Próxima onda de desinformação será por áudios via ClubHouse e outros, avalia especialista

Deborah Freire | 08/03/2021 11:27

A explosão de downloads do aplicativo ClubHouse, rede social de bate-papo por áudio, e a promessa de criação de redes sociais semelhantes pelo mundo fez as atenções dos internautas e jornalistas se voltarem para a novidade.

Crédito:Reuters / Thiago Prudêncio / SOPA Images / Sipa EUA

O aplicativo foi lançado ano passado, mas agora, liberado para convidados, já foi baixado cerca de 4,7 milhões de vezes, de acordo com a Apptopia. Desse total, mais de 3 milhões de downloads ocorreram nos últimos 90 dias, mesmo disponível apenas para iPhone.


Para Roberta Braga, gerente de comunicação da multinacional da área de direito Baker McKenzie, e colaboradora do Digital Forensic Research Lab (DFRLab) no combate à desinformação, um estímulo para os usuários buscarem o novo app pode ter sido o pós-invasão do Capitólio, nos Estados Unidos.


Em busca de redes sociais mais privadas e sem repressão - como ocorreu no Facebook e Twitter aos posts da extrema direita apoiadora da tese de fraude eleitoral levantada por Donald Trump –, usuários correram para o Clubhouse.


Por isso, Braga acredita que a próxima “grande ameaça no espaço de informações não será vista, será ouvida - e será quase impossível rastrear, atribuir e contra-atacar”.


“Já em 2018, vimos a desinformação se espalhando por meio de mensagens de voz/áudio em plataformas de mensagens criptografadas. Agora, com o surgimento de aplicativos exclusivos de áudio, como Clubhouse e Twitch, a desinformação provavelmente será transmitida por áudio a taxas muito mais altas do que vimos antes. Os desafios que vimos na verificação de áudio apenas alguns anos atrás serão dez vezes maiores”, escreveu em artigo publicado pelo DFRLab.


Jornalistas no app


No Brasil, a TV Cultura entrou no ClubHouse em fevereiro deste ano, com um debate sobre a variante do coronavírus detectada em Manaus, em que levou especialistas em saúde e biologia.


Já em março, integrantes do Jornal da Record também realizaram o primeiro bate-papo na rede social com discussões e análises de fatos. Mas o desafio maior para o jornalismo vai além de inserir notícias e fatos bem apurados na rede. Os verificadores terão mais trabalho para checar “o que” e até mesmo “quem” é real no novo ambiente?


“Vimos os desafios que a verificação de mensagens de áudio pode representar durante as eleições brasileiras em 2018 e na Argentina, onde o áudio tem sido usado com destaque no WhatsApp desde 2015. Para aqueles que se opõem à desinformação, a atribuição e verificação de áudio sempre foi especialmente complexa. Não se tem as ferramentas necessárias para detectar perfeitamente a voz do outro lado. Para mensagens que são encaminhadas muitas vezes em plataformas criptografadas, verificar se a pessoa no áudio é quem ela diz ser torna-se um desafio cada vez maior” analisa Braga.


Mensagens de áudio ainda não são o formato mais proeminente pelo qual o conteúdo circula, mas isso pode não durar para sempre, como ela avalia. O Twitter, por exemplo, já começou a testar o Spaces, na mesma linha; e o empresário americano biolionário Mark Cuban, vem desenvolvendo o Fireside. O Facebook também anunciou que trabalha em um app de áudio.


“Se os especialistas em contra-desinformação e grupos de múltiplas partes interessadas não começarem a dar uma olhada mais profunda e objetiva no fortalecimento das ferramentas e habilidades necessárias para conter a desinformação propagada por meio de áudio (ao mesmo tempo que leva em conta a privacidade dos dados e a liberdade de expressão), inevitavelmente iremos ser pego atrás da curva mais uma vez, com consequências muito mais problemáticas”, conclui.


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