Desinformação da Covid-19 no WhatsApp foi usada para combater uma crise política governamental no Brasil, diz pesquisa

Redação Portal IMPRENSA | 01/02/2021 11:39
O artigo “Mangueira de incêndio de Bolsonaro: como a desinformação da Covid-19 no WhatsApp foi usada para combater uma crise política governamental no Brasil” foi publicado por pesquisadores brasileiros em Harvard Kennedy School (HKS).

O estudo mostrou que o Brasil tem uma das maiores taxas de casos e mortes atribuídas à Covid-19 do mundo devido a dois fatores: o governo brasileiro subestimou a pandemia e uma grande quantidade de desinformação que foi divulgada nas redes sociais. 

“Descobrimos que a desinformação sobre Covid-19 no WhatsApp estava associada à desinformação política, composta principalmente para apoiar o presidente Bolsonaro durante a crise que ele enfrentou no início da pandemia. Nossa principal descoberta implica que a desinformação no WhatsApp estava ligada ao discurso político de extrema direita e enquadrou a Covid-19 como uma questão política em vez de uma questão de saúde pública”.

Os pesquisadores fazem parte do Laboratório de Pesquisa em Mídia, Discurso e Redes Sociais (MIDIARS), do Departamento de Jornalismo da Universidade Federal de Pelotas e do Centro de Línguas e Comunicação da Universidade de Pelotas (RS). 

Crédito: Harvard Kennedy School (HKS)


Metodologia
A pesquisa usou o WhatsApp Monitor para coletar as mensagens textuais mais compartilhadas de mais de 500 grupos políticos públicos no Brasil durante março e abril de 2020. O conjunto de dados final foi composto por 802 mensagens que continham algum tipo de desinformação sobre Covid -19. 

Segundo o estudo, a desinformação sobre os grupos políticos do WhatsApp costumava estar ligada a teorias da conspiração, como supostas tramas dos “esquerdistas”, do Supremo Tribunal Federal, e dos meios de comunicação para derrubar ou prejudicar Bolsonaro. 

Algumas mensagens também afirmam que a China criou o vírus intencionalmente. Além disso, informações enganosas e conteúdo fabricado foram usados para minimizar a pandemia e prejudicar os opositores de Bolsonaro. 

Nossos resultados também sugerem que a desinformação sobre a Covid-19 seguiu um padrão de conexão com temas políticos que estavam no debate público no país. Além disso, a desinformação sobre o vírus foi enquadrada politicamente, o que beneficiou a visão de extrema direita e ajudou a contornar uma crise política que poderia ter prejudicado o governo de Bolsonaro. 

Resultados 
Constatação 1: a desinformação relacionada à Covid-19 no WhatsApp foi amplamente política e forneceu um enquadramento pró-Bolsonaro da pandemia.

Em 17 de março, brasileiros começaram a bater potes em suas janelas todos os dias, ao mesmo tempo, para protestar contra a falta de ação de Bolsonaro contra a pandemia, pedindo seu impeachment. No mesmo período, vários governadores e prefeitos anunciaram medidas de distanciamento social contra a vontade de Bolsonaro. Essa crise resultou no pior índice de aprovação de Bolsonaro desde o início de sua presidência. Sua resposta à pandemia foi condenada por 65% dos brasileiros. Ao mesmo tempo, os atores políticos que produziram discursos opostos aumentaram seus índices de aprovação, como governadores e prefeitos (54% aprovaram sua resposta à pandemia) e o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta (55% de aprovação).

Em resposta a essa crise, Bolsonaro fez um pronunciamento público ao vivo pela televisão no dia 24 de março. Em seu discurso, criticou as medidas de distanciamento social e, portanto, os governadores, prefeitos e Mandetta. Ele também pediu que os brasileiros voltassem às suas vidas normais, argumentando que o vírus não era tão sério quanto parecia. Seu discurso deu início a uma campanha de desinformação que conectou medidas de distanciamento social, autoridades de saúde e governadores e prefeitos à “esquerda” e ao “comunismo”, e a pandemia a uma conspiração.

