Rede Internacional de Jornalistas dá dicas para cobrir atos de extremismo antidemocrático

Redação Portal IMPRENSA | 13/01/2021 08:17

A invasão do Congresso americano na semana passada lançou luz à necessidade de jornalistas procederem com cautela na cobertura de atos antidemocráticos extremistas, para garantir a divulgação de informações verdadeiramente relevantes, não fazer julgamentos e comparações indevidas, não dar publicidade a teorias da conspiração e manter-se em segurança, entre outras medidas.

Crédito:AP News

A Rede Internacional de Jornalistas (IJNet) lançou um pequeno guia para esse tipo de cobertura, com dez dicas e recursos a serem seguidos pelos profissionais de imprensa em situações semelhantes, que certamente voltarão a ocorrer.


O texto foi voltado para a cobertura dos atos antidemocráticos americanos, mas as dicas servem para jornalistas de qualquer parte do mundo.


(1) Escolha cuidadosamente a linguagem que você usa


A linguagem usada deve distinguir claramente a atividade antidemocrática de protestos legitimamente pacíficos.


Há pouco consenso entre as organizações de notícias sobre qual terminologia é melhor usar. Na invasão ao Capitólio, a NPR orientou usar terminologia como "extremistas pró-Trump" e "insurreição". O Washington Post aconselhou sua equipe a usar “multidão”, assim como o Eleição SOS, que também usou "extremistas violentos". E a CNN optou por usar “terrorismo doméstico”.


Se você for um editor ou chefe de redação, reúna-se com outras pessoas para escolher cuidadosamente o vocabulário que usará e, a seguir, ofereça orientação aos repórteres. Acima de tudo, evite normalizar a natureza antidemocrática dos eventos.


(2) Não torne seu texto em uma reportagem "ambos os lados"


“Jornalismo dos dois lados” é a ideia de que todo ponto tem um contraponto que deve receber igual atenção da mídia. Mas ele tem ajudado a sustentar pontos de vista antidemocráticos em todo o mundo. Evite cair nessa fachada de “equilíbrio”.


Embora possa ser útil para sua reportagem estar ciente do que os extremistas antidemocráticos acreditam, não ofereça a esses pontos de vista igualdade de condições em sua cobertura. Em vez disso, forneça a seus leitores e espectadores o contexto necessário sobre as mentiras e informações incorretas que alimentam suas ações - e suas consequências.


(3) Salve fotos, imagens de vídeo e outras atividades online


Salve toda e qualquer informação que encontrar online, antes que seja apagada. Isso vale especialmente para comentários, fotos e vídeos incriminadores. O coletivo internacional de pesquisadores Bellingcat liderou esforços para jornalistas colaborarem nisso, tendo aprendido lições importantes de como os envolvidos no comício da supremacia branca de 2017 em Charlottesville procuraram esconder sua pegada online.


(4) Aprenda com as experiências de outros países - mas evite comparações preguiçosas 


Faça comparações com incidentes em países estrangeiros apenas se você estiver bem informado sobre eles, e eles são produtivos para sua reportagem e úteis para seu público obter uma compreensão mais abrangente da situação. Evite linguagem descuidada e comparações indevidas.


(5) Saiba mais sobre os organizadores e como cobri-los


A violenta tentativa de golpe em 6 de janeiro nos EUA, por exemplo, não ocorreu espontaneamente. Os organizadores estiveram ativos online, estimulados por figuras políticas influentes e seus representantes na mídia de direitano país. Embora você possa estar mais familiarizado com os políticos e personalidades da mídia que incitaram a insurreição, você pode não estar tão familiarizado com os grupos organizadores. Conheça esses atores e suas origens. 


Nos EUA, por exemplo, há repórteres que cobrem os grupos extremistas de direita com frequência e podem passar informações relevantes em suas redes sociais. Uma lista abrangente de recursos para auxiliar nas reportagens sobre grupos de extrema direita e suas atividades está no Covering Hate, do Journalist’s Toolbox.


(6) Não amplifique as teorias da conspiração que alimentam a insurreição


Alegações infundadas e teorias de conspiração sobre a eleição presidencial de novembro alimentaram a insurreição no Capitólio dos Estados Unidos. Essa desinformação foi gerada e espalhada por influentes personalidades da mídia e poderosos líderes políticos, incluindo o próprio presidente.


Como jornalistas, temos a responsabilidade de fornecer a verdade, o que geralmente requer a correção de informações incorretas. No entanto, é imperativo abordar esta diretriz com cuidado, de modo a não amplificar a desinformação que pretendemos corrigir.


“Nunca, jamais repita uma alegação falsa ou desinformação em uma manchete”, aconselha a organização Over Zero. Em vez disso, crie um sanduíche para a desinformação. Comece com a verdade, emita um aviso, repita a informação falsa e termine com a afirmação verdadeira novamente.


(7) Fique por dentro das histórias importantes por trás da violência


O que aconteceu em 6 de janeiro não é uma história independente, e os jornalistas não deveriam tratá-la como tal. Não importa por quanto tempo os tumultos continuem, os jornalistas devem manter a história mesmo após o fim da insurreição, acompanhando as histórias importantes por trás dos distúrbios.


(8) Reitere os processos democráticos


Os jornalistas devem enfatizar os processos democráticos. “Enfatize que os eleitores decidiram”, afirma um comunicado de imprensa do Count Every Vote . “Use a votação notável e visível [...] para lembrar às pessoas o quadro geral e contextualizar as reclamações e ações conservadoras como tentativas desesperadas de pessoas que estão perdendo e em minoria.”


Reitere para o público que a democracia se baseia em uma transferência pacífica de poder.


(9) Concentre-se na construção de confiança com seu público


Seus leitores e espectadores podem estar confusos, ansiosos e incertos sobre para onde as coisas vão. Crie caminhos para eles fazerem perguntas e priorizar o fornecimento de respostas. “Ter acesso a informações verificadas os ajudará a navegar nesta crise”, afirma a Eleição SOS.


Enfatize a sua credibilidade e de sua organização como repórteres e concentre-se em construir a confiança de seu público. Para dicas e recursos sobre por onde começar, consulte Trusting News.


(10) Mantenha-se seguro e esteja ciente desses recursos:


Onde quer que você esteja enquanto relata esses eventos, priorize sua segurança e saúde mental, e a de seus colegas. Aqui está uma lista de recursos para ajudá-lo: 


Kit de ferramentas de cobertura eleitoral do Comitê para a Proteção dos Jornalistas (CPJ)


Comitê de Repórteres para a Liberdade de Imprensa (RCFP) guia legal sobre polícia e protesto


Fundo de emergência da International Women's Media Foundation


Práticas recomendadas de segurança digital da Electronic Frontier Foundation


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