"Deram espaço a vozes negacionistas", diz Mateus Vargas, autor de série de furos na pandemia

Leandro Haberli | 15/12/2020 12:11
Formado em jornalismo em 2016 pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Mateus Vargas trabalhou apenas 3 meses no jornal Notícias do Dia, em Florianópolis, antes de se mudar para Brasília, para atuar como editor-assistente do Poder360. Em 2018 foi para o JOTA, onde trabalhou por cerca de 1 ano e meio como repórter do JOTA PRO Saúde, serviço fechado para assinantes e voltado às empresas do setor. 

"Ali pude acompanhar de perto as atividades principalmente do Ministério da Saúde e da Anvisa. A cobertura foi essencial para, neste ano, cobrir a pandemia", diz o jornalista, que foi convidado para trabalhar no Estadão em julho de 2019, para ser setorista do Palácio do Planalto. "Fiquei neste posto até o fim de fevereiro, quando passei a cobrir assuntos ligados à pandemia quase que exclusivamente", conta Mateus, que assinou pelo Estadão furos e reportagens impactantes sobre a crise sanitária.  

Dentre elas, destaque para a série de matérias sobre os relatórios da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) sobre a pandemia, que iam na contramão do discurso negacionista do presidente Jair Bolsonaro, e sobre a incompetência logística do Ministério da Saúde, que comprometeu a distribuição de testes RT-PCR pelo país. 

Na entrevista a seguir concedida por email ao Portal IMPRENSA, o repórter fala mais sobre os furos, os desafios e os bastidores da cobertura da pandemia a partir da sucursal do Estadão em Brasília. 
Crédito: Reprodução TV Brasil

Portal IMPRENSA - Quais as principais pautas que você acompanhou na cobertura da pandemia?
Mateus Vargas - Acompanhei todos os principais episódios que envolveram o Ministério da Saúde e órgãos como a Anvisa nesta pandemia, como a troca de ministros, militarização da pasta, mudança de discurso no governo sobre a doença, inúmeras crises e também as discussões mais recentes sobre compra de vacinas. Acabei não acompanhando muito de perto, porém, movimentações de hospitais, o caos funerário e o avanço da doença sobre a população, pois o foco da cobertura em Brasília acaba sendo dos atos do governo.

Portal IMPRENSA - Por que a série de matérias sobre relatórios da Abin que tratavam da pandemia teve tanta repercussão?
Mateus Vargas - Os documentos apontavam um cenário diferente da doença comparado àquele apresentado pelo governo. Os agentes de inteligência alertaram o governo sobre subnotificação de casos, colapso funerário, efeitos benéficos do distanciamento social – inclusive para a economia -- e não recomendavam uso de medicamentos sem eficácia comprovada contra a doença, como a hidroxicloroquina. 

Portal IMPRENSA - Por favor, fale mais sobre as matérias que você assinou sobre atas do Centro de Operações de Emergência (COE) do Ministério da Saúde. O que os documentos revelaram?
Mateus Vargas -  Os documentos mostram alertas feitos ao ministro de que efeitos da covid-19 poderiam durar até 2 anos, caso não fosse adotado o distanciamento social. Também apontam mudança de discurso do ministério, que passou a afirmar que não tinha responsabilidade sobre a entrega de respiradores e máscaras. Além disso, revelam alertas sobre a produção desmedida de cloroquina, enquanto faltavam medicamentos essenciais para UTI. 

Portal IMPRENSA - Você também participou da matéria que revelou o fracasso de logística do Ministério da Saúde para distribuição de testes RT-PCR?
Mateus Vargas - Sim. Esses testes são essenciais para diagnóstico e controle da pandemia. A apuração mostrou que cerca de 7 milhões de exames perdem validade a partir de dezembro. O número era maior do que de testes feitos no SUS até ali. E a meta do ministério era ter realizado mais de 24 milhões de análises até dezembro. 

Portal IMPRENSA - A pandemia da covid-19 já dura quase nove meses. A rotina da cobertura também mudou nesse período? 
Mateus Vargas - A minha rotina mudou bastante durante a pandemia. Além de entrar em home office, deixei de acompanhar diariamente o presidente Jair Bolsonaro no “cercadinho”, Planalto e onde mais ele estivesse. No começo da pandemia também havia coletivas diárias, presenciais, do Ministério da Saúde, o que parece ter voltado a acontecer. Tenho saído pouco de casa para trabalhar. 

