Documentário lista ‘sete pecados’ da comunicação do governo federal sobre meio ambiente

Deborah Freire | 18/12/2020 10:46

O professor Pedro Côrtes, da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo prepara o lançamento de um documentário sobre meio ambiente e devastação no Brasil, em que faz uma análise da comunicação do governo federal na área ambiental.

Crédito:Agência Brasil

Para ele, os representantes do governo, a começar pelo presidente Jair Bolsonaro, cometem “7 pecados capitais” quando tratam do tema, entre eles, refutar dados oficiais e culpar terceiros por problemas enfrentados no País.


Durante um debate sobre o assunto no canal da ECA/USP no YouTube no mês de novembro, ele detalhou os “pecados” cometidos pelo governo e apresentou declarações que corroboram as falhas apresentadas na comunicação.


Primeiro pecado – Brigar com os dados oficiais


 “O que preocupa mais aqueles que têm o sentimento de brasilidade, têm um amor pelo país, como todos deviam ter, é que esses dados prejudicam muito a imagem do Brasil. Se fossem dados corretos, embora preocupante, seria conveniente que nós não alardeássemos isso, nós cuidássemos do problema internamente, corrigindo o que está errado. Sendo dados falsos, é muito grave, porque isso prejudica o comércio brasileiro, a imagem do Brasil, o coloca como grande destruidor do meio ambiente, da humanidade. E são imagens que depois é muito difícil de resgatar. Então isso é o que nos aflige muito, a falta de honestidade intelectual de boa parte da imprensa ao divulgar notícias”.


A frase do general Heleno, chefe do gabinete de Segurança Institucional, que questiona dados oficiais apresentados por órgãos do governo, é apresentada por Cortês logo no início do documentário. Ela ganha reforço com a declaração de Bolsonaro, que contestou dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), sobre o desmatamento na Amazônia.


Bolsonaro disse: “Eu não quero afirmar, mas uma notícia como essa que não condiz com a verdade tem um estrago muito grande na imagem do Brasil [...] Eu acho até que [...] por acaso essas pessoas divulgaram de má fé esses informes para prejudicar o governo atual e bem como desgastar imagem do Brasil”.


O pesquisador afirma que os argumentos do governo são frágeis porque os dados são gerados por um instituto ligado ao próprio governo federal e foram obtidos por meio de metodologia validada no exterior. Outros países podem usar os mesmo equipamentos acessados pelo Inpe para levantar as informações, assim como jornalistas por meio da Lei da Transparência.


Segundo pecado – Colocar a culpa nos outros


“Pode estar havendo ação criminosa pra chamar atenção quanto a minha pessoa, quanto ao Brasil. Agora vamos fazer o possível e o impossível para combater esse incêndio criminoso que no meu entender, há interesse dessas ONGs, que representam interesses de fora do Brasil”, é uma das declarações de Bolsonaro sobre as queimadas na Amazônia. 


Para Cortês, a fala demonstra um desconhecimento em relação à atuação das ONGs, “que conseguem muitas vezes fazer o serviço que o governo não consegue. Mas presidente insiste em dizer que, ora é a ONG, ora é o índio que coloca fogo na Amazônia”.


Terceiro pecado – Dizer que os índios e caboclos é que colocam fogo na Amazônia


“Os incêndios acontecem praticamente nos mesmos lugares, no entorno leste da floresta. Onde o caboclo e o índio queimam seus roçados em busca de sua sobrevivência, em áreas já desmatadas”, afirmou Bolsonaro em outro momento.


Segundo o professor, boa parte do desmatamento na Amazônia ocorre em regiões mais a Leste. Na região Oeste, onde também há comunidades indígenas, o desmatamento é quase inexistente.  Além disso, ele afirma que a colocação do presidente não se sustenta porque o crescimento populacional na região, que é pequeno, não justifica o crescimento do desmatamento, que chega a percentuais superiores a 20%.


Quarto pecado – Usar a justificativa de que “o Brasil alimenta o mundo”


“Garantimos a segurança alimentar a um sexto da população mundial, mesmo preservando 66% de nossa vegetação nativa e usando apenas 27% de nosso território para pecuária e agricultura, números que nenhum outro país possui. O Brasil desponta como o maior produtor mundial de alimentos e por isso há tanto interesse em propagar desinformação sobre o nosso meio ambiente. Estamos abertos para o mundo naquilo que melhor temos para oferecer, o nosso produto do campo. Nunca exportamos tanto. O mundo cada vez mais depende do Brasil para se alimentar”, disse o presidente.


Cortês avalia que apesar de o Brasil ser um grande exportador de alimentos, não é o único produtor mundial. Ele acredita que a invasão de áreas públicas da Amazônia pode gerar embargos por parte dos próprios consumidores, especialmente na Europa, e por parte de governos, por questões protecionistas.


Por isso, o combate ao desmatamento é uma medida necessária para evitar restrições ao comércio exterior de alimentos, já que há alternativas de produtores em outros países.


Quinto pecado – Dizer que os outros países devastaram suas florestas


O pesquisador lembra que o Brasil também devastou a Mata Atlântica, comprometeu o Serrado e prejudicou outros biomas ao longo de sua história, mas esses fatos não dão aval para continuar a fazer o mesmo com a floresta amazônica.


Sexto pecado – Usar a justificativa de que “o Brasil é o país que mais preserva”


Cortês não vê nesse argumento um poder de convencimento para o mercado externo, já que há alternativas aos produtos brasileiros. “Se a gente verificar essa parte do discurso, realmente o Brasil é um dos que mais preservam, mas fica difícil convencer outros países que podem embargar nossos produtos, porque esse embargo pode partir direto do consumidor, ou dos governos”, diz.


Sétimo pecado – Alegar que há interesses na internacionalização da Amazônia


O último pecado identificado pelo professor é o governo passar a ideia de que as áreas indígenas esconderiam reservas mineiras. Para ele, o argumento também é frágil porque não há pesquisa mineral nessas áreas, portanto não deve haver uma corrida de mineradoras na região.


“[Além disso] nada impede que o garimpo legal ocorra na Amazônia. [Bolsonaro] cai no discurso usado pelos militares na década de 1960, mas os países que estão interessados em explorar a região nunca tiveram problema pra isso”, afirma.


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