Repórter do O Globo narra dificuldades de cobertura da pandemia em Manaus

Redação Portal IMPRENSA | 17/02/2021 17:48
Jornalista formado pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) em 2005, Leandro Prazeres trabalhou durante os primeiros sete anos de sua vida profissional em Manaus (AM). Em 2012, mudou-se pra Londres, onde fez um mestrado em Política Internacional e Direitos Humanos. Em Brasília desde 2014, passou pelo UOL e está no O GLOBO desde julho de 2019, onde cobre meio ambiente, direitos humanos e políticas públicas. Em janeiro último foi escalado para voltar à cidade onde começou a atuar profissionalmente, a fim de cobrir a crise da pandemia na capital do Amazonas. Na entrevista a seguir, concedida por email ao Portal IMPRENSA, Prazeres fala sobre como a experiência o impactou.
Crédito:Euzivaldo Queiroz
Leandro Prazeres, em atuação em Manaus: cobertura em locais com carga viral altíssima
Portal IMPRENSA - Por quanto tempo você ficou em Manaus para cobrir a crise da pandemia?
Leandro Prazeres - Fiquei entre os dias 14 e 20 de janeiro deste ano.

Portal IMPRENSA - Quais foram os momentos mais marcantes da cobertura?
Leandro Prazeres - Houve inúmeros momentos marcantes durante essa cobertura. Um deles ocorreu quando conheci uma moça de 24 anos que estava na fila para comprar oxigênio para a avó que estava doente em casa. Ela contou que tinha passado a madrugada toda na fila e quando, finalmente , iam atendê-la, a família ligou pedindo que ela voltasse, deixasse a fila, passasse numa farmácia e comprasse morfina porque sua avó não iria aguentar muito mais tempo. Aquilo foi pesado demais. A principal dificuldade em uma situação de caos humanitário como essa é entender o limite da dor das pessoas e evitar o sensacionalismo. Nessa cobertura, uma dificuldade diferente foi em relação ao medo de se infectar. Manaus havia se tornado um Hotspot da doença e a gente ia a locais como hospitais e residências onde pessoas estavam morrendo de covid, ou seja, locais onde a carga viral era altíssima.

Portal IMPRENSA - Como lidar com o medo de contágio?
Leandro Prazeres - Durante toda a cobertura, usava máscaras o tempo todo e colocava as roupas usadas em um saco vedado assim que chegava ao hotel. Álcool em gel era material de primeira necessidade. Evitamos apertos de mão e outras formas de contato físico.

Portal IMPRENSA - Como você se pautou?
Leandro Prazeres - Me pautava a partir de conversas que mantinha com fontes que adquiri durante os sete anos em que trabalhei na Amazônia antes de vir a Brasília, das demandas que vinham da chefia no Rio e das conversas que mantive com as pessoas que encontrei nos hospitais e unidades de saúde.

Portal IMPRENSA - Como se dá a busca pelo furo numa situação dessas? 
Leandro Prazeres - Uma das principais dificuldades nesse tipo de cobertura é que toda a imprensa do país e do mundo está de olho em um único local e tudo, de repente, parece virar notícia. Como repórter, você não quer tomar furos, mas em situações como essa, isso sempre irá acontecer. O importante foi avaliar bem a situação e determinar que histórias eram relevantes para contar tanto o factual como a quadro em um contexto mais amplo. Como um amigo repórter me falava: falar da árvore sem esquecer que ela faz parte de uma floresta. Espero que a gente tenha conseguido fazer isso direito.

Portal IMPRENSA - Quais outras coberturas marcantes você realizou?
Leandro Prazeres - No final de 2010 fui ao Haiti cobrir o primeiro aniversário do terremoto que destruiu o país. Cheguei em meio a uma epidemia de cólera. O clima era pesado tanto pela destruição, quanto pelo medo de pegar a doença. Havia sido a situação mais tensa da minha carreira até então, mas o que vi em Manaus agora me tocou mais. Acho que isso ocorreu tanto pela minha ligação afetiva com a cidade, quanto pelo fato de que, ao que tudo indica, essa crise não é apenas natural, fruto de um epidemia inevitável. Há um fator político e social muito importante que ajuda a explicar o que vimos naqueles dias e vemos até hoje lá.