Jornalista André Guilherme Vieira lança livro sobre disputa bilionária da Vale por mina na África

Kassia Nobre | 04/02/2021 08:39
Após dois anos de investigação, o jornalista André Guilherme Vieira, repórter de política do jornal Valor Econômico, lança o livro O Mapa da Mina: A guerra dos conglomerados globais de mineração pela conquista da Carajás africana (Kotter Editorial). 

A obra narra a disputa bilionária em torno do controle de uma mina de minério na Guiné. O jornalista conta detalhes sobre o comportamento de uma das mais poderosas empresas do país, a Vale.

O Portal Imprensa conversou com o autor sobre a criação do livro. André ainda compartilhou dicas para aqueles que desejam escrever grandes reportagens. 

“O processo de investigação foi extenuante, assim como o de escrita. Fui ficando cada vez mais interessado pelo tema e pelos personagens. Tem de tudo um pouco no livro: política local e geopolítica internacional; conspirações, espionagem, sabotagem, acusações de fraude eleitoral e tentativas de deposição de líderes de governo pela via da força e do assassinato”. 

Lançamento 
Nesta sexta-feira (5), o jornalista fará o lançamento do livro na Livraria Martins Fontes, das 17h às 20h, em São Paulo. 

Crédito:Divulgação Kotter Editorial



Portal Imprensa - O livro relata sobre os bastidores da disputa pelo controle de uma mina na África. Gostaria que você contasse como surgiu a ideia do livro? Como o tema surgiu para você?
André Guilherme -  Na verdade se trata da maior mina de ferro do mundo, localizada na Guiné, na África Ocidental. A mina tem potencial enorme de produção de minério de ferro e, até agora, segue inexplorada. 

Tomei conhecimento em meados de 2018 de que a Vale estava tentando obter os direitos de exploração dos dois principais lotes de minério de ferro de Simandou. Soube disso em conversas com fontes ligadas a empreiteiras que mantinham negócios na África. Os executivos estavam sempre atentos a novas oportunidades de negócios. Se uma empresa do porte da Vale vai para a África, empreiteiras ficam à espreita na expectativa de surgir demanda por obras de infraestrutura. Foi conversando com alguns executivos que compreendi o tamanho da empreitada da mineradora brasileira.  

Portal Imprensa - Como foi o processo de investigação do livro? Quanto tempo durou? Gostaria que você relatasse curiosidades sobre o trabalho jornalístico na criação da obra.
André Guilherme - O trabalho todo, entre início da apuração e conclusão do livro levou perto de dois anos. O processo de investigação foi extenuante, assim como o de escrita. Fui ficando cada vez mais interessado pelo tema e pelos personagens. Como em 2018 já havia vários embates jurídicos entre a Vale e a empresa com a qual ela havia se associado para explorar Simandou, a BSGR, me dei conta de que poderia ter acesso a um farto material sobre o caso se olhasse os processos judiciais. Houve uma arbitragem na Corte Arbitral de Londres. E boa parte dos autos era pública, ou foi se tornando pública. Fui conseguindo acesso aos documentos da arbitragem.

Eu os lia e fazia anotações. Todos em inglês. Então dava mais trabalho. Mas os depoimentos feitos no âmbito dessa arbitragem eram riquíssimos em detalhes. Davam um vislumbre dos fatos a partir de diferentes pontos de vista. Também consegui fazer fontes que me ajudaram a encontrar autos criminais na Corte de Manhattan, nos EUA. Li ainda os autos de um processo criminal aberto na própria Guiné. Quase fiquei louco. Não dormia, porque trabalhava no livro durante minhas folgas de repórter  do Valor Econômico. E eu tenho três filhos, dois deles com idades entre 3 e 7 anos. Então imagine...

Nos documentos da Guiné e da Suíça tinha muita coisa em francês. Precisei de ajuda profissional para tradução. Fui reunindo dados, escrevendo e falando com pessoas. Como a Vale é uma empresa enorme, precisei procurar pessoas que têm ou tiveram ligações com a companhia para poder entender alguns contextos que envolviam tomadas de decisão sobre o negócio de Simandou. Uma curiosidade é que tive que estudar astronomia e geologia para compreender o processo de formação da crosta terrestre. Aprendi e reaprendi coisas elementares dos bancos de escola, que a gente acaba esquecendo à medida em que envelhece. Por exemplo: o ferro que corre nas suas veias e nas minhas já fez parte de núcleos de estrelas longínquas. 

Portal Imprensa - O que mais lhe surpreendeu durante a apuração da pauta? Teria alguma história que mais chamou a sua atenção?
André Guilherme - Na verdade fui surpreendido por uma sucessão de fatos que foram aumentando meu interesse na história de Simandou. Tem de tudo um pouco no livro: política local e geopolítica internacional; conspirações, espionagem, sabotagem, acusações de fraude eleitoral e tentativas de deposição de líderes de governo pela via da força e do assassinato.

Há também uma questão mística e religiosa muito intrigante mesmo para os olhos de brasileiros acostumados ao sincretismo. Em pleno século XXI, pessoas portadoras de albinismo são vistas como entidades sobrenaturais em boa parte do continente africano. No livro eu descrevo uma personagem curiosa, Mamadie Touré. Uma mulher que se tornou uma espécie de esposa informal do presidente da Guiné Lansana Conté, que morreu em dezembro de 2008. Ela se dizia bruxa e carregava uma criança albina a tiracolo como forma de demonstrar poder. 

Portal Imprensa - Gostaria que você compartilhasse dicas para jovens jornalistas que gostariam de se aventurar na produção de grandes reportagens. O que é preciso para encarar o desafio?
André Guilherme - A primeira coisa para encarar uma reportagem de fôlego, na minha opinião, é saber que isso vai te consumir: seu tempo com filhos e família, suas energias, seus momentos de lazer. É aceitar que você terá de renunciar a muitas coisas. Os fatos não têm hora marcada para aparecer, mesmo quando você os está perseguindo. Então disponibilidade é uma palavra-chave. 

A segunda coisa é ter persistência quase obsessiva. Você vai “empacar”, a apuração vai parecer que chegou a um beco sem saída. Quando isso acontece eu costumo repassar o que apurei até ali e tento olhar por uma outra perspectiva. Às vezes algo que está na frente do seu nariz pode ser importante e você não se dá conta disso. 

Portal Imprensa - Quem é o público-alvo do livro? Quem você gostaria que lesse a obra? 
André Guilherme -  Eu não sei, com certeza, quem é o público-alvo do livro. Eu o escrevi porque tenho uma inclinação a revelar o que ninguém está vendo. O livro mostra como se dão as decisões de negócio no mercado global dos grandes players de mineração. Eu acho que isso interessa a todo mundo. E a Vale entrou nessa disputa de uma maneira no mínimo surpreendente e dela saiu de forma muito habilidosa. Eu quero que o maior número de pessoas possível leia O Mapa da Mina. 

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