Agência de notícias quer denunciar violação de direitos da população LGBTI+

Kassia Nobre | 26/01/2021 13:57
A agência de notícias Diadorim estreou no jornalismo para denunciar a violação de direitos e das violências cometidas contra a população LGBTI+. 

O Portal Imprensa conversou com a jornalista Camila Figueiredo sobre a nova agência que pretende ainda divulgar iniciativas que visem à inclusão, à maior diversidade e representatividade nos espaços de poder. 

“São poucas as pautas que falam de direitos e que realmente ganham repercussão na grande mídia. Parece que ninguém quer falar sobre o que realmente importa quando o assunto é a conquista e a garantia dos nossos direitos. Isso não acontece só em relação aos temas LGBTI+, mas também com demais grupo minorizados, como os negros e as mulheres".

A equipe da Diadorim é formada por:
Allan Nascimento
Formado em Jornalismo pela Faculdades Integradas Barros Melo, já escreveu para veículos como Jornal do Commercio (PE), Diario de Pernambuco, G1, UOL e Revista Continente. Em 2013, foi um dos selecionados para o 24º Curso Estado de Jornalismo Aplicado, programa de trainee do Estadão realizado em parceria com a Universidade de Navarra, na Espanha. Também tem passagens pela TV Globo e pela Radio Jornal e atualmente trabalha com comunicação corporativa.

Mateus Araújo
Jornalista formado pela Universidade Católica de Pernambuco e mestre em Artes pela Universidade Estadual Paulista, com pesquisa sobre masculinidades no teatro. Escreve para o TAB UOL, Ecoa e Revista Continente e foi colaborador da Folha de S.Paulo e do UOL Entretenimento. Integrou a editoria de Cultura do Jornal do Commercio (2011-2016) e foi analista de comunicação da SP Escola de Teatro (2017-2020). Trabalha também com comunicação institucional. 

Camila Figueiredo 
Formada em Jornalismo pela Universidade Federal de Pernambuco, tem pós-graduação em Estudos Brasileiros de Sociedade, Educação e Cultura pela Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP). Tem passagem pelo Jornal do Commercio (PE) e trabalhou na assessoria de comunicação da Orquestra Criança Cidadã dos Meninos do Coque. Em 2012, ganhou o 4° Prêmio Jovem Jornalista do Instituto Vladimir Herzog.

Paulo Malvezzi
Advogado, bacharel em Direito pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e mestrando em Filosofia Política pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Foi coordenador geral do Instituto Brasileiro de Ciências Criminais (IBCCrim), assessor jurídico da Pastoral Carcerária Nacional e assistente da Ouvidoria Geral da Defensoria Pública de São Paulo. Desenvolve projetos e ações voltados para a defesa dos Direitos Humanos, com foco em políticas de acesso à justiça, sistema prisional, gênero e diversidade sexual.

Crédito:Diadorim

  
Portal Imprensa - Gostaria que você contasse como surgiu o projeto jornalístico Diadorim?
Camila Figueiredo - A ideia de construir uma agência de notícias com foco nos temas caros à população LGBTI+, surgiu a partir de um curso sobre a história do movimento ministrado por Renan Quinalha, que inclusive acabou aceitando escrever um dos primeiros textos de opinião que publicamos no site.

Embora haja importantes trabalhos de agência de jornalismo no Brasil, com foco em direitos humanos, o recorte mais exclusivo para temas da população LGBTI+ ainda é raro. E isso faz muita falta. Aí acreditamos no potencial de começar a ocupar esse espaço, inspirados na revista ChanaComChana e no jornal Lampião da Esquina, que circularam entre o final da década de 1970 e início de 1980.

Depois da ideia, surgiu o nome, que homenageia essa personagem tão importante da literatura brasileira e que nos convida a repensar preconceitos. Com a equipe formada e o nome escolhido, após muita preparação e muitas reuniões online (por causa da pandemia de Covid-19), nasceu a Diadorim, uma agência de jornalismo independente, sem fins lucrativos, engajada na promoção dos direitos da população LGBTI+.

Portal Imprensa - A iniciativa é engajada na promoção dos direitos da população LGBTI+. Quais são as principais pautas neste universo que vocês vão trabalhar?
Camila Figueiredo - Bom, nosso principal interesse é a denúncia de violação de direitos e das violências cometidas contra a população LGBTI+, bem como a divulgação de iniciativas que visem à inclusão, à maior diversidade e representatividade nos espaços de poder.

Então assuntos como a dificuldade de termos números confiáveis sobre agressões a lésbicas, transexuais, travestis, bissexuais e gays porque não há uma padronização na apuração oficial desses dados nos chama atenção; foi nossa primeira reportagem.

Na verdade, nós nem sabemos quantos somos em todo o país porque orientação sexual e identidade de gênero não são questões no Censo Demográfico, o que é muito grave e impede a formulação de políticas públicas efetivas. Além disso, nos interessa ouvir quem veio antes de nós na luta do movimento LGBTI+, o que a trajetória dessas pessoas tem a nos ensinar.

Portal Imprensa - Como vocês analisam a cobertura jornalística sobre o tema? O jornalismo faz um bom trabalho ou ainda precisa melhorar? 
Camila Figueiredo - Um dos textos mais recentes que publicamos no site é do pesquisador Dennis Pacheco, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, e ele fala justamente sobre isso. Para ele, e nós concordamos, o enquadramento de populações LGBTI+ na imprensa ainda é feito de forma escandalosa ou raramente ultrapassa barreira do entretenimento.

São poucas as pautas que falam de direitos e que realmente ganham repercussão na grande mídia. Parece que ninguém quer falar sobre o que realmente importa quando o assunto é a conquista e a garantia dos nossos direitos. Isso não acontece só em relação aos temas LGBTI+, mas também com demais grupo minorizados, como os negros e as mulheres. São movimentos também antigos no Brasil, mas que seguem precisando se organizar para criar seus próprios canais de compartilhamento de informação porque os grandes veículos tradicionais não assumem essas bandeiras. 

Portal Imprensa - Como será o trabalho da equipe? O que os leitores podem esperar da Diadorim? 
Camila Figueiredo - Nossa equipe é bem enxuta, então desde o primeiro momento no ar a gente convida colegas jornalistas LGBTI+ em todo o país a colaborarem, só assim teremos chance de cobrir a maior parte do país com as pautas de cada região, cada localidade, com o máximo de diversidade que pudermos alcançar.

Por se tratar de um jornalismo independente, ainda buscamos fonte de financiamento, mas em princípio todo o nosso trabalho é voluntário. Sonhamos em algum momento poder pagar aos colaboradores, sempre dando prioridade aos grupos que, justamente por causa da exclusão estrutural e das violações que queremos denunciar, como as pessoas trans e travestis e negras.

Os leitores podem esperar pela fiscalização do poder público e um debate plural e crítico. Somos uma entre tantas vozes, e nosso objetivo é criar uma rede ampla de colaboradores, a partir de múltiplos olhares e experiências.