11 expressões que todo jornalista latino-americano deve saber

Redação Portal IMPRENSA | 11/02/2021 12:07

Lide, nariz de cera, barriga... Expressões usadas em redações jornalísticas em várias partes do mundo sempre acabam virando parte íntima do vocabulário de um profissional da imprensa, mas será que você conhece todos esses termos?

Crédito:Pexels

A LatAm Journalism Review reuniu expressões jornalísticas em português, inglês e espanhol que vão ajudar a entender as expressões, inclusive em trabalhos para veículos de outros países.


Os termos foram sugestões enviadas por jornalistas à LJR por e-mail e pelo Twitter.


1. Furo / Scoop / Primicia


Um dos mais importantes e conhecidos jargões para a prática jornalística em qualquer idioma. No português brasileiro, “furo” é a notícia exclusiva em primeira mão, divulgada por um jornalística ou veículo de informação antes dos seus competidores.


É o mesmo sentido do scoop, em inglês, e de primicia, em espanhol. Apesar de serem usadas da mesma forma, as três palavras têm traduções literais bem diferentes.


Não há consenso da origem do uso com este sentido no Brasil. Uma pesquisa na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional do Brasil encontrou a referência mais antiga no jornal A Pacotilha, do Maranhão, em 9 de abril de 1897.


“As notícias vinham de navio. Alguns jornalistas iam de bote aos navios para pegar a notícia antes de atracarem. Furavam a chapa, molde ou não sei o quê do jornal pré-pronto para dar a notícia antes dos concorrentes,” disse à LJR o jornalista, professor e escritor Deonísio da Silva. Apesar da boa história, ela carece de comprovação histórica. 


2. Lead, Lide e Entradilla


Vem do verbo inglês lead, ou seja, conduzir, liderar, estar em posição de vantagem, vir primeiro. Por isso, se refere ao primeiro parágrafo de um texto jornalístico. Em inglês, também se escreve lede.


Aportuguesado, escreve-se lide para se aproximar da pronúncia em inglês. Já no espanhol se usa entradilla.


Há lides de vários tipos, mas o mais disseminado é o direto, que responde de cara as perguntas quem, o quê, como, onde, quando, e por quê, informado o leitor sobre o fato mais importante daquela notícia.


3. Pingue-pongue


Uma entrevista que é publicada no formato perguntas e respostas. Em inglês se diz Q&A (question and answer). Em espanhol, pregunta-respuesta. Em português? Pingue-pongue, numa referência ao tênis de mesa.


4. Pauta


A palavra tem usos variados no português e não encontra termo tão disseminado nas outras línguas. Pauta pode ser o conjunto de informações pesquisadas que dão início ao trabalho de reportagem, em inglês, algo como guide, Schedule.


O termo também é usado para descrever as ideias que os repórteres apresentam a seus editores (em inglês, story idea) nas reuniões de pauta.


Mas pauta também é sinônimo de tarefa para um repórter (em inglês, news assignment) e o ato de passar essa tarefa é expresso no verbo pautar (em inglês, to assign).


O termo é tão importante no jornalismo brasileiro que uma das funções tradicionais de uma redação é o pauteiro, o jornalista que elabora as pautas para uma edição do noticiário.


5. Delayed Lead, Nariz de Cera e Entradilla Literária


As três expressões significam a mesma coisa: um primeiro parágrafo de um texto jornalístico que não vai direto ao assunto principal.


No entanto, delayed lead e entradilla literária não tem a mesma conotação negativa que o nariz de cera carrega no português brasileiro. Em inglês e espanhol, os lides ‘atrasados’ ou ‘literários’ são vistos como técnica legítima de redação jornalística.


Já no português, o manual de redação de um dos mais influentes jornais do Brasil descreve o nariz de cera como “parágrafo introdutório que retarda a entrada no assunto específico do texto. É sinal de prolixidade incompatível com jornalismo.”


6. Barriga


Todo jornalista já “deu uma barriga” e há de se envergonhar para sempre dela. No Brasil, barriga é uma informação errada que acaba publicada. Ao contrário do furo, aquilo que todo jornalista persegue, da barriga todos fogem.


O professor e escritor brasileiro Deonísio da Silva atribui a sua origem, não confirmada, à também não confirmada história do furo. Se ele surgiu com a sabotagem de concorrentes que danificavam chapas de impressão de rivais, a barriga é o erro resultante da impressão usando essa chapa danificada. Nada tem a ver com as fake news: a barriga não é intencional.


7. Reco, OP (operação patrão), OBRIG


Se uma pauta vem direto do dono do veículo, ela é inderrubável. De tão frequentes no jornalismo brasileiro, contam com uma série de denominações.


A minha preferida é a reco (às vezes, rec), diminutivo de recomendada. Se trata de uma ordem dos mais altos escalões. Pode ser a cobertura de um evento social, o lançamento do livro de um amigo ou mesmo pautas menos republicanas.


Em alguns locais, se cunhou o termo OBRIG, de obrigatório, para as tradicionais recos. Em redações menos criativas, ou talvez apenas mais cansadas, se usa OP, de operação-patrão.


8. Foca, Rookie


O Estadão adotou a foca como símbolo de seu programa de treinamento de jovens jornalistas. É uma referência ao mamífero aquático e é como os jornalistas brasileiros se referem aos novatos. Embora a origem seja uma pilhéria, o termo foi adotado com conotação positiva.


No inglês, não há termo específico e os iniciantes são chamados de rookies, assim como qualquer iniciante em qualquer atividade profissional. O termo, no entanto, tem origem na designação de recrutas militares, segundo o dicionário Oxford.


9. Gaveta


Em português, reportagem de gaveta é uma matéria pronta que ainda não foi publicada. É chamada assim porque antes de guardar o arquivo de texto numa pasta no computador, o editor guardava as matérias disponíveis numa gaveta mesmo.


A gaveta permite certa flexibilidade diante do fechamento, pois se algo der errado, lança-se mão da gaveta e previne-se que determinada edição tenha menos textos que o previsto.


10. Puff piece


Puff, em inglês, significa inchado, ou seja, semelhante ao sentido figurado associado ao jornalismo: textos inflados de elementos positivos sobre um personagem ou instituição.


Uma expressão similar no português do Brasil é jornalismo chapa branca, ou seja, oficialista e acrítico em relação ao governo, muitas vezes por haver uma associação entre o chefe de governo e o veículo. Chapa branca vem da cor das placas usadas em carros de propriedade do governo no país até alguns anos atrás.


11. Crony journalism


Crony journalism é irmão das puff pieces. Numa tradução literal, crony journalism vira jornalismo camarada, ou para usar uma expressão mais moderna, jornalismo parça. 


Ou seja, é aquele tipo de jornalismo feito para ficar bem com os amigos, ou mesmo com as fontes. Muitos elogios e vista grossa para os problemas podem servir para conquistar uma relação próxima com a fonte e resultar num furo mais adiante.


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