Tensão entre jornalismo e negacionismo na pandemia é retratada em documentário

Leandro Haberli | 03/12/2020 10:30
Jornalista e documentarista, Caio Cavechini é o diretor de 'Cercados - A Imprensa Contra o Negacionismo na Pandemia', que estreia nesta quinta (3) na Globoplay. 

Acompanhando durante a crise sanitária o trabalho de mais de 60 profissionais de diferentes meios e veículos, com destaque para a TV Globo, o trabalho mostra os bastidores da imprensa na cobertura do coronavírus no Brasil. 

"Depois de um mês de gravação, ficou claro que estávamos diante de um caso muito particular no mundo, com a imprensa atacada e o negacionismo sendo estimulado por autoridades públicas. Essa tensão se tornou naturalmente o fio condutor do documentário", disse o diretor em entrevista por email ao Portal IMPRENSA. 
Crédito:Reprodução Globoplay
Jornalista e documentarista, Caio Cavechini já trabalhou no Profissão Repórter e dirigiu série sobre Marielle Franco


Com passagens como repórter e editor-executivo pelo ‘Profissão Repórter’, da Globo, Cavechini já dirigiu, entre outros documentários, ‘Carne, Osso’, sobre o trabalho em frigoríficos, que foi o vencedor do prêmio Vladmir Herzog em 2012. Em 2020, dirigiu também para a Globoplay sua primeira série: Marielle - o documentário. 

Documentário de imersão
O jornalista conta que a ideia de fazer o documentário sobre os bastidores da cobertura do coronavírus surgiu em abril. "Essa decisão foi tomada na época da crise com o então ministro Mandetta, e logo formamos uma equipe com colaboradores em diversas cidades - já que havia uma restrição de viagens - para dar conta desse desafio."
  
Sobre o roteiro do documentário, Cavechini explicou que a intenção foi optar por um formato alternativo ao de entrevistas. "Preferimos fazer um documentário de imersão, gravando diariamente as situações vividas por dezenas de jornalistas dos mais variados veículos do país. Buscamos acessos aos bastidores do trabalho em redações como a do Jornal Nacional, no Rio, o principal telejornal do país, mas também à rotina de fotógrafos freelancers, repórteres de política, videomakers."

O jornalista conta que, além do Rio, o trabalho da imprensa em Manaus, Fortaleza, Brasília e São Paulo foi o mais retratado no documentário. "Manaus e Fortaleza apresentavam um quadro grave logo no começo da pandemia. Brasília é o centro do poder político. São Paulo, em termos absolutos, teve o maior número de casos e mortes, e viveu um quase colapso do sistema de saúde", justifica Cavechini. 

Sobre a escolha dos momentos que ficaram na edição final, ele explica que, como o documentário era de imersão e tempo presente, o critério foi o "registro de algo relevante ou particular que aquele jornalista estava vivendo: a demissão de um ministro, um protesto, uma notícia de óbito durante uma pauta em um hospital". 

Uma das passagens mostra uma pane que interrompeu a transmissão da abertura do Jornal Nacional. Outra, o momento em que um videorrepórter da TV Ceará, afiliada da TV Cultura e da EBC, recebe áudios de seus familiares sobre o agravamento do quadro clínico do avô, internado com Covid-19. 

Perguntado sobre as dificuldades de realizar uma reportagem desta envergadura em tempos de pandemia, o diretor de 'Cercados - A Imprensa Contra o Negacionismo na Pandemia' lembra das primeiras semanas de maio, quando duas crises atingiram o seu auge: a sanitária e a política. 

"Ao mesmo tempo em que o país parava para ouvir as acusações de interferência do presidente na Polícia Federal, vimos um ministro da Saúde pedir demissão, o segundo na pandemia, e o número de mortes registradas diariamente crescer e chegar a mil por dia, todos os dias. Foi um desafio imenso acompanhar os vários desdobramentos dessa sucessão de calamidades: em São Paulo, Manaus, Fortaleza, Brasília e no Rio de Janeiro, com equipes atuando simultaneamente para oferecer um olhar particular sobre a atividade jornalística no meio desse turbilhão."