Canal oficial de Bolsonaro no YouTube recomenda vídeos de investigados por fake news, diz Agência Pública

Redação Portal IMPRENSA | 06/01/2021 10:25

O sistema de recomendação automático do YouTube tem direcionado quem assiste ao canal oficial de Jair Bolsonaro para vídeos de apoiadores do presidente que disseminam desinformação sobre a pandemia de coronavírus, publicam conteúdos contra as instituições e são investigados pelo Supremo Tribunal Federal (STF) por associação a atos antidemocráticos.

Crédito:Reprodução / YouTube

A descoberta foi feita após um levantamento da Agência Pública nos dez vídeos com mais visualizações do canal do presidente em 2019 e 2020. Juntos, eles somam mais de 10 milhões de visualizações. 


Entre os canais recomendados pelos algoritmos estão o do portal Folha Política, de propriedade de Ernani Fernandes Barbosa Neto, investigado em inquérito do STF que apura a organização de atos antidemocráticos.


Outros sete canais investigados pelo STF aparecem nas recomendações do YouTube através de vídeos de Bolsonaro:


Foco do Brasil, alvo de inquérito que apura a organização de manifestações contra as instituições democráticas no país; 


Vista Pátria, que pertence a Allan Frutuoso, denunciado à CPMI das Fake News como parte de um esquema que cria e replica campanhas de ódio;


Terça Livre TV, de Allan dos Santos, investigado por participação na organização dos atos antidemocráticos e também no inquérito sobre fake news; 


Giro de Notícias, Te Atualizei, Ravox Brasil, Bernardo Küster e Vlog do Lisboa, todos investigados ou denunciados em esquemas de desinformação e linchamentos virtuais.


Em depoimentos à Polícia Federal, os responsáveis pelos canais investigados por associação a atos antidemocráticos negaram ter compartilhado vídeos com informações falsas ou que incitassem animosidade das Forças Armadas contra as instituições democráticas. 


Não investigados e canais da imprensa


Há também na lista dos canais mais recomendados pelo YouTube do presidente canais bolsonaristas não investigados: LiloVlog, Daniel Lopez, Valeria Bernardo – Deep State V, Luiz Viajante Bolsonaro 2022, Conhecendo os 2 Lados da Moeda e o CristalVox, este último que era apoiador do presidente, mas hoje tece críticas a ele. 


Canais da imprensa também foram sugeridos, como o da CNN Brasil, rádio Jovem Pan, Bandeirantes e Record. 


Entre os canais com posicionamento contrário ao presidente, foi recomendada a TV 247 – canal do site Brasil 247. 


Bolsonaro indica pessoalmente canais investigados pela Justiça


A Agência Pública constatou ainda no levantamento que o direcionamento a canais investigados pelo STF a partir dos vídeos oficiais de Bolsonaro não vem apenas dos algoritmos, mas é feito pelo próprio presidente em algumas situações.


Em maio, o presidente recebeu os youtubers Bárbara Zambaldi, do Te Atualizei, e Allan Frutuoso, do Vista Pátria, ambos, canais investigados.


Em nota, o YouTube disse que suas recomendações “ajudam o usuário a descobrir assuntos e conteúdos do seu interesse” e são feitas com base em uma série de fatores, como histórico de exibição e de pesquisa de cada usuário, além de localização e data. A plataforma afirma oferecer “controles para que cada pessoa defina que tipo de informação podemos usar para calibrar nossas sugestões.”


Bernhard Rieder, pesquisador da Universidade de Amsterdã e criador do YouTube Data Tools, ferramenta utilizada pela Agência Pública, explica que os vídeos sugeridos pelo YouTube vêm principalmente de três fontes: os vídeos do próprio canal, as recomendações personalizadas – que usam dados individuais de cada pessoa e ficam marcadas como “recomendado para você” – e os vídeos relacionados. 


O algoritmo é baseado em uma espécie de aprendizado automatizado, portanto, os canais não podem escolher que vídeos serão relacionados a ele, mas há maneiras de influenciar indiretamente as recomendações com palavras de descrição e temáticas, segundo explica Rieder.


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