Monitoramento revela que menos de 1% dos tuítes sobre o caso Mari Ferrer foi a favor do réu

Redação Portal IMPRENSA | 09/12/2020 12:04

O Portal AzMina e o InternetLab divulgaram esta semana o monitoramento de tuítes feito depois que o resultado do julgamento de André de Camargo Aranha, acusado de estuprar a jovem Mariana Ferrer, veio à tona com a reportagem do The Intercept Brasil, em 3 de novembro.

Crédito:Reprodução / Vídeo

O processo tramita em segredo de justiça e a audiência ocorreu em setembro, mas virou notícia e ganhou grande repercussão nas redes sociais com a matéria que expôs parte da gravação dos depoimentos e falas. O julgamento foi recheado de posicionamentos machistas e teve momentos de intimidação à vítima, conforme revelou a reportagem.


No Twitter, conforme o monitoramento de AzMina e InternetLab, as pessoas passaram a questionar o tratamento dado às mulheres e aos casos de violência sexual pela Justiça brasileira. 


De acordo com o levantamento, 93,64% das mensagens eram favoráveis a Mariana Ferrer, enquanto 5,63% somente relataram o caso, colocando-se de forma neutra e apenas 0,73% dos usuários se diziam a favor da sentença que absolveu André de Camargo Aranha. Esse último percentual também acusava o The Intercept Brasil de editar as falas da audiência.


Entre os posicionamentos favoráveis, os usuários pontuaram as dificuldades enfrentadas pelas mulheres no Brasil e o acesso à justiça. O debate foi ampliado para o tratamento com mulheres negras, LBT+ e de classes populares. Muitas publicações fizeram referência aos costumes sexistas e à comum culpabilização da vítima. 


O termo “estupro culposo”, usado pelo The Intercept Brasil depois que o promotor do caso argumentou que André de Camargo Aranha não tinha como saber se a jovem estava ou não consentindo o ato sexual, foi muito usado entre as mensagens postadas. 16% dos tuítes analisados faziam referência ao termo e à não existência dessa classificação de crime.


Cobrança de posicionamentos 


O monitoramento identificou que 10% das publicações cobravam o posicionamento de clubes de futebol, de outras mulheres e de homens em geral em relação ao caso.


21% dos tuítes também apontaram que muitas pessoas, especialmente homens, se posicionavam nas redes, mas não sustentavam suas práticas fora da internet. As mensagens cobravam que mais do que comoção em relação ao caso, é necessário combater as desigualdades de gênero, as piadas machistas e as situações de assédio e violência sexual.


Ofensas e xingamentos


Para os autores do levantamento, foi uma surpresa que a minoria dos tuítes fizesse ofensas à vítima. Além de o número de tuítes contrários a ela ser muito baixo, apenas 0,73% dos usuários,os xingamentos e ofensas não foram direcionados à Ferrer, mas ao contrário, expressavam revolta em apoio a ela.


Ofensas e xingamentos estavam presentes em 15,5% dos casos analisados e se distribuíam entre expressões como “amigo de abusador”, “abusador”, “assediador”, “passador de pano”, “doente mental”, “retardado”, “porcos”, “asqueroso”, “nojento” e até incitação à violência contra o juiz e o réu.


A descrença no sistema judiciário fez com que parte dos usuários expressasse o desejo de fazer justiça com as próprias mãos. Parte deles (6,29%) decidiu divulgar dados como endereço e telefone do acusado, do seu advogado e do promotor do caso.


A pesquisa


O levantamento foi feito em dois momentos. Primeiro foram coletados os tuítes e retuítes relacionados ao caso publicados entre os dias 3 e 5 de novembro. Foram usadas as palavras-chave: “Mari Ferrer”, “Caso Mariana Ferrer”, “Estupro Culposo”, “André de Camargo Aranha”, “#justicapormariferrer” e “#justicapormarianaferrer”. 


A busca levou ao total de 392.049 tuítes e retuítes. Para viabilizar o estudo, os pesquisadores focaram apenas nos tuítes. Foram analisados aqueles com mais de 5 likes e 5 RTs, o que levou a aproximadamente 3 mil tuítes. No segundo momento, foi feita a leituras e classificação de padrões.


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