Logo após o pronunciamento de Bolsonaro, houve um grande aumento na desinformação da Covid-19 dentro dos grupos de WhatsApp que estudamos. Os tópicos do discurso de Bolsonaro também foram centrais nas mensagens que identificamos que continham desinformação. A prevalência desses tópicos nas mensagens estudadas indica que o discurso de Bolsonaro pode ter alimentado a disseminação da desinformação. Outro pronunciamento público no dia 31 de março, no qual Bolsonaro afirmava que queria salvar a economia e que as pessoas precisavam voltar ao trabalho, também aumentou a desinformação espalhada no dia seguinte.

Para entender como a desinformação estava ligada aos acontecimentos políticos, analisamos os tópicos mais frequentes nas mensagens e suas conexões.

A maior parte da desinformação (42%) estava ligada à forma como as medidas de distanciamento social afetariam a economia. Outros tópicos incluíram os governadores e prefeitos e seus “interesses ocultos” contra Bolsonaro (36%); como a China desenvolveu o vírus (27%); como a mídia (21%), o Congresso (13%), os esquerdistas (16%), o Supremo Tribunal Federal (9%), Mandetta (6%) e outros estavam conspirando para derrotar Bolsonaro.

Os dados corroboram a força do enquadramento político da pandemia, tendo “esquerdistas” como o conceito mais central, conectado a quase todos os atores políticos que produziram um discurso contrário ao Bolsonaro. Muitas mensagens de desinformação acusaram esses atores políticos de serem “esquerdistas” ou “comunistas. ”Este argumento político foi usado para enquadrar todos os discursos que desacreditaram o de Bolsonaro como criados pela oposição política. Assim, a polarização entre “nós” (o bem) e “eles” (o mal) era uma estratégia chave para espalhar a desinformação. A maioria dos aglomerados conecta atores políticos e autoridades de saúde a Bolsonaro e suas críticas ao distanciamento social.

Resultado 2: Teorias de conspiração e distorção foram os tipos de desinformação mais frequentes nas mensagens analisadas.
A maioria dos estudos descobriu que a distorção é o tipo de desinformação mais frequente em muitas plataformas de mídia social.  No entanto, as teorias da conspiração foram a categoria mais prevalente em nosso conjunto de dados (41%). O segundo tipo de desinformação mais frequente que identificamos foi a distorção (39%) e o terceiro, a informação fabricada (20%). Este resultado destaca a importância de se considerar as diferenças de plataforma neste tipo de pesquisa.

Teorias da conspiração foram fortemente correlacionadas ao tema “China”. Essas mensagens frequentemente acusavam os chineses (como representantes do “comunismo”) de criar o vírus para ganho econômico.

Teorias da conspiração também foram correlacionadas a outros tópicos políticos, como Congresso Brasileiro, meios de comunicação, Supremo Tribunal Federal e “esquerdistas” e “comunistas”. Narrativas acusando vários atores de conspirar contra Bolsonaro foram frequentemente encontradas durante a crise política que ele enfrentou.

Distorção e conteúdo fabricado também foram usados para apoiar o Bolsonaro. Mensagens de distorção frequentemente criticaram medidas de distanciamento social, e reforçaram as posições de Bolsonaro. A informação fabricada foi usada, por exemplo, para afirmar que a hidroxicloroquina era a cura para Covid-19. Bolsonaro afirmou o mesmo.

Os dados mostram que a desinformação sobre a Covid-19 no WhatsApp no Brasil seguiu um padrão de enquadrar a pandemia como uma conspiração e suas medidas de combate como estratégias para minar o governo Bolsonaro. A desinformação foi usada para combater a crise política em que o presidente se encontrava, oferecendo histórias “alternativas” para apoiar seu discurso. Além disso, essas mensagens enquadraram a questão da saúde pública como política (os “esquerdistas” x Bolsonaro), aproveitando a polarização política no Brasil.