Fundador do WikiLeaks, Assange não pode ser extraditado para os EUA, decide juíza britânica

Redação Portal IMPRENSA | 04/01/2021 11:24

O jornalista, ativista e fundador do WikiLeaks, Julian Assange, não poderá ser extraditado da Inglaterra para os EUA para ser julgado por acusações de espionagem e de hackear computadores do governo, decidiu uma juíza britânica nesta segunda-feira (4).

Crédito:Wikimedia Commons

Na decisão, a juíza Vanessa Baraitser citou a saúde mental de Assange como argumento para não permitir que ele seja levado aos Estados Unidos e lá, mantido em condições de isolamento em uma prisão chamada “supermax” onde os procedimentos descritos pelas autoridades americanas não o impediriam de encontrar uma maneira de tirar a própria vida. “Seria opressor extraditá-lo para os Estados Unidos da América”, disse ela.


As autoridades norte-americanas devem apelar da decisão.


Inicialmente, Baraitser derrubou mais de um argumento apresentados no ano passado pela defesa do ativista. Ela avaliou que mandá-lo aos EUA não violaria a barreira de extradição por “crimes políticos” e disse que não tinha motivos para duvidar que “as proteções constitucionais e processuais usuais” seriam aplicadas a um julgamento que ele poderia enfrentar no país norte americano.


No entanto nesta segunda ela aceitou a evidência de especialistas médicos que apontaram que Assange sofreu de depressão enquanto estava na prisão em Londres, e ele foi levado de volta à prisão de Belmarsh.


“A impressão geral é de um homem deprimido e às vezes desesperado que está realmente deprimido com seu futuro”, disse Baraitser.


Vazamento de documentos de guerra


O caso está relacionado à publicação, pelo WikiLeaks, de centenas de milhares de documentos vazados sobre as guerras do Afeganistão e do Iraque, bem como casos diplomáticos, em 2010 e 2011, envolvendo os EUA.


A acusação diz que Assange ajudou o analista de defesa dos EUA, Chelsea Manning, a violar a Lei de Espionagem dos EUA, foi cúmplice de invasões por terceiros e publicou informações confidenciais que colocavam informantes em perigo.


Já a defesa diz que a acusação tem motivação política e que o jornalista está sendo perseguido porque o WikiLeaks publicou documentos do governo dos Estados Unidos que revelaram evidências de crimes de guerra e abusos dos direitos humanos.


Durante as audiências no ano passado, os advogados de Assange chamaram testemunhas que disseram ao tribunal que o WikiLeaks desempenhou um papel vital em trazer à luz revelações que expuseram a forma como os EUA conduziram as guerras no Iraque e no Afeganistão.


Assange está sob custódia na Grã-Bretanha desde abril de 2019, quando foi removido da embaixada do Equador em Londres, onde se refugiou sete anos antes para evitar a extradição para a Suécia devido a um caso de agressão sexual que foi posteriormente arquivado.


Federação pede libertação de jornalistas


A Federação Internacional dos Jornalistas comemorou a decisão, mas com ressalvas. O secretário-geral da entidade, Anthony Bellanger, disse estar “desapontado que a juíza pareça não abordar adequadamente a ameaça à liberdade da mídia” que a extradição de Assange representaria.


“Durante anos, a FIJ e todas as suas afiliadas, especialmente no Reino Unido, Austrália e EUA, têm lembrado às pessoas que a detenção de Julian Assange é contrária ao direito internacional e à Declaração Universal dos Direitos Humanos das Nações Unidas. A saúde de Julian Assange piorou drasticamente desde sua prisão em abril de 2019 e o vírus Covid-19 em sua prisão representa uma séria ameaça à sobrevivência de nosso colega, titular do IFJ International Press Card. É hora de os EUA abandonarem as tentativas de extraditá-lo", disse Bellanger.


A FIJ aproveitou para cobrar a libertação de outros  234 jornalistas que estão presos  em vários lugares do mundo em razão de seu trabalho. A Turquia é a campeã, com 67 prisões, segundo o Livro Branco sobre Jornalismo Global, lançado pela Federação em dezembro.


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