado faz parte do relatório “O jornalismo frente ao sexismo”, lançado nessa segunda-feira (8), Dia da Mulher, pela organização Repórteres sem Fronteiras (RSF) que coletou respostas de profissionais de imprensa em 112 países. Desses, 40 países foram considerados perigosos ou muito perigosos para elas na profissão.


O perigo, segundo análise da RSF, “não está à espreita de jornalistas apenas nos ambientes clássicos de reportagem, ou nos novos campos virtuais - na internet e nas redes sociais -, está também onde elas deveriam se sentir seguras, em suas redações”, alerta.

Crédito: RSF

Depois da internet, 58% das participantes do levantamento indicam o local de trabalho como o lugar “onde foram cometidas as violências de gênero”.


O resultado já era previsto pela organização e foi reforçado pela disseminação do movimento #MeToo pelo mundo e pelo fato de que as jornalistas têm denunciado mais os casos de agressão ou de assédio sexual, como nos Estados Unidos, no Japão ou na Índia.


No Brasil, a jornalista Patrícia Campos Mello foi alvo de uma campanha de assédio cibernético extremamente violenta depois de ser acusada pelo presidente Jair Bolsonaro e seus filhos que ocupam cargos eletivos de ter "extorquido"  informações em troca de favores sexuais. Ela investigou e denunciou o uso ilegal de fundos privados pelo presidente para financiar campanhas de desinformação.

Crédito:RSF

Também no Brasil, cerca de cinquenta jornalistas esportivas lançaram o movimento #DeixaElaTrabalhar para denunciar a prática de beijos forçados por parte de torcedores durante a cobertura de eventos esportivos ao vivo. Entre as jornalistas, as especialistas em direitos das mulheres e aquelas que cobrem esporte ou política são as que estão mais vulneráveis à violência.


Consequências


Como reflexo da violência sofrida, o estresse é a consequência relatada por 79% das entrevistadas, seguido por ansiedade (65%), medo de perder o emprego (54%), perda de autoestima (50%) e medo de ser morta (49%).

Crédito:RSF

No exercício do jornalismo, a violência sofrida também gera impactos. Segundo a RSF, “o trauma sofrido leva ao silêncio e reduz o pluralismo das informações”.


Das profissionais entrevistadas, 43% encerraram temporária ou mesmo permanentemente suas contas nas redes sociais, 48% passaram a se autocensurar, 21% mudaram de especialidade e 21% pediram demissão.


Para reduzir essa violência, a RSF inclui em seu relatório uma série de recomendações destinadas a jornalistas, redações e governos. Entre elas estão a abertura de mais espaço nas redações para artigos e reportagens investigativas sobre os direitos das mulheres e sobre a violência de gênero em caráter permanente e não apenas em datas comemorativas; a garantia pelas empresas de salários iguais em todos os níveis e paridade nas funções editoriais e de gestão, bem como nos cargos de maior visibilidade; o comprometimento do governo com a liberdade de imprensa; e para as mulheres, fazer capturas de tela, imprimir, coletar e guardar todas as evidências de assédio, insultos, ameaças ou agressões recebidos nas suas caixas de mensagens pessoais ou profissionais e nas redes sociais, entre outras.


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