Portal IMPRENSA - Como fazer uma cobertura desse tipo em home office?
Mateus Vargas - O home office dificulta para o acesso às fontes. Em Brasília é comum esbarrar com autoridades numa caminhada pelo Congresso. As apurações por celular ganharam força. Mas também conseguimos encontrar algum tempo a mais durante o dia ao evitar deslocamentos e portarias. 

Portal IMPRENSA - Na sua opinião, quais foram os principais pontos positivos e negativos da cobertura da pandemia da covid-19 no Brasil?
Mateus Vargas - De forma geral, a imprensa ajudou a transmitir orientações que o governo federal, principalmente, tem negado. Por exemplo, sobre o benefício do distanciamento social, evitar aglomerações, uso de máscara e outros cuidados. Além disso, foi importante o papel da imprensa de divulgar documentos de discussões internas dos governos, expor falhas de logística na entrega de insumos contra a doença ou exageros na produção de medicamentos sem eficácia comprovada. Quando o ministério tentou esconder dados, a imprensa também se uniu para passar a divulgar um levantamento próprio. 

Portal IMPRENSA - E quanto aos pontos negativos?
Mateus Vargas - Creio que os pontos negativos, em geral, estão ligados a dificuldade do tema, das discussões técnicas e científicas. A pressa do hard news levou, em alguns momentos, a simplificar demais algumas discussões, como sobre prazos para registro de medicamentos, vacinas, etc. Além disso, alguns canais fizeram escolhas editoriais e deram espaço a vozes negacionistas na pandemia, sob o argumento de defesa da pluralidade. Mas a cobertura foi muito mais positiva. 

Portal IMPRENSA - Quais os principais desafios da cobertura da pandemia? 
Mateus Vargas - Acho que o principal desafio é equilibrar a cobertura. Conversar com fontes de diversos setores, especialistas, etc, para quando surgir uma decisão técnica, por exemplo, conseguir acertar o tom da notícia. Além disso, conseguir superar a barreira do acesso a dados que o governo tem imposto. Os documentos de discussões internas, dados de estoques de insumos, entre outras informações, não são de fácil acesso. O Ministério da Saúde, por exemplo, tem negado até pedidos de Lei de Acesso à Informação que, em outros tempos, eram aceitos. 

Portal IMPRENSA - Tivemos muitas fake news sobre a covid-19 nas redes sociais. Como elas impactaram o trabalho da imprensa?
Mateus Vargas - As fake news foram divulgadas até pelo presidente da República. Viraram discurso oficial do Ministério da Saúde, como no caso do uso de medicamentos sem eficácia comprovada. Dificultam por aumentar a carga de trabalho e criar um clima “anticiência” no País. É preciso buscar informações confiáveis para rebater declarações falsas. Há ainda uma parcela da população que duvida e ataque matérias/jornalistas que apontam essas fake news.

Portal IMPRENSA - Como  a disputa política entre o governo federal e governadores e prefeitos sobre o isolamento social e agora em relação à vacina interferiu na cobertura da imprensa? 
Mateus Vargas - Esse ambiente polarizado acaba lançando dúvida sobre qualquer decisão que um dos lados toma. Creio que a Anvisa, hoje, é um órgão prejudicado por essa politização. Qualquer decisão que a agência tomar, mesmo que bem embasada, será vista com desconfiança pelas autoridades e pela imprensa, pois o próprio presidente usou manifestações da agência neste ano como arma política para atacar adversários, por exemplo. Para evitar embarcar num desses discursos, o ideal é sempre ter boas fontes “especialistas” mesmo. O ano também foi de muita violência contra a imprensa. Basta lembrar das cenas do “cercadinho” do Palácio da Alvorada. Isso tudo foi alimentado por discursos de autoridades.

Portal IMPRENSA - Como você acredita que será a cobertura no ano que vem?
Mateus Vargas - Creio que será difícil, novamente. Ainda há muita incerteza sobre como será o processo de vacinação no País. Nem mesmo sabemos se haverá seringas suficientes. Há expectativa sobre voltar ao “normal”, mas a pandemia segue em alta e há claro relaxamento do distanciamento social. A economia também seguirá prejudicada. Tudo considerado, é certo que será um ano de novas e inúmeras crises.