Jornalista Cezar Motta lança livro sobre os bastidores da criação do Dicionário Aurélio

Kassia Nobre | 08/02/2021 09:28
O jornalista Cezar Motta apresenta seu novo livro Por trás das palavras: as intrigas e disputas que marcaram a criação do Dicionário Aurélio, o maior fenômeno editorial brasileiro (Máquina de Livros).

A obra narra a saga da construção do Dicionário “Aurélio”, criação da equipe liderada por Aurélio Buarque de Holanda. 

O Portal Imprensa conversou com o jornalista sobre a produção do livro que relatou os bastidores da criação do dicionário, como descumprimento de prazos, fracassos, acusações de traição e disputas pela coautoria.

“Acredito que a leitura é interessante pela época em que a história transcorre, pelo retrato que faz das editoras brasileiras desde o início do Século XX, pelos personagens envolvidos e por mostrar um Aurélio que é exatamente o oposto do retrato que se faz de um dicionarista.  Não era um velho recluso e sisudo, trancado em seu gabinete de trabalho, como se pode imaginar. Ao contrário, era um homem vibrante, boêmio, cheio de amigos, falante. Um contador de histórias do Nordeste, da literatura e da vida. Bom de mesa e de copo”.

Crédito:Divulgação Máquina de Livros



Portal Imprensa – Como surgiu a ideia de escrever a obra e como foi o processo de criação do livro?
Cezar Motta – Dicionário Aurélio foi lançado em 1975.  Eu trabalhava na Rádio Jornal do Brasil, e todos os comentários na redação do jornal eram de que o redator Joaquim Campelo “era o verdadeiro autor”, ou pelo menos teria sido “fundamental” para a elaboração do dicionário. Só fui conhecer Campelo dez anos depois, quando ele era assessor do então presidente José Sarney, e eu repórter do Globo, cobrindo o Palácio do Planalto. Mas nunca tocamos no assunto. 

Em 2015, eu estava escrevendo “Até a Última Página – Uma História do Jornal do Brasil”, e Campelo era diretor editorial do Senado. Eu o procurei então para ouvir seu depoimento sobre o JB – ele participara da reforma gráfica e editorial do jornal promovida por Jânio de Freitas no fim dos anos 50. Estava ainda magoadíssimo com uma derrota que sofrera no STF pela perda de sua parte nos direitos autorais sobre o Aurélio.  Da conversa, nasceu a ideia do livro.

Portal Imprensa - Já no título do livro há uma descrição de intrigas e disputas nos bastidores da produção do clássico dicionário escrito por Aurélio Buarque de Holanda. Você poderia citar uma história que mais chamou a sua atenção?

Cezar Motta - É claro que o dicionário é a cara de Aurélio Buarque de Holanda, está demonstrado ali todo o seu brilho como lexicógrafo. Mas sem o trabalho de Campelo, realmente a obra não seria publicada. Ele lutou dez anos em busca de recursos, de dinheiro e condições para montar uma equipe, chegou a pagar salários (inclusive ao próprio Aurélio) do seu próprio bolso a todos que participavam da pesquisa e do dia-a-dia, até chegar à Editora Nova Fronteira, que apostou no sucesso.

Depois de publicado o dicionário, Aurélio e sua mulher Marina nunca se conformaram com o percentual de direitos autorais a que Campelo e as lexicógrafas Elza Tavares, Margarida dos Anjos tinham direito. Aurélio tinha os dez por cento regulamentares de direitos autorais, de onde eram retirados três por cento para Campelo e as moças.  Aurélio dizia que era “uma gentileza” que fazia a eles, e por duas vezes conseguiu tomar-lhes os direitos.  Uma outra descoberta interessante foi que Aurélio poderia ter sido um grande escritor – ele mesmo admite que foi uma opção se tornar um dicionarista.

Portal Imprensa -  Além do Aurélio, quais outros personagens você descobriu como fundamentais para a construção do dicionário?

Cezar Motta - Os principais personagens são Aurélio e sua mulher, Marina Baird Ferreira, Campelo, Elza Tavares e Margarida dos Anjos, a equipe fixa. Mas houve 120 colaboradores, especialistas em todas as áreas que o dicionário abrange. Eu destacaria como fundamentais para a saga da obra o editor Abrahão Koogan, da Editora Delta, o primeiro a investir no dicionário no fim dos anos 60; Carlos Lacerda, o dono da Editora Nova Fronteira e seu filho Sérgio; o então jovem advogado Roberto Riet, que convenceu Lacerda a acreditar no projeto; Jânio de Freitas, que deu suporte técnico a Riet; e o escritor João Condé. 

Portal Imprensa - O que o leitor poderá esperar da obra? 
Cezar Motta - Acredito que a leitura é interessante pela época em que a história transcorre, pelo retrato que faz das editoras brasileiras desde o início do Século XX, pelos personagens envolvidos e por mostrar um Aurélio que é exatamente o oposto do retrato que se faz de um dicionarista.  Não era um velho recluso e sisudo, trancado em seu gabinete de trabalho, como se pode imaginar. Ao contrário, era um homem vibrante, boêmio, cheio de amigos, falante. Um contador de histórias do Nordeste, da literatura e da vida. Bom de mesa e de copo.