Entrevista: diretora de Aos Fatos avalia suspensão de redes sociais de Trump e fala de jornalismo e desinformação

Deborah Freire | 12/01/2021 10:15

Que (des)informações estão por trás da invasão ao Congresso americano no dia 6 de janeiro e quais as medidas que as plataformas de redes sociais podem tomar - e de que forma - para combater a difusão de mentiras por autoridades públicas e influenciadores antidemocráticos?

Crédito:Arquivo Pessoal

A suspensão ou banimento das contas de Donald Trump é uma medida eficaz das mídias sociais para frear o discurso do presidente americano de não reconhecer o resultado das eleições que elegeram Joe Biden?


Os ataques à democracia podem ser reproduzidos no Brasil sob a influência do presidente Jair Bolsonaro e outros políticos? E a imprensa e agências de checagem têm poder para combater as fake news e levar informações verídicas e fundamentadas à população para evitar manifestações contra a democracia?


O Portal IMPRENSA fez essas e outras perguntas à diretora executiva da agência de checagem Aos Fatos, Tai Nalon, que falou sobre a falta de transparência das plataformas sobre as punições a perfis nas redes sociais, da ausência de debate quanto à suspensão de contas e quais devem ser os critérios, e sobre como o jornalismo é capaz de fomentar a indústria da desinformação com a falsa ideia de dar espaço “aos dois lados” dos fatos.


Confira na entrevista abaixo.


Portal IMPRENSA - Especialistas afirmam que o que levou à invasão ao Congresso americano no dia 6 foi a onda de desinformação, boa parte dela alimentada pelo presidente Donald Trump. Você concorda?


Tai Nalon - Com certeza, muitos dos invasores estavam motivados por pautas fundamentadas em desinformação, mas originadas em diversas fontes, já que uma só desinformação não é capaz de motivar um militante.


O pano de fundo foram as declarações repetidas de que houve fraude nas eleições nos EUA. Isso é uma tese fantasiosa que o Trump já vinha ensaiando desde antes de as urnas se fecharem; ele passou o segundo semestre inteiro do ano passado afirmando que os votos pelos correios e os votos de algumas urnas estavam computando ou não computando para ele e isso era indicativo de fraude.


Mas existem outras desinformações que engajaram as pessoas que lá estavam, muito relacionadas a valores. Os movimentos supremacistas brancos, por exemplo, não podemos dizer que estão fundamentados apenas em desinformação, é uma ideologia. Esses grupos precisam se sustentar em narrativas falaciosas. Houve uma simbiose muito grande entre os grupos supremacistas brancos e simpatizantes do QAnon, que são pessoas que acreditam em uma teoria da conspiração de ameaça global de extermínio de determinados grupos capitaneados pelos adversários de Trump.


Então, se propaga a ideia de que os valores cristãos estão ameaçados. Existe o componente religioso grande nessa indústria de desinformação, e essas pessoas veem seus valores descredibilizados e resolvem radicalizar. O que vemos é resultado de anos de mentiras reforçando crenças para que esses grupos saiam às ruas.


O bloqueio da conta de Trump pelo Facebook na sua visão tem algum poder em limitar o alcance dessa desinformação ou, ao contrário, estimula a ideia de que ele está certo e é alvo de censura?


A ideia de liberdade de expressão na Constituição americana é diferente do Brasil. Nós temos um legado de censura muito grande por governos autoritários. Nos EUA, a censura ocorre apenas pelo poder estatal. Uma empresa privada tem total liberdade de estabelecer parâmetro do que é divulgado em suas dependências. A opinião pública americana vê as redes como espaço privado, embora tenha virado um ambiente de uso público.


A discussão acerca do poder que as plataformas têm, que é patente, não é se elas têm autoridade para fazer isso, mas se deveriam fazer de maneira recorrente. Por que não fizeram antes? Qual o critério?


Antes dizíamos que a empresa deveria mediar mais, escolher mais o tipo de discurso a privilegiar, de maneira transparente e não era o que víamos. Tínhamos a impressão de que o discurso extremista era privilegiado.


Há falta de transparência na decisão de banir determinadas figuras de suas plataformas. No caso de Trump, ele já vinha há anos incentivando atos antidemocráticos, não houve nenhuma mudança no discurso dele que justificasse [o banimento], o que ocorreu foi uma mudança de contexto politico. Então a cada mudança de contexto político vai haver mudança de posicionamento das plataformas? É esse tipo de resposta que precisamos entender antes de debater se é certa ou não a medida.


Jair Bolsonaro disse que em 2022 pode acontecer pior no Brasil do que nos EUA. Aqui, o nível de desinformação também é alto e também estimulado pelas autoridades públicas. Como você avalia a possibilidade de suspensão de contas ou de conteúdos publicados em perfis brasileiros?


Esse debate não existe no Brasil. Qualquer movimentação de rede social de excluir políticos aqui, a não ser aqueles investigados no inquérito das Fake News ou pelos atos antidemocráticos, foram por meio de decisão judicial.


O que temos aqui é censura como resposta a investigações de supostos crimes ou  violações menores, também promovida por meio de decisões pouco transparentes por parte do Supremo Tribunal Federal, até porque as investigações seguem em segredo de justiça. Não temos como criar um marco legal sobre as medidas da plataforma sem ter essa análise dos critérios.


Honestamente, eu não sei como proceder. Não gostaria de estar no lugar dos executivos das plataformas. Eu acho que não tomar a decisão sobre manter publicações falsas é uma decisão e deletar é uma decisão, e qualquer uma é passível de questionamento. E a gente sabe que os políticos são os principais disseminadores de desinformação nas redes. Alguma decisão tem que ser tomada, mas o problema é inerente a uma sociedade polarizada.


Como veículos de mídia e agências de checagem podem agir para reduzir esse problema, ampliar o debate sobre informações verdadeiras e alcançar o público que hoje desacredita a imprensa?


O jornalismo profissional ajuda a diminuir a influência da desinformação sobre alguns grupos específicos. Ele fala para públicos diferentes, sempre foi assim. Mas existe um papel do jornalismo profissional que é chegar ao seu público com informações verificadas.


Dar palco para pessoas desqualificadas falarem sobre assuntos que não são suas especialidades contribui para propagar desinformação. É mais ou menos o que vimos em alguns canais que chamaram negacionistas para debates sobre a gravidade ou não da pandemia. Se os argumentos do entrevistado não forem amparados por fatos verificados, não faz sentido dar destaque as suas informações.


Também precisamos parar de dar destaque ao jornalismo declaratório. É importante mostrar por que determinada declaração é absurda; mentiras estão sendo usadas para endossar políticas públicas; canais “desinformativos” usam a autoridade de veículos que fazem jornalismo para legitimar suas falas. Dessa maneira, sim, é possível reduzir a desinformação.